Comportamento, Moda

Etiqueta vermelha

Não é de hoje que as lojas iniciam suas liquidações de inverno quando a estação mal começou. Mas confesso que esse ano levei um susto quando comecei a receber anúncios de saldos e lançamento de coleção resort enquanto ainda espero o primeiro “frio de verdade” do ano. Sabe aquela antiga chamada de preços baixos que diz “deu a louca no gerente”? Nunca fez tanto sentido. Minha proposta é deixá-lo “fazer o louco” sozinho por diferentes motivos.

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O primeiro deles é que não precisamos acelerar mais ainda as coisas. Do antigo calendário onde as marcas apresentavam quatro coleções por ano (embora não julgue viável voltar a ele) passamos a inserir coleções intermediárias e linhas entre as intermediárias até chegar ao ponto de tirar de cena a coleção de inverno na chegada da estação: as lojas já estão “botando fora” aquela bota que você nunca usou! Mais que estimular o consumo frenético quando o mundo pede (implora!) consciência e responsabilidade com compra e descarte, as liquidações precoces afetam profundamente pequenas, e até médias, empresas e marcas que não podem competir em preço e ritmo.

Olhando por um viés “egoísta”, será que há vantagem real em comprar aquela peça de R$ 300 por R$ 100, ou você só está pagando o que ela realmente vale (ou mais)? E pensando em moda ética, será mesmo que algumas dessas empresas resolveram praticamente doar seus produtos recém lançados, abatendo 70% de seu valor, em um sopro de bondade? Ou há algo muito errado na precificação cheia? Etiquetas que oferecem 60, 70% de desconto em produtos novos abrem espaço para uma importante reflexão: o quanto de lucro abusivo e práticas duvidosas podem conter aí?

(Imagem: Simon Greig Photo via Visual Hunt)

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Comportamento, Moda, Negócios

Fashion Revolution?

O dia 24 de abril de 2013 foi um dia triste para a moda. A queda do Rana Plaza, em Bangladesh, foi uma das maiores tragédias que a indústria já viveu. O edifício que abrigava em condições precárias diversas fábricas de roupas que produziam para grandes marcas globais – como Benetton, Mango e Primark, conforme noticiado na época – colapsou, levando em poucos minutos a vida de mais de mil trabalhadores têxteis e deixando outros 2,5 mil feridos. Detalhe: alguns meses antes, outras centenas morreram em um incêndio ali mesmo e nada foi feito. No total, foram 200 mil pessoas mortas, em trezentos acidentes em fábricas como essa no século XXI.

O cenário, que mais parecia uma zona de guerra (entre escombros, pedaços humanos e pessoas soterradas vivas), foi o ponto de partida para o movimento Fashion Revolution, criado em Londres pelas designers e ativistas Carry Somers e Orsola de Castro com o objetivo de despertar a consciência para as práticas antiéticas na moda e lutar por um mercado fashion mais seguro, sustentável e humano“.

O trecho acima, retirado do livro Moda com Propósito, do André Carvalhal, explica o surgimento e intenção da Revolução Fashion. O movimento impulsiona diversos eventos para discutir o tema, especialmente durante o mês de abril, em diferentes frentes, da indústria ao varejo. Tão importante quanto falar sobre o que é e como surgiu, é, como profissionais e/ou consumidores de moda, buscar e compartilhar formas de fazer parte dessa revolução.

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• Para quem faz moda

Semana passada recebi da ABVTEX (Associação Brasileira do Varejo Têxtil) um material sobre o Programa de Certificação de Fornecedores que veio ao encontro de diversos questionamentos de designers e estudantes que li ou recebi nos últimos dias no que diz respeito aos fornecedores.

Para Edmundo Lima, diretor executivo da ABVTEX, o consumidor “vem se tornando cada vez mais consciente da necessidade de escolhas e dos impactos do seu consumo. Por isso, é que as varejistas associadas à ABVTEX trabalham para garantir a qualidade da origem do produto oferecido nas lojas”. Segundo a ABVTEX, em seis anos de existência o programa realizou quase 20 mil auditorias em confecções e seus subcontratados para verificação de boas práticas e cumprimento da legislação trabalhista em vigor. Só no ano de 2016, foram realizadas mais de cinco mil auditorias com 4.112 empresas certificadas em 681 municípios, em 18 Estados, com o objetivo de “ajudar as empresas signatárias a monitorar e qualificar, de maneira estruturada e integrada, a cadeia de fornecedores do setor têxtil, a fim de disseminar as boas práticas e combater o uso do trabalho análogo ao escravo nas confecções“.

Para os empresários da indústria e confecção, a certificação de fornecedores promove melhoria no ambiente de trabalho, redução de acidentes, aumento de produtividade e qualidade de produto além da retenção de trabalhadores e do alinhamento com a moda responsável cada vez mais valorizada pelo consumidor final, o que garante um retorno positivo dos investimentos em certificação.

Além de trabalhar com fornecedores certificados, novas marcas e pequenos criadores podem buscar alternativas com relação a materiais e processos, reaproveitando matéria prima descartada por empresas de maior porte ou outros criadores através de iniciativas como o Banco de Tecidos, e utilizando técnicas artesanais com foco em exclusividade. Produção em menor escala e transparência nos processos são um caminho interessante para estruturar um novo negócio em um momento de incertezas e economia (de recursos naturais e financeiros).

• Para quem consome moda

Assim como consumir marcas que trabalham com fornecedores certificados e processos responsáveis, o momento atual pele a reavaliação dos hábitos de consumo (onde, como, quanto e porque compramos) e a consciência sobre o real impacto deles. Avalio que a mudança na indústria fashion depende muito mais dos consumidores do que de quem faz, e é triste perceber que a preocupação ainda não é tão presente na vida dos “atores anônimos” (leia mais aqui) que possuem a poderosa ferramenta escolha nas mãos.

Avalie qualidade, busque informação sobre as marcas, reutilize e transforme o que já tem. Faça compras em seu próprio closet, permita-se novas combinações e atente-se para a conservação de suas roupas. Ao longo desses últimos parágrafos, deixo sete links de publicações sobre o assunto aqui no ivylemes.com com o objetivo de mostrar que colocar nosso tijolinho na construção de uma moda mais ética é muito mais fácil e importante do que muita gente imagina. Vamos?

(Imagem: Visualhunt)

+ | Não deixe de assistir o documentário The True Cost para avaliar quando custa realmente aquilo que vestimos.

Moda, Negócios

Não queremos só trabalhar com Moda. Queremos (e precisamos) sobreviver dela

Semana passada, antes da polêmica envolvendo o site da Lilian Pacce tomar conta das redes sociais (leia aqui a matéria do Estadão), estava procrastinando no Instagram quando me deparei com um anúncio de estágio para Design de Moda em Curitiba (coisa rara de se ver). Interessada em indicar a vaga a uma estudante que conheço, fui me informar sobre ele. Suas funções, estagiário, serão assistente de corte, assistente de modelagem, acabamentos e finalização de produto em geral, mas você não receberá nada por isso. Um “estágio voluntário”. Termo depois alterado para “estágio curricular”, mas sem alteração alguma na sua conta bancária no fim do mês.

Com funções de costureiro(a) assistente, ou seja, uma das funções mais importantes na produção de um produto de moda (sem costureira não tem produto), o estagiário presta seus serviços gratuitamente a uma marca com fins lucrativos. Lembra aquele papo sobre exploração de mão de obra na China? Como bem posicionou esse post do site Não Combina, ela não está tão longe quanto se imagina. (Teve rima).

Quando falamos em consumo consciente vale ressaltar que, por essas e outras, é preciso ficar de olho em quem faz nossas roupas. Não é só fast fashion que explora. Tem marca local que é “farinha do mesmo saco”. Que gera lixo desnecessário, que não descarta resíduos corretamente, ou que lucra pagando muito pouco (ou nada) pelo trabalho alheio. Não é exagero, não é “mimimi”, é exploração de mão de obra. É!!!

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Lendo os comentários sobre o caso do estágio não remunerado para cobrir a São Paulo Fashion Week para o site da Lilian Pacce, alguns argumentam que “existem momentos profissionais  que dinheiro nenhum paga”, ou que “experiência não tem preço”. Concordo. Tive momentos profissionais que dinheiro nenhum paga. Mas, apenas para chegar ao local do trabalho e realizá-lo com energia (produção de Moda, por exemplo, exige muita!) até o fim da tarde, coloco na conta o transporte e duas refeições. Meu “momento profissional” não era aceito como forma de pagamento no transporte público ou restaurante. E, se não estou muito desatualizada, ainda não é. Essa conta superficial é só o começo: pagamos para estudar (mensalidades + livros + materiais caríssimos) e, consequentemente, adquirir conhecimentos para estagiar em cantinhos divertidos e coloridos.

Com o estágio aprendemos. Mas também deixamos na empresa o conhecimento que pagamos ($) para receber na faculdade onde chegamos através de um meio pago ($) de transporte e que concluímos apresentando trabalhos e provas que exigem a compra (olha o dinheiro de novo aí, gente) de materiais para serem realizados(as). Resta saber quem vai se voluntariar a pagar (não tem como fugir di$$o) essa história toda.

Queremos trabalhar com Moda. E queremos também, ou melhor, precisamos, sobreviver dela. Marcas, e empresários, respeitem os profissionais responsáveis pela sua existência. Consumidores, invistam em moda produzida com ética.

(Imagem: Visualhunt)

Comportamento, Moda, Negócios

Fast fashion, o plástico e a bolha

Mês passado compartilhei por aqui uma matéria (e três videos) sobre a poluição ambiental causada pelas indústrias de Moda na China. A China está em estado de alerta, e pretende frear a produção têxtil irresponsável. Enquanto isso, marcas internacionais procuram “outros países com farta mão de obra barata e custos baixos como Bangladesh, Índia, Marrocos, Vietnã, Turquia e agora África para fabricar seus produtos”.

O Brasil, apesar de discretamente, já produz para empresas multinacionais de fast fashion. Como são tratados esses resíduos em nosso “solo fértil” eu não sei (apesar de poder imaginar), mas fui testemunha ocular da quantidade de plástico que é descartada diariamente por uma grande rede em Curitiba e São Paulo.

Para garantir a chegada de seus brincos por R$ 5,90 intactos ao nosso país, a empresa o coloca dentro de um pequeno saco plástico. Cinco pequenos sacos plástico, cada um com um par de brinco, são colocados dentro de um outro saco plástico maior. Cinco sacos plásticos maiores são colocados dentro de mais um saco plástico, agora médio; e depois cinco sacos plásticos médios são armazenados em mais uma embalagem plástica grande e assim sucessivamente. É uma matrioska de sacos plásticos!

Usei o exemplo dos brincos, mas é dessa forma que são embalados grande parte dos produtos que abastecem as lojas da rede. Plástico, outro plástico, e mais um plástico dentro de outro plástico. São retirados, diariamente, sacos e mais sacos plásticos de cerca de 1 metro de altura contendo… outros sacos plásticos! E, sim. Eu disse diariamente. É claro que os produtos precisam de uma embalagem, mas é realmente necessário tanto plástico? Já vi aparecer, inclusive, dois sacos plásticos embalando apenas uma peça.

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Mas “nessa de conversar” sobre fast fashion e contar a história do plástico, percebi que há um problema maior que o plástico: a bolha. Muitos consumidores se agarram a qualquer argumento (furado) para justificar as práticas abusivas dessas indústrias. E isso vai de dizer que comprar no fast fashion é a única opção para elas, ao absurdo de achar que tais empresas fazem o bem (!!!) para uma população onde ganhar $1 trabalhando em condições deploráveis e com uma carga horária desumana é melhor que não ganhar nada (o quão desumano é esse pensamento?).

Resumindo: não adianta resolver o problema do plástico (que aqui representa o impacto ambiental), enquanto as pessoas permanecerem na “bolha”. O meio mais eficaz de, ao menos começar a, mudar o cenário é através de quem consome fast fashion.

Lendo sobre marketing de Moda no livro Vítimas da Moda?, de Guillaume Erner (livro esse que foi uma das bases do meu TCC, e que recomendo hoje e sempre), sublinhei um texto com o qual encerro esse post. Apesar de não tratar diretamente sobre o tema, ele reforça o poder do consumidor em toda essa engrenagem. Eu e você, “autores anônimos”, só precisamos querer.

“O mundo da moda se destaca pela atenção que dá às distinções. Desde o lugar ocupado em um desfile até a preocupação de algumas maisons com a clientela aristocrática, esse universo prolonga de forma artificial o mundo das castas. (…) Seu erro é acreditar que o domínio do esnobismo se aplica à sociedade inteira. (…) Para sua maior infelicidade, as marcas não têm o poder de impor um estilo de vida aos consumidores; ao contrário, elas vivem sob a constante ameaça que representam para elas as decisões desses atores anônimos“.

(Imagem: Ejorpin via Visualhunt)