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A vanguarda do ficar, de Paulo Leminski, para repensar a Moda

Dias atrás li um ensaio do Paulo Leminski chamado A vanguarda do ficar. Bem alinhado com uma nova forma de pensar a moda, o texto fala sobre contrariar o que o autor chama de “mudançolatria”.

Quando Leminski afirma, brilhantemente, que “as modas, com sua velocidade paranoica, estão aí para nos consolar da impossibilidade da uma mudança realmente radical das coisas” ele explica a raiz do consumo excessivo: uma válvula de escape para outras frustrações. E quando o autor coloca a arte como sendo um espaço de equilíbrio, onde “vencem sempre os artistas que não mudam“, é possível traçar um paralelo com a forma como entendo a moda: uma maneira de expressão particular através das roupas, que, parte da nossa identidade, não precisam ser substituídas a cada estação.

O que isso quer dizer é que quando somos artistas que “prosseguem fiéis a um projeto original“, ou seja, ao nosso estilo pessoal bem entendido e bem resolvido, deixamos de lado a “mudançolatria”. Só assim é possível mudar o modo como nos relacionamos com a moda e, consequentemente, a forma como consumimos. Não é sobre abandonar a moda, mas sobre saber utilizá-la apenas como acessório para um “mergulho para dentro do maravilhosamente imutável achado perpétuo, aquela coisa, enfim, que justifica uma vida“.

Deixo-os com o ensaio de Leminski e com a certeza de que esse tema ainda vai render muito assunto por aqui.

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A vanguarda do ficar (Paulo Leminski)

“Esse mundinho explosivo em que vivemos parece favorecer uma certa “mudançolatria”, um culto fervoroso a tudo que seja novo, ou, pelo menos, pareça novo.

Nem vamos insistir no uso abusivo que a publicidade faz da palavra “novo” para qualificar positivamente um produto ou um processo que se quer vender ao respeitável público. Sabemos que, na maior parte dos casos, é um “novo” só de fachada, de aparência, uma apropriação indébita do conceito de “novidade”, já que nosso mundo parece produzir cada vez mais o mesmo tipo de coisas, para obter o mesmo tipo de resultados, da Washington a Moscou, de São Paulo a Pequim, de Havana a Pretória.

O ritmo supremo, a missa dessa Mudançolatria, é esse gesto coletivo chamado “moda”, consagração do efêmero, consagração do passageiro, vitória do tempo sobre o ser. O verde-musgo, campeão da última “saison”, é um cacófato imperdoável na “saison” seguinte, quando o amarelo-ouro e o roxo-crepúsculo reinam soberanos. Os abrigos esportivos, chiquérrimos há um ano, agora são quase uma grosseria, coisa de repertórios decididamente atrasados. A montanha russa entre as coisas “in” e as coisas “out” não pode parar.

Tudo isso está intimamente ligado a um dos mitos mais caros da nossa civilização, o mito do “progresso”, balela inventada por essa classe social que sempre confundiu avanço da humanidade com a prosperidade dos (seus) negócios.

Claro que essa “mudançolatria” só tem vigência no microuniverso dos detalhes, uma vez que os quadros gerais prosseguem sempre os mesmos. É como se a moda, a onda, como se diz, fosse as migalhas da mudança, que realmente mudaria tudo, a vida, as pessoas e as relações entre as pessoas. Em alguns terrenos, as mudanças teriam consequências tão graves que o mais sábio é deixar tudo como está. Inovações tecnológicas, por exemplo, são catastróficas.

Não é segredo para ninguém que a gasolina já poderia ter sido substituída por alguma outra fonte de energia para mover máquinas e motores, caminhões e automóveis. Mas as consequências econômicas e sociais dessa substituição em desemprego, desativamento de parques industriais imensos, decadência de regiões agora prósperas, revoluções de hábitos, nenhuma sociedade tem recursos para fazer frente a uma mudança desse porte. As modas, com sua velocidade paranoica, estão aí para nos consolar da impossibilidade da uma mudança realmente radical das coisas.

Mas existe um território onde a avidez pelo novo pode se exercer sem convulsões sociais extremas. É a chamada “arte”, território, aliás, que nem os mais hábeis cartógrafos culturais conseguiram delimitar em fronteiras reconhecíveis. Na arte, os conceitos de velho e de novo ganham a arena perfeita para os jogos de gladiadores que a Mudançolatria exige. A luta entre os estilos, a guerra entre as tendências, os conflitos entre as escolas, a arte, toda a arte, é uma das artes marciais. Mas não nos iludamos com tanta belicosidade.

É na arte que se restabelece o equilíbrio. Num mundo de tantas mudanças, na arte, por exemplo, vencem sempre os artistas que não mudam. Que prosseguem fiéis a um projeto original. Sonâmbulos de uma miragem primordial. Cegos e surdos a todos os apelos, como Ulisses, de ouvidos tapados, passando diante da ilha das Sereias. É nas horas em que eu penso essas coisas que me lembro de João Cabral de Mello Neto, um poeta que nunca mudou. Cabral descobriu o Brasil, João Cabral descobriu o cristal. E cristais João Cabral vem concretando há mais de trinta anos. Igual. Idêntico. Impecavelmente idêntico a si mesmo.

O próximo nome que me ocorre é, claro, o outro João, o Gilberto, igualmente igual a si mesmo, ao longo de décadas, perseguindo sempre o mesmo som, o mesmo som dentro do som, o mesmo som dentro do mesmo som. Cansei de ouvir, “João não muda”. Que bom! Não muda, João!

Outro é Jobim. Tem uma coisa no Maestro Antônio Carlos que é uma demanda do santo graal, um mergulho para dentro do maravilhosamente imutável achado perpétuo, aquela coisa, enfim, que justifica uma vida. Tiro Jobim, e coloco os Stones. “Os Rolling Stones é sempre a mesma coisa”, vivo ouvindo o pessoal reclamar. Bobagem. Que importa que sejam sempre a mesma coisa, se são inimitáveis, como Jorge Ben e Dalton Trevisan, dois outros imutáveis?

Enfim, este abraço vai para todos vocês que não mudam, que teimam numa nota só, que batem sempre na mesma tecla, que usam sempre a mesma palavra, que pensam sempre a mesma coisa. Ninguém consegue aprimorar a forma do ovo. Ninguém consegue melhorar o gosto da água”.

(Imagem: Visualhunt)

Moda

Veludo em tudo

As vitrines apresentam pré-coleções enquanto a temporada de Moda internacional mostra o inverno de grandes marcas em Nova Iorque, Londres, Milão e Paris. Aqui ou lá, a presença do veludo é garantida.

Natural ou sintético, o tecido que possui um lado coberto por pelos curtos, densos e com textura macia e outro lado liso, ganhou destaque na moda contemporânea nas décadas de 1960 e 1970 quando calças e coletes em veludo cotelê fizeram o maior sucesso no guarda-roupa feminino e masculino. A fabricação desse nobre material teve origem no Oriente, passando a ser produzido na Itália, no final da Idade Média, e posteriormente na França; países que até os dias atuais dão nome e garantia de qualidade aos tecidos produzidos em seu território.

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John Paul Ataker fall 2017
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Carolina Herrera fall 2017

Tom Ford foi um dos responsáveis pelo retorno no veludo às passarelas, ao apresentar peças confeccionadas com esse material em suas coleções para a italiana Gucci. Não por acaso, a sala dedicada às suas criações no museu da grife, em Florença, é revestida de veludo vermelho do chão ao teto.

Na última edição da New York Fashion Week, o veludo aparece em visuais atuais, além dos tradicionais paletó e calça de alfaiataria, vestidos de gala e luxuosos sapatos, como o modelo do desfile da Carolina Herrera. Na passarela da Son Jung Wan, o conjunto monocromático mistura materiais e texturas, enquanto a Lacoste misturou veludo de diferentes cores em peças amplas e confortáveis.

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Son Jung Wan fall 2017
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Lacoste fall 2017

Assim como o styling da Lacoste, as peças da passarela de Nicholas K. mostram o veludo em looks para serem usados no dia-a-dia. A aposta é misturar tecido nobre com modelos casuais em composições descomplicadas. O confortável tênis é um dos itens confeccionados em veludo para o preview da Arezzo, e a t-shirt ganhou uma versão no material na coleção da Iorane.

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Nicholas K. fall 2017
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Arezzo preview inverno 2017
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Iorane inverno 2017

Não faltam opções em veludo para as adeptas de peças com um toque de sensualidade e ousadia: tem body de veludo na coleção da Lilly Sarti, e sandália com amarrações no inverno da Luiza Barcelos. Para todo mundo usar!

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Lilly Sarti inverno 2017
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Luiza Barcelos inverno 2017

(Imagens: divulgação)

Moda

Uma é pouco

Uma bolsa muitas vezes não é o suficiente. Por isso, os modelos apresentados na passarela da Anya Hindmarch, em Londres, e no desfile da Gucci, em Milão, já tornaram-se objeto de desejo de muita gente.

Na coleção da designer de acessórios Anya Hindmarch, os modelos trazem composições de cores contrastantes, em tom sobre tom ou trio de neutros, sempre com mistura de materiais, texturas e detalhes lúdicos.

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Já a italiana Gucci uniu, através de ganchos, clássicos da marca em composições que misturam peças com as tradicionais listras e/ou logo da grife e bolsas icônicas como a  Bamboo bag. Ao lado das estampas e acessórios marcantes da coleção o efeito é ainda mais impactante.Você usaria?

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(Imagens: divulgação)

Moda

Cinco destaques da NYFW (inverno 17/18)

A Semana de Moda de Nova Iorque acabou, e entre os desfiles que acompanhei compartilho cinco favoritos que trazem informação e inspiração para diferentes estilos nas próximas estações.

• As composições com vestidos na Coach

Vestidos com estampas clássicas, como listras e xadrez, e desenhos onde predominam tons neutros são bons investimentos em qualquer época do ano. A passarela da Coach estava repleta de boas ideias para usar essas peças em dias bem frios: os vestidos (ou saias), a maioria em tons terrosos com um toque de azul, desfilam ao lado de jaquetas e casacos pesados lisos ou estampados dentro da mesma cartela de cores. Dois tons de bege com mostarda e azul ou três tons de marrom com bege e preto são algumas inspirações do styling da marca, que equilibrou as produções com calçados e acessórios com o mesmo “peso” dos casacos.

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• O retrô na medida, da Jenny Packham

Pérolas, tricô bordado e saia de renda com a cintura alta. Tudo isso em visuais nada antiquados na passarela da Jenny Packham. Uma das formas de combinar esses elementos sem deixar o look datado é adicionar um toque de sobriedade, com uma peça de alfaiataria xadrez em tons escuros, ou itens casuais como t-shirts, jaqueta de couro ou tênis. Cartelas de cores neutras também contribuem para que a mistura de estilos não fique carregada. Detalhe importante! Repare que a beleza não é “careta”: cabelos desalinhados + batom vermelho escuro.

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• Os looks neutros e lisos na Narciso Rodriguez

Recortes e detalhes geométricos e coordenação de três ou mais cores tira do lugar comum as peças de alfaiataria. A coleção da Narciso Rodrigues mostra que estampas e mix de referências não são obrigatórios para modernizar o closet. Fãs de alfaiataria e adeptas das cores neutras podem reciclar os clássicos com peças que trazem decotes e detalhes vazados em linhas retas e modelagens que estão em alta na temporada, como blazers alongados, casacos amplos e calças mais curtas.

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• O étnico sofisticado de Ralph Lauren

A coleção da Ralph Lauren traz um toque étnico sem precisar (necessariamente) de contrastes de cor e combinações ousadas de estampas: brincos, colares e bolsas maxi, sandálias de plataforma com estampa píton e muito contraste de textura criam essa atmosfera em visuais monocromáticos. Para enriquecer a produção, invista em materiais rústicos e superfícies que remetem ao trabalho artesanal. Repare que a jaqueta de couro preta, com detalhes utilitários e cinto amarrado na cintura não lembra nem um pouco o universo rock ao qual ela frequentemente é relacionada.

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• A elegância confortável (e a cartela de cores) da Victoria Beckham

Sempre marcada por muita elegância, a grife (e o closet) da Victoria Beckham não deixou essa característica de lado; mas apresentou peças não tão justas e combinou sofisticados vestidos  de manga longa com sapato sem salto. Vestidos e conjuntos com a modelagem ampla e tecidos aconchegantes trazem visuais chiques que dão vontade de vestir. A lição de styling da marca, para “sofisticar” peças neutras, tricôs básicos e até mesmo o moletom é aliar a eles elementos como gola alta, fenda e bico fino.

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(Imagens: divulgação)

Moda

Vermelho com roxo

Cada um tem o seu tom de vermelho favorito. E as coleções do pre fall internacional trazem inspirações para coordenar a cor em trios que fogem do óbvio.

Os visuais da J. Mendel e Kimora Lee Simmons provam que vermelho e roxo vão muito bem juntos. Melhor ainda quando pontuados por um neutro claro como bege ou off-white. Para aderir à combinação de forma sutil, experimente uma dupla de bolsa e sapato, um em cada cor, com vestido bege; ou um colar com pedras vermelhas sobre top roxo + jeans e bolsa neutra.

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J. Mendel
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Kimora Lee Simmons

(Imagens: divulgação)

Moda

Para (começar a) falar de acessórios da temporada internacional

A Semana de Moda de Nova Iorque está chegando ao fim para dar lugar à London Fashion Week; mas os apaixonados por acessórios não podem deixar de conferir as apresentações que aconteceram no decorrer dos últimos dias: os maxi brinco estão ainda maiores.

Na passarela da Zimmermann, Naeem Khan, Nicholas K e Christian Siriano, argolas enormes. Naeem Khan revestiu o acessório com pele, material que também aparece em outros acessórios, e Nicholas K e Christian Siriano apostam na argola de um lado só. Mesmo grande, o brinco da passarela de Christian Siriano é enfeitado por insetos (tendência!) e pérolas em conjunto com o colar.

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Brinco de um lado só também no desfile da Jill Stuart e modelos diferentes para cada lado na passarela da Jason Wu, onde os acessórios de pedras e pérolas não são nada tradicionais; enquanto jóias clássicas são atualizadas com novas proporções e materiais  nos acessórios de John Paul Ataker e Naeem Khan.

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Por falar em Naeem Khan, o que dizer dos brincos de bolinhas e laço em diferentes cores e materiais? Outro modelo volumoso é o acessório cheio de medalhas douradas da passarela da Altuzarra.

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Os ear cuffs, assim como as chokers, devem permanecer em alta. Na New York Fashion Week, Jason Wu e Oscar De La Renta foram algumas das grifes que levaram modelos cheios de pedras para a passarela.

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E isso tudo é apenas um “gostinho”. Ainda teremos muito a comentar não apenas sobre os brincos, mas sobre todos os acessórios da temporada internacional. Eles estão incríveis!

(Imagens: divulgação)

Beleza, Moda, TV & Cinema

BAFTA 2017

No último domingo aconteceu, além do Grammy, o British Academy Film Award. E com tantos visuais incríveis, minhas cinco favoritas do Tapete Vermelho do BAFTA precisam ser compartilhadas.

Vestindo Alexander McQueen, Kate Middleton acertou no visual dramático com estampa floral e jóias que não deixam seu estilo de lado. Sem perder a identidade, mas adequado ao peso visual e volume do vestido, o maxi brinco tem design clássico.

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Holliday Grainger também vestiu floral com fundo preto, mas combinou o modelo com batom e unhas escuras e cabelo desalinhado em um look cheio de personalidade. É um dos meus favoritos ao lado do visual da Emily Blunt, mais uma a escolher Alexander McQueen para atravessar o tapete vermelho.

Mais que um impactante vestido bordado, Emily Blunt foi muito feliz na escolha dos acessórios: um maxi anel de libélula + brinco em uma das cores do bordado pontuando com um detalhe lúdico e uma cor marcante o look com detalhe retrô mas muito atual.

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Brilhando muito, Michelle Williams, de Louis Vuitton, e Emma Stone, de Chanel, fecham a lista. Michelle Williams mostra que sandália com tiras largas pode sim completar visuais de gala. Para não parecer “pesada” demais, ela precisa ser combinada a outro detalhe, elemento ou acessório com o mesmo peso visual. Aqui, o bordado é o responsável por esse equilíbrio.

No visual de Emma Stone, os cabelos lisos penteados para trás + maquiagem em tons neutros compõe a beleza perfeita para não deixar o conjunto bordado com sapato e brinco combinando over. Impecável.

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(Imagens: reprodução)