Comportamento, Moda

Etiqueta vermelha

Não é de hoje que as lojas iniciam suas liquidações de inverno quando a estação mal começou. Mas confesso que esse ano levei um susto quando comecei a receber anúncios de saldos e lançamento de coleção resort enquanto ainda espero o primeiro “frio de verdade” do ano. Sabe aquela antiga chamada de preços baixos que diz “deu a louca no gerente”? Nunca fez tanto sentido. Minha proposta é deixá-lo “fazer o louco” sozinho por diferentes motivos.

sale-vh

O primeiro deles é que não precisamos acelerar mais ainda as coisas. Do antigo calendário onde as marcas apresentavam quatro coleções por ano (embora não julgue viável voltar a ele) passamos a inserir coleções intermediárias e linhas entre as intermediárias até chegar ao ponto de tirar de cena a coleção de inverno na chegada da estação: as lojas já estão “botando fora” aquela bota que você nunca usou! Mais que estimular o consumo frenético quando o mundo pede (implora!) consciência e responsabilidade com compra e descarte, as liquidações precoces afetam profundamente pequenas, e até médias, empresas e marcas que não podem competir em preço e ritmo.

Olhando por um viés “egoísta”, será que há vantagem real em comprar aquela peça de R$ 300 por R$ 100, ou você só está pagando o que ela realmente vale (ou mais)? E pensando em moda ética, será mesmo que algumas dessas empresas resolveram praticamente doar seus produtos recém lançados, abatendo 70% de seu valor, em um sopro de bondade? Ou há algo muito errado na precificação cheia? Etiquetas que oferecem 60, 70% de desconto em produtos novos abrem espaço para uma importante reflexão: o quanto de lucro abusivo e práticas duvidosas podem conter aí?

(Imagem: Simon Greig Photo via Visual Hunt)

Anúncios
Comportamento, Moda

“O que é slow fashion mesmo”?

Com origem na Europa, e inspirado no movimento slow food, o movimento slow fashion é uma alternativa ao que chamamos de fast fashion. A criação do termo é atribuída à consultora e professora de design sustentável do Centre for Sustainable Fashion Kate Fletcher, e diz respeito a uma forma de criar e consumir moda de maneira consciente. Assim como passamos a dar mais atenção à origem dos alimentos que consumimos, o impacto ambiental e social causado pela indústria da moda nos últimos anos pede uma leitura cautelosa também do “rótulo” do que vestimos

Apesar de estar intimamente ligado aos fatores ambientais, o movimento slow fashion diz respeito a todo o ciclo e pode ser praticado de diferentes formas por quem produz e/ou consome. Da escolha de materiais produzidos com menor impacto ambiental (ou reaproveitados) passando pelo respeito às leis trabalhistas e valorização da mão de obra até o reconhecimento do design autoral, da moda com personalidade e de itens que sobrevivem aos modismos passageiros (e que não por isso ignoram as tendências), adotar o slow fashion é, acima de tudo, uma questão de comportamento.

DSC04914-site
Gola de tricô Ivy Lemes Slow Fashion

Produzir em pequena quantidade, acompanhar o processo do início ao fim, desenvolver peças únicas e transmitir mensagens genuínas que envolvem cultura, referências e habilidades de quem faz são algumas ações que diferenciam produtos slow fashion das cópias em massa que encontramos em grandes redes. A escolha cautelosa de materiais de qualidade superior e o cuidado com os detalhes visa entregar produtos feitos para durar,  assim como a criação de peças originais busca gerar real identificação com quem veste (na estética e na mensagem): produtos bons e que “falam sobre você” não perdem espaço com a mudança de estação.

Depois que lancei minha marca, dentro do conceito slow fashion, muitas perguntas sobre o assunto chegaram até mim; e é por isso que resolvi falar de maneira geral sobre esse conceito sem ignorar os “contras” apontados. Uma marca de slow fashion dificilmente proporcionará a variedade de cores e modelos encontradas nas araras das lojas de departamentos. E nem produzirá uma coleção em três, quatro ou sete dias para “todos os gostos”. E esse não é o objetivo. Aqui a identidade vem antes das tendências, podendo estar ou não de mãos dadas com elas. Slow fashion envolve, novamente, comportamento e questionamento: precisamos mesmo de todos esses modelos “para ontem”? Precisamos vestir a roupa da moça da novela?

Independente de onde e como cada um deseja consumir, o recado do movimento slow fashion é diminuir a velocidade para refletir sobre essas escolhas. Para criadores de Moda que estão mais preocupados em criar cartilhas de “certo e errado” para incluir ou excluir marcas da proposta levando em conta características que não impactam em seu propósito, e para consumidores que estão buscando novas formas de relacionar-se com a moda, deixo o recado: não existe apenas uma maneira de fazer e praticar slow fashion. Entender os princípios e usá-los sem moderação (e de verdade) é o que importa.

(Foto: Ivy Lemes)

Moda

Moda atemporal (e com propósito) para elas e eles

Em um passeio pelo bairro de Pinheiros fui ver de perto duas marcas que acompanho via Instagram: a Yes I Am Jeans e a Insecta Shoes, que dividem espaço em uma loja inspiradora na Rua Artur de Azevedo. Na mesma rua, tive o prazer de conhecer uma marca masculina que segue o mesmo propósito das outras duas: moda com qualidade, feita para durar muito. E é sobre essas três marcas que falo hoje.

Com produção nacional e a melhor matéria-prima disponível no mercado, a Yes I Am Jeans trabalha com interpretações da clássica calça jeans de cintura alta. A cartela de cores neutras diminui a necessidade de produtos químicos no processo de lavanderia, reduzindo o impacto ambiental e incentivando o consumo consciente através de peças versáteis e que podem ser facilmente recombinadas: “Nossas peças resgatam um estilo de vida básico, simples, com foco no conforto e utilidade“. Além das calças, a loja online da marca conta com modelos de camiseta e vestido básicos.

yesiam-insecta-shoes
Loja Yes I Am Jeans + Insecta Shoes

yesiam-insecta-shoes-3

Com a mesma proposta, a Oriba é uma marca de roupas e acessórios masculinos criada por três amigos que, consumidores de moda básica, uniram-se no desafio de oferecer bons produtos essenciais: “Nos demos conta que nós três, e muitos outros amigos, consumíamos produtos básicos, sem excessos ou frescuras, só que nenhum comprado em nosso próprio país. Ora porque era caro, ora porque era de baixa qualidade“. Mais que oferecer qualidade e preço justo, a Oriba preocupa-se em acompanhar todas as etapas da produção e descarte de resíduos além de possuir um propósito maior: investir na educação infantil (leia mais sobre o Projeto Base no site da Oriba).

Para combinar com os básicos e essenciais, os calçados ecológicos e veganos da Insecta Shoes podem ser encontrados na prateleira ao lado das araras da Yes I Am Jeans. Produzidos a partir de peças de roupas usadas, além de garrafas de plástico recicladas, as botas, oxfords, sandálias e slippers da Insecta Shoes são unissex e livres de matéria-prima de origem animal. Com o reaproveitamento como palavra de ordem, a marca tem como um dos propósitos “aumentar a vida útil do que já existe pelo mundo”. Até mesmo a sola dos calçados é feita com borracha triturada do excedente da indústria calçadista. O resultado são peças únicas e que sobrevivem aos modismos.

yesiam-insecta-shoes-2
Loja Yes I Am Jeans + Insecta Shoes

(Fotos: Ivy Lemes)

Comportamento, Moda

Motivos egoístas para comprar em brechó

Um entre muitos textos que li nos últimos tempos sobre consumo consciente de moda dizia que nenhuma roupa é mais sustentável (e responsável) do que a que já existe. O trecho do texto incentivava o consumo de moda em brechós, com a mensagem de que, mais que produzir peças com pouco impacto, é preciso olhar para os produtos que já temos e ainda estão em condições de uso.

Embora os brechós tenham ganhado espaço em publicações e sites de moda, e endereços descolados e até luxuosos, bem diferentes daquele esteriótipo de loja amontoada de peças velhas, o preconceito contra roupas usadas ainda existe. A extensa lista de motivos para garimpar em vintage shops inclui questões ambientais e éticas, como a economia de água e energia, o reaproveitamento e a construção de um guarda-roupa com peças de qualidade, reduzindo a necessidade de comprar novos itens em um curto espaço de tempo.

Porém, a (triste) realidade é que muita gente não está preocupada com isso. Pensando nisso, trago três motivos egoístas para considerar uma visita ao brechó: comprar roupas de segunda mão podem nos trazer vários benefícios pessoais. (Keep calm, é uma ironia).

• Nomes e marcas famosas por menos

Mais que desfilar uma logo, muitas grifes são cobiçadas pela qualidade de seus produtos. Essa característica faz com que peças premium atravessem gerações sem envelhecer, na estética e no material. Um suéter de cashmere, um vestido de seda pura e uma bolsa com um couro de qualidade, por exemplo, dificilmente parecerão velhos. Os brechós que trabalham com marcas selecionadas são uma excelente oportunidade de adquirir itens de moda com bons materiais por preços amigos. Lembre-se que os bons produtos não envelhecem, e ninguém vai saber se saiu da loja ou do brechó.

acervo-de-coisinhas-3
Placa informativa no provador e arara em frente à fachada do brechó Acervo de Coisinhas, em São Paulo

• Exclusividade e itens vintage

Mesmo quando o produto não foi produzido como peça única, é muito difícil encontrar alguém com o mesmo item que garimpou em um brechó. Isso sem falar em brechós especializados em peças vintage, onde é possível encontrar complementos e acessórios que deixarão o visual sofisticado e cheio de personalidade. Poucas coisas são mais chiques que uma peça de época ao lado de uma produção básica, como jeans e camiseta, ou de um vestido longo com poucos detalhes. Além disso, o contraste de estilos está em alta; e um jeans original dos anos 80 pode ser bem mais cool que a releitura da peça.

• Moda do momento sem comprometer o orçamento

Nem só de roupas antigas são feitos os brechós. Muitos endereços são destinados a peças atuais, onde é possível encontrar roupas da moda usadas pouquíssimas vezes (ou novas) pela metade do preço ou menos. Sabe aquela vontade de usar um modismo? Procure no brechó! Deixe para gastar mais em itens duráveis, e selecione entre peças de segunda mão aquilo que logo será repassado. Alguns brechós trabalham com trocas, ou oferecem vale compras pelas peças que não usa mais, o que permite que renove alguns itens do seu closet e cada estação sem precisar gastar muito para isso.

• Mais: Dificuldades, o que eu compro e brechó contemporâneo x vintage

Confesso que já consumi mais em brechós do que agora. A mudança de estilo e a busca por peças preferencialmente lisas dificulta um pouco minhas compras em brechós. Outra dificuldade que sinto é com relação ao tamanho: não é fácil encontrar peças pequenas. Obviamente existem roupas que valem o ajuste, mas é preciso avaliar se a reforma é possível (nem todos os tecidos e modelagens se comportam bem quando ajustados) e financeiramente viável. Por essas questões, costumo ficar mais atenta aos vestidos que podem sem “adaptados” com um cinto e aos acessórios, quando o brechó trabalha com peças vintage (as bolsas pequenas de tecido ou bordadas e os cintos de couro são meus favoritos).

Falando nisso, uma visita ao brechó é melhor aproveitada quando escolhemos o endereço certo de acordo com nosso objetivo. Lojas que trabalham com roupas contemporâneas são bons lugares para encontrar itens de moda, mas exigem um olhar atento com relação ao custo x benefício das peças: não foram poucas as vezes que vi camisetas de malha de fast fashion em brechós por preços abusivos considerando que esses produtos não fazem parte da lista de “peças para durar” (tanto no quesito design quanto no quesito qualidade).

Qualidade não costuma ser um problema quando o assunto são itens vintage. Nessa categoria, duas coisas importantes na hora de escolher as peças são: experimentar e avaliar a adequação ao seu estilo pessoal. Experimentar é fundamental pois o tamanho e a modelagem das peças mudou consideravelmente com o passar do tempo, e avaliar como ela se comportará ao lado do que já temos no armário é importante para não fazer uma compra por impulso sem avaliar a pertinência dela em nosso dia a dia.

Além do brechó Acervo de Coisinhas, que ilustra o post e conta com roupas e acessórios predominantemente contemporâneos, também no bairro de Pinheiros, em São Paulo, conheci o brechó Varal do Beco, especializado em peças vintage e figurinos. Vá com tempo para explorar as araras lotadas de roupas até o teto (mesmo!).

(Fotos: acervo pessoal)

Comportamento, Moda, TV & Cinema

Não estarei sempre “na moda”

A relação das pessoas com suas coisas, a publicidade ostensiva a que somos submetidos e a rotina ansiosa das grandes cidades são alguns dos temas abordados em Minimalism: A Documentary About the Important Things (2015). O documentário propõe, através da história de pessoas que aderiram uma forma minimalista de viver e de reflexões de profissionais de áreas como economia, sociologia e até arquitetura, um novo olhar sobre consumo, expectativas e estilo de vida.

Joshua Fields Millburn, um dos minimalistas, conta sobre as mudanças em sua rotina e mente após o descarte de “todas essas coisas que havia trazido à minha vida sem questionar“; e, em outro trecho do documentário, comenta que o problema não está no ato de consumir, mas no consumismo compulsório e no hábito de “comprar coisas porque é isso que você deveria fazer“. É assim no mundo da moda rápida.

“Querem que você se sinta fora de moda semana após semana, para que assim compre algo na semana seguinte”, avalia a consultora de moda sustentável Shannon Whitehead, que também aborda as expectativas criadas por nós e pelos outros com relação ao que “devemos ser”, o que, de certa forma, alimenta a falsa necessidade de precisar vestir algo novo todo dia, de não repetir roupa ou não poder usar um item “fora de moda”. A exigência é geral, e quando trabalhamos dentro desse universo é maior ainda.

Como profissional da área, já senti, direta e indiretamente, a pressão para estar “sempre na moda”. Os argumentos vão de “o dress code dessa empresa de moda exige” a “estar com peças da moda é fundamental para o seu marketing pessoal”. Será?

fora-de-moda

Independente da minha extensa lista de questionamentos sobre “o tal” marketing pessoal, entendo que muitas dessas exigências são impostas a nós por alguns mas nem sempre relevantes ou percebidas por tantos e por quem de fato importa. Quando falo sobre “quem importa”, inclui nós mesmos. Afinal, quem mais importa quando o assunto é a minha roupa sou eu (meu bem estar, minha mensagem).  E aí entra um interessante depoimento da Courtney Carver, fundadora do Project 33.

Em seu Projeto 33, Courtney Carver desafiou-se a usar apenas 33 itens por três meses, incluindo acessórios e calçados. A ideia de usar menos do que tinha disponível em seu armário faz parte do processo de desapego que iniciou em 2010 e que não lhe pareceu fácil quando chegou no closet: “Para mim foi uma grande forma de realmente ver do que precisava, o que eu estava usando e se iria fazer alguma diferença”.

Ela conta que trabalhava com propaganda, e muitos clientes com os quais mantinha contato diário. Nos “escritórios criativos”, não apenas de moda, é comum ouvir que precisamos mostrar nosso talento através de visuais modernos e sempre novos. Courtney Carver, com seus 33 itens, conta que “durante esses três meses ninguém notou” a diferença.

Se você pensar no conceito de moda, ele incorpora a ideia de que você pode jogar as coisas fora não quando elas não servem mais, mas quando não têm mais aquele valor social ou não estão mais na moda“. Compartilho esse depoimento da economista e socióloga Juliet Schor e a experiência de Courtney Carver para trazer à tona o questionamento sobre a “necessidade” de estar na moda (trabalhando ou não com ela) e para comunicar formalmente que não estarei sempre na moda. Ainda que isso decepcione alguém ou me faça perder o job.

(Imagem: Visual Hunt)

Comportamento, Moda

Slow tudo

Sempre que leio, escrevo ou converso sobre a necessidade de mudarmos nossos hábitos de consumo de moda, bate uma tristeza. Sinto que esse é um daqueles casos em que a teoria vai bem, mas a prática nem tanto. O fast fashion cresce apoiado nos preços baixos e na facilidade de pagamento, mesmo quando a gente argumenta que basta comprar menos para comprar melhor. E que não precisa ter tanta roupa.

No texto Fast fashion, o plástico e a bolha (leia aqui), publicado em setembro do ano passado, comentei sobre a quantidade de lixo plástico que uma das empresas em que trabalhei produzia; mas principalmente sobre o impacto da escolha de quem consome. Em mais uma incoerência da vida, os que preferem permanecer na bolha costumam ser os mesmos que reclamam que a moda está chata, sem novidades, e que “a indústria da moda” faz mal ao mundo.

Crash-Magazine-MAIO17-2

O estilista Ronaldo Fraga falou recentemente ao site da revista Elle sobre a moda ser “o espelho do tempo”: “Nessa loucura que a gente tá vivendo, tem gente dizendo que a moda tá terrível hoje. Não tá, ela tá a cara do tempo”. Sim! A moda é comportamento. E só o comportamento é capaz de mudar a moda. Não apenas o comportamento de consumo, mas a forma como levamos a vida. Repare como a busca por novidades o tempo todo, e a vontade de ter muito, fazer muito, mostrar muito é presente no trabalho, na vida social, nas relações…

Keep calm! Diminuir a velocidade, em muitos sentidos, mudou minha rotina, qualidade de vida e fez muito bem à minha sanidade mental (importantíssimo). É claro que existem urgências, mas a maioria das pressões não precisam ser aceitas: minhas pesquisas empíricas comprovaram que 98% do que dizem ser “urgente” pode esperar.

Crash-Magazine-MAIO17

Semana passada assisti um vídeo da Jout Jout onde ela conta que ao começar a fazer as coisas mais devagar percebeu que sobrava mais tempo, e nada poderia traduzir melhor o que quero dizer aqui. Muitos dirão o contrário, mas o princípio da rebeldia (de desacelerar em pleno 2017) é fazer o oposto.

Fazer sem pressa, com cuidado, prestando atenção e valorizando cada detalhe e processo (material e humano) são alguns dos fundamentos do slow fashion que servem para ser slow em tudo. Permitir-se respirar ar puro no meio do dia, desligar o celular para almoçar e aproveitar momentos de ócio é importante. Na vida slow, a gente tem tempo de parar para pensar. E é nesse tempo que o pontapé inicial para consumir consciente, entender qualidade x quantidade, fica muito claro. Não custa tentar!

(Fotos: Hans Neumann / Styling: Melissa Levy)

+ | As imagens que ilustram o post são do editorial A Study on Sleep, da Crash Magazine (maio de 2017). Uma das liberdades que assumir o slow me deu foi contar pra todo mundo que, se possível, prefiro agendar o job para o período da tarde. E que isso não tem nada a ver com preguiça de trabalhar.

O vídeo da Jout Jout, acima citado (e linkado), também fala sobre foco e o conceito controverso dessa palavra. Mais uma vez, me representa.

Comportamento, Livros, Moda

Organize e otimize

Ainda encantada com as mensagens e ensinamentos do livro A Mágica da Arrumação, compartilho por aqui dicas práticas da Marie Kondo para organizar (e consequentemente otimizar) o closet. Em um breve resumo para quem não conhece o livro, e o método KonMari de organizar, Marie Kondo começa sua “mágica” pelo descarte e revela (e incentiva) a relação emocional com o que temos tanto para conservar como para descartar o que já nos fez feliz e pode servir ao outro, mantendo-se vivo ao invés de permanecer encostado no guarda-roupa.

cabide-sapato-organizacao-closet

Para descobrir o que ainda faz sentido para você (o que serve), a dica é colocar todas as suas roupas em cima da cama e olhar para elas “como se estivesse selecionando itens na vitrine da sua loja favorita“. Começar pelos itens que não estão em uso atualmente, ou seja, as peças de outras estações, segundo Marie facilita o processo: “como roupas de outras estações não são necessárias de imediato é mais fácil avaliar se trazem alegria ou não“.

Outra boa dica prática é uma ordem que coloco em prática no meu guarda-roupa: organizar as peças das pesadas para as leves, das claras para as escuras. Pode parecer bobagem, mas a organização visual (e aqui também entra, por minha conta, a padronização dos cabides) contribui para a visibilidade dos itens: nenhuma peça leve ficará “escondida” entre itens pesados, e as roupas claras não se perdem em meio às escuras.

Marie Kondo acredita que criar categorias como camisas de algodão, camisas de seda e blusas de malha, por exemplo, é mais eficiente do que separar as peças por ocasião de uso. Entendendo que muitos itens podem servir tanto a uma quanto a outra ocasião, concordo com o formato proposto que também contribui para não deixar itens esportivos bacanas, e que podem compor visuais casuais, por exemplo, esquecidos na “gaveta de academia”. Além disso, o ideal é ter todas às peças que forem possíveis à vista (ao invés de colocar itens de outra estação fora do campo de visão); afinal, vivemos com variações climáticas e ambientes que, com ar condicionado, pedem um “casaquinho” mesmo em dias de sol.

Acrescentando uma experiência pessoal, avalio que o descarte contribui para a assertividade do visual. Já saí de casa com a roupa errada por insistir em usar uma peça encostada pelo simples fato de não deixá-la encostada, mesmo quando já não representava mais o meu estilo (de vida e de ser). Para quem, como eu, escolhe o look com pressa, manter só o que realmente faz sentido diminui muito as chances de errar no visual.

Não importa onde guarde suas peças, uma regra comum é: de vez em quando, abra as gavetas ou portas dos armários para deixar entrar um pouco de luz e ar. Passe as mãos peças roupas. Faça com que saibam que você se importa com elas e que anseia por usá-las novamente. Essa comunicação mantém as peças vibrantes e faz o relacionamento de vocês durar mais“. (Marie Kondo)

(Imagem:  jamelah via Visual Hunt)

Moda, Negócios

Não saia por aí fazendo roupa

Gosto muito quando são anunciados eventos de Moda em Curitiba. Convido profissionais que conheço e gosto de divulgar aos amigos, de dentro e de fora da área, marcas e produtos interessantes produzidos aqui.

Mais que gostar de itens diferenciados feitos com matéria prima de qualidade e baixa tiragem, há pouco menos de um ano optei por conscientizar meu guarda-roupa evitando produtos de fast fashion. A ideia de substituir produtos com procedência duvidosa pela moda ética é boa (e continuo a favor dela), mas, além de reservar um espaço para discursar sobre o quão mal as grandes redes fazem para o planeta e para as pessoas, nos encontros entre amigas também abri a cabeça para ouvir os argumentos que as levam a optar pelas lojas de departamentos.

As pessoas estão sim dispostas a pagar mais por um produto produzido localmente, desde que ele tenha, além de ética, a qualidade e o diferencial que se espera. Diversas marcas nacionais e locais estão vendendo “Forever 21 à preço de Chanel”, com bem disse a mãe de uma amiga. Tecidos ruins, acabamentos mal feitos, despreocupação com a modelagem. Não é a toa que, ao ministrar um workshop sobre negócios de Moda em Curitiba no ano passado, o consultor Reginaldo Fonseca, da Cia. Paulista de Moda, avaliou alguns novos criadores nacionais como “preguiçosos” (sem citar nomes, obviamente). Não é exagero. E preciso concordar com eles. E explico o porquê com dois exemplos práticos que vivenciei em Curitiba recentemente.

moda-responsavel

Ano passado, interessada em visitar um evento de marcas locais, fui até o local logo no primeiro dia (eram três) e cedo (meia hora após o horário de abertura divulgado). Quando cheguei ao endereço, senti-me um pouco intimidada para entrar: não havia nenhum tipo de comunicação na porta e um silêncio lá dentro. Entrei. E avistei um único criador de Moda atendendo para uma outra marca (“a fulana ainda não chegou”), além da sua própria, três pequenos espaços com produtos e um espaço, destinado a uma marca de acessórios, vazio. “O pessoal dessa marca ainda não chegou, acho que eles vem mais tarde”.

Gente! Vem cá! Papo de amiga! Que amadorismo é esse? A partir do momento que se propõe a participar de um evento, estar lá antes do horário de início (para limpar, organizar, dobrar, acariciar, “dar um cheiro” nos seus produtos com todo aquele amor que te move) é o MÍNIMO que se espera de um profissional. Duas da tarde é cedo demais? Não tem público para esse horário? Então NÃO ANUNCIE um evento para esse horário!!! Não é possível que alguém “não tenha pensado nisso antes”!

Além disso, é inadmissível que alguém que quer divulgar e apresentar sua marca aos consumidores, seja ela nova ou já tradicional, grande ou pequena, deixe o estande na mão de outra pessoa durante um evento (du-ran-te, porque eu não pulei o muro fora do horário de funcionamento). Na hora de fazer o discurso que justifica os preços mais altos que o das peças made in China em suas redes sociais todos estão afiadíssimos. Mas quando o cliente chega ao espaço da sua marca, interessado em comprar e saber mais sobre o produto, o criador não está lá. E aí? “Como faz”? Isso sem contar o desprazer que é chegar em um estande de marca local e ter que elaborar uma entrevista para descobrir o produto, pois o criador permanece sentado entretido em seu bordado. Galera, no estande tem que atender!!!

Qualidade é um conjunto de fatores: matéria-prima, acabamento, comunicação da marca, atendimento… E é justamente no atendimento que o criador passará por um processo fundamental para a construção de uma marca com qualidade e sucesso comercial: OUVIR seu público. O que ele procura, o que ele gosta, o que ele achou bonito, o que ele criticou. Por mais brilhante e criativo que seja, um designer não constrói uma moda plus size eficiente quando nega o argumento de uma mulher plus size (coisa que eu vi acontecer em workshop de moda em Curitiba).

Esses e outros fatos sempre me deixaram bastante pensativa sobre como os criadores estão pensando em construindo suas marcas. E essa semana, em mais um evento de Moda (eis o segundo exemplo), acho que descobri um dos motivos.

Em um debate com convidados para falar de Moda, com muitos estudantes entre os presentes, uma convidada incentivou a criação de novas marcas. Ótimo, concordo. Mas o discurso que veio a seguir é, para mim, bastante irresponsável. Para ela, os criadores locais estão “muito tímidos”, e se você tem vontade fazer “vai lá e faz”! Quer fazer camisetas? “Pegue um empréstimo” e faça logo uma grande variedade de peças, “faça várias estampas, várias modelagens”, “faz curta, faz comprida, faz larga”. E é assim que os criadores estão pensando, ou melhor, NÃO PENSANDO suas marcas. É o que os estudantes estão ouvindo. E fazendo.

Respeito diferentes formas de pensar. Mas registro aqui meu choque e minha opinião radicalmente conta essa fala. Já fui dona de marca, de loja e já estive nos bastidores de uma das maiores varejistas de moda do país. E meu conselho para quem deseja construir uma marca de Moda competitiva, consistente e de sucesso resume-se a um só: Não saia por aí fazendo roupa!

É preciso PENSAR uma marca de Moda. ESTUDAR. Pensar de novo. AVALIAR o orçamento (inicial e para os próximos passos). Reavaliar o orçamento. Estudar mais um pouco. Fazer uma peça piloto. Lançar a peça. SENTIR o mercado. OUVIR o consumidor. Repensar a marca. Estudar de novo. Repensar modelagem. Replicar os acertos. Ajustar os erros. Construir a identidade da marca. Unir o conceito e estilo do criador ao anseio do público (você faz para o outro, e suas roupas precisam ir além do seu “gosto”). Estudar. Estudar mais (a vida inteira). Fazer mais um pouco. Aprimorar detalhes. Ouvir o consumidor mais uma vez (e nunca parar de ouvir). Pensar na etiqueta. Na embalagem. Nas imagens de divulgação. Estar em eventos como consumidor. Participar do seu primeiro evento (participar, não apenas colocar seus produtos lá). Ouvir. Estudar os resultados. Aumentar as variações do produto. Repensar. (Finalizo o parágrafo aqui, mas na prática isso não deve acabar nunca).

Não é timidez. É responsabilidade! Não apenas com a sua marca, o seu nome como profissional e com os recursos financeiros (se sobra na sua conta bancária, vale refletir sobre a situação de muitos outros que estão ao seu lado). Mas também com os recursos naturais do planeta! Imagine como aumentaremos o desperdício e o descarte de peças se todo criador “sair fazendo” grades enormes de roupas sem saber se vão funcionar comercialmente? Sem parâmetros de aceitação, sem testar na “vida real” as primeiras ideias e desenvolvê-las com consciência? A moda responsável acaba sem nem começar.

(Imagem: goMainstream via Visualhunt)

Moda

Dolce & Gabbana e inspirações para customizar

Depois dos patches e bordados florais do verão, broches e aplicações confirmam sua presença, cada vez mais forte, ao lado deles nas passarelas e vitrines de inverno. Os detalhes ganharam brilho. Patches  e apliques com brasões dourados e bordados em pedrarias ou paetês enriquecem ainda mais composições com tecidos de lã e veludo e atualizam o jeans. Vai aderir a essa moda? Ao invés de comprar, customize.

Inspirações não faltam no styling de inverno da Dolce & Gabbana, apresentado em Milão. Da passarela da grife italiana, uma ideia e tanto para renovar o vestido preto: botões em diferentes tamanhos e modelos, na peça toda ou ao redor do decote.

dolce-e-gabbana-fall17-3

dolce-e-gabbana-fall17-4

Os botões também aparecem no jeans da grife, assim como bordados com paetês. A proposta é maximalista, e as calças jeans cheias de detalhe estão ao lado de jaquetas tão poderosas quanto + t-shirt + mix de colares.

dolce-e-gabbana-fall17-1

dolce-e-gabbana-fall17-8

dolce-e-gabbana-fall17-2

Mais sutis, as aplicações podem estar nos calçados ou bolsas. Experimente trocar a fivela de uma sandália antiga, por exemplo. Outra ideia é trocar os botões básicos da camisa branca por botões diferenciados ou, com uma fita de veludo, fazer um laço sob o colarinho. Itens simples e um bom acabamento garantem roupas renovadas, informação de moda ao visual e menos consumo. Já escolheu uma peça do seu guarda roupa para transformar?

dolce-e-gabbana-fall17-6

dolce-e-gabbana-fall17-5

(Imagens: reprodução)

Moda, Negócios

Não queremos só trabalhar com Moda. Queremos (e precisamos) sobreviver dela

Semana passada, antes da polêmica envolvendo o site da Lilian Pacce tomar conta das redes sociais (leia aqui a matéria do Estadão), estava procrastinando no Instagram quando me deparei com um anúncio de estágio para Design de Moda em Curitiba (coisa rara de se ver). Interessada em indicar a vaga a uma estudante que conheço, fui me informar sobre ele. Suas funções, estagiário, serão assistente de corte, assistente de modelagem, acabamentos e finalização de produto em geral, mas você não receberá nada por isso. Um “estágio voluntário”. Termo depois alterado para “estágio curricular”, mas sem alteração alguma na sua conta bancária no fim do mês.

Com funções de costureiro(a) assistente, ou seja, uma das funções mais importantes na produção de um produto de moda (sem costureira não tem produto), o estagiário presta seus serviços gratuitamente a uma marca com fins lucrativos. Lembra aquele papo sobre exploração de mão de obra na China? Como bem posicionou esse post do site Não Combina, ela não está tão longe quanto se imagina. (Teve rima).

Quando falamos em consumo consciente vale ressaltar que, por essas e outras, é preciso ficar de olho em quem faz nossas roupas. Não é só fast fashion que explora. Tem marca local que é “farinha do mesmo saco”. Que gera lixo desnecessário, que não descarta resíduos corretamente, ou que lucra pagando muito pouco (ou nada) pelo trabalho alheio. Não é exagero, não é “mimimi”, é exploração de mão de obra. É!!!

clothes-pins-pin-threads

Lendo os comentários sobre o caso do estágio não remunerado para cobrir a São Paulo Fashion Week para o site da Lilian Pacce, alguns argumentam que “existem momentos profissionais  que dinheiro nenhum paga”, ou que “experiência não tem preço”. Concordo. Tive momentos profissionais que dinheiro nenhum paga. Mas, apenas para chegar ao local do trabalho e realizá-lo com energia (produção de Moda, por exemplo, exige muita!) até o fim da tarde, coloco na conta o transporte e duas refeições. Meu “momento profissional” não era aceito como forma de pagamento no transporte público ou restaurante. E, se não estou muito desatualizada, ainda não é. Essa conta superficial é só o começo: pagamos para estudar (mensalidades + livros + materiais caríssimos) e, consequentemente, adquirir conhecimentos para estagiar em cantinhos divertidos e coloridos.

Com o estágio aprendemos. Mas também deixamos na empresa o conhecimento que pagamos ($) para receber na faculdade onde chegamos através de um meio pago ($) de transporte e que concluímos apresentando trabalhos e provas que exigem a compra (olha o dinheiro de novo aí, gente) de materiais para serem realizados(as). Resta saber quem vai se voluntariar a pagar (não tem como fugir di$$o) essa história toda.

Queremos trabalhar com Moda. E queremos também, ou melhor, precisamos, sobreviver dela. Marcas, e empresários, respeitem os profissionais responsáveis pela sua existência. Consumidores, invistam em moda produzida com ética.

(Imagem: Visualhunt)