Comportamento, Moda

Slow tudo

Sempre que leio, escrevo ou converso sobre a necessidade de mudarmos nossos hábitos de consumo de moda, bate uma tristeza. Sinto que esse é um daqueles casos em que a teoria vai bem, mas a prática nem tanto. O fast fashion cresce apoiado nos preços baixos e na facilidade de pagamento, mesmo quando a gente argumenta que basta comprar menos para comprar melhor. E que não precisa ter tanta roupa.

No texto Fast fashion, o plástico e a bolha (leia aqui), publicado em setembro do ano passado, comentei sobre a quantidade de lixo plástico que uma das empresas em que trabalhei produzia; mas principalmente sobre o impacto da escolha de quem consome. Em mais uma incoerência da vida, os que preferem permanecer na bolha costumam ser os mesmos que reclamam que a moda está chata, sem novidades, e que “a indústria da moda” faz mal ao mundo.

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O estilista Ronaldo Fraga falou recentemente ao site da revista Elle sobre a moda ser “o espelho do tempo”: “Nessa loucura que a gente tá vivendo, tem gente dizendo que a moda tá terrível hoje. Não tá, ela tá a cara do tempo”. Sim! A moda é comportamento. E só o comportamento é capaz de mudar a moda. Não apenas o comportamento de consumo, mas a forma como levamos a vida. Repare como a busca por novidades o tempo todo, e a vontade de ter muito, fazer muito, mostrar muito é presente no trabalho, na vida social, nas relações…

Keep calm! Diminuir a velocidade, em muitos sentidos, mudou minha rotina, qualidade de vida e fez muito bem à minha sanidade mental (importantíssimo). É claro que existem urgências, mas a maioria das pressões não precisam ser aceitas: minhas pesquisas empíricas comprovaram que 98% do que dizem ser “urgente” pode esperar.

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Semana passada assisti um vídeo da Jout Jout onde ela conta que ao começar a fazer as coisas mais devagar percebeu que sobrava mais tempo, e nada poderia traduzir melhor o que quero dizer aqui. Muitos dirão o contrário, mas o princípio da rebeldia (de desacelerar em pleno 2017) é fazer o oposto.

Fazer sem pressa, com cuidado, prestando atenção e valorizando cada detalhe e processo (material e humano) são alguns dos fundamentos do slow fashion que servem para ser slow em tudo. Permitir-se respirar ar puro no meio do dia, desligar o celular para almoçar e aproveitar momentos de ócio é importante. Na vida slow, a gente tem tempo de parar para pensar. E é nesse tempo que o pontapé inicial para consumir consciente, entender qualidade x quantidade, fica muito claro. Não custa tentar!

(Fotos: Hans Neumann / Styling: Melissa Levy)

+ | As imagens que ilustram o post são do editorial A Study on Sleep, da Crash Magazine (maio de 2017). Uma das liberdades que assumir o slow me deu foi contar pra todo mundo que, se possível, prefiro agendar o job para o período da tarde. E que isso não tem nada a ver com preguiça de trabalhar.

O vídeo da Jout Jout, acima citado (e linkado), também fala sobre foco e o conceito controverso dessa palavra. Mais uma vez, me representa.

Comportamento, Livros, Moda

Organize e otimize

Ainda encantada com as mensagens e ensinamentos do livro A Mágica da Arrumação, compartilho por aqui dicas práticas da Marie Kondo para organizar (e consequentemente otimizar) o closet. Em um breve resumo para quem não conhece o livro, e o método KonMari de organizar, Marie Kondo começa sua “mágica” pelo descarte e revela (e incentiva) a relação emocional com o que temos tanto para conservar como para descartar o que já nos fez feliz e pode servir ao outro, mantendo-se vivo ao invés de permanecer encostado no guarda-roupa.

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Para descobrir o que ainda faz sentido para você (o que serve), a dica é colocar todas as suas roupas em cima da cama e olhar para elas “como se estivesse selecionando itens na vitrine da sua loja favorita“. Começar pelos itens que não estão em uso atualmente, ou seja, as peças de outras estações, segundo Marie facilita o processo: “como roupas de outras estações não são necessárias de imediato é mais fácil avaliar se trazem alegria ou não“.

Outra boa dica prática é uma ordem que coloco em prática no meu guarda-roupa: organizar as peças das pesadas para as leves, das claras para as escuras. Pode parecer bobagem, mas a organização visual (e aqui também entra, por minha conta, a padronização dos cabides) contribui para a visibilidade dos itens: nenhuma peça leve ficará “escondida” entre itens pesados, e as roupas claras não se perdem em meio às escuras.

Marie Kondo acredita que criar categorias como camisas de algodão, camisas de seda e blusas de malha, por exemplo, é mais eficiente do que separar as peças por ocasião de uso. Entendendo que muitos itens podem servir tanto a uma quanto a outra ocasião, concordo com o formato proposto que também contribui para não deixar itens esportivos bacanas, e que podem compor visuais casuais, por exemplo, esquecidos na “gaveta de academia”. Além disso, o ideal é ter todas às peças que forem possíveis à vista (ao invés de colocar itens de outra estação fora do campo de visão); afinal, vivemos com variações climáticas e ambientes que, com ar condicionado, pedem um “casaquinho” mesmo em dias de sol.

Acrescentando uma experiência pessoal, avalio que o descarte contribui para a assertividade do visual. Já saí de casa com a roupa errada por insistir em usar uma peça encostada pelo simples fato de não deixá-la encostada, mesmo quando já não representava mais o meu estilo (de vida e de ser). Para quem, como eu, escolhe o look com pressa, manter só o que realmente faz sentido diminui muito as chances de errar no visual.

Não importa onde guarde suas peças, uma regra comum é: de vez em quando, abra as gavetas ou portas dos armários para deixar entrar um pouco de luz e ar. Passe as mãos peças roupas. Faça com que saibam que você se importa com elas e que anseia por usá-las novamente. Essa comunicação mantém as peças vibrantes e faz o relacionamento de vocês durar mais“. (Marie Kondo)

(Imagem:  jamelah via Visual Hunt)

Moda, Negócios

Não saia por aí fazendo roupa

Gosto muito quando são anunciados eventos de Moda em Curitiba. Convido profissionais que conheço e gosto de divulgar aos amigos, de dentro e de fora da área, marcas e produtos interessantes produzidos aqui.

Mais que gostar de itens diferenciados feitos com matéria prima de qualidade e baixa tiragem, há pouco menos de um ano optei por conscientizar meu guarda-roupa evitando produtos de fast fashion. A ideia de substituir produtos com procedência duvidosa pela moda ética é boa (e continuo a favor dela), mas, além de reservar um espaço para discursar sobre o quão mal as grandes redes fazem para o planeta e para as pessoas, nos encontros entre amigas também abri a cabeça para ouvir os argumentos que as levam a optar pelas lojas de departamentos.

As pessoas estão sim dispostas a pagar mais por um produto produzido localmente, desde que ele tenha, além de ética, a qualidade e o diferencial que se espera. Diversas marcas nacionais e locais estão vendendo “Forever 21 à preço de Chanel”, com bem disse a mãe de uma amiga. Tecidos ruins, acabamentos mal feitos, despreocupação com a modelagem. Não é a toa que, ao ministrar um workshop sobre negócios de Moda em Curitiba no ano passado, o consultor Reginaldo Fonseca, da Cia. Paulista de Moda, avaliou alguns novos criadores nacionais como “preguiçosos” (sem citar nomes, obviamente). Não é exagero. E preciso concordar com eles. E explico o porquê com dois exemplos práticos que vivenciei em Curitiba recentemente.

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Ano passado, interessada em visitar um evento de marcas locais, fui até o local logo no primeiro dia (eram três) e cedo (meia hora após o horário de abertura divulgado). Quando cheguei ao endereço, senti-me um pouco intimidada para entrar: não havia nenhum tipo de comunicação na porta e um silêncio lá dentro. Entrei. E avistei um único criador de Moda atendendo para uma outra marca (“a fulana ainda não chegou”), além da sua própria, três pequenos espaços com produtos e um espaço, destinado a uma marca de acessórios, vazio. “O pessoal dessa marca ainda não chegou, acho que eles vem mais tarde”.

Gente! Vem cá! Papo de amiga! Que amadorismo é esse? A partir do momento que se propõe a participar de um evento, estar lá antes do horário de início (para limpar, organizar, dobrar, acariciar, “dar um cheiro” nos seus produtos com todo aquele amor que te move) é o MÍNIMO que se espera de um profissional. Duas da tarde é cedo demais? Não tem público para esse horário? Então NÃO ANUNCIE um evento para esse horário!!! Não é possível que alguém “não tenha pensado nisso antes”!

Além disso, é inadmissível que alguém que quer divulgar e apresentar sua marca aos consumidores, seja ela nova ou já tradicional, grande ou pequena, deixe o estande na mão de outra pessoa durante um evento (du-ran-te, porque eu não pulei o muro fora do horário de funcionamento). Na hora de fazer o discurso que justifica os preços mais altos que o das peças made in China em suas redes sociais todos estão afiadíssimos. Mas quando o cliente chega ao espaço da sua marca, interessado em comprar e saber mais sobre o produto, o criador não está lá. E aí? “Como faz”? Isso sem contar o desprazer que é chegar em um estande de marca local e ter que elaborar uma entrevista para descobrir o produto, pois o criador permanece sentado entretido em seu bordado. Galera, no estande tem que atender!!!

Qualidade é um conjunto de fatores: matéria-prima, acabamento, comunicação da marca, atendimento… E é justamente no atendimento que o criador passará por um processo fundamental para a construção de uma marca com qualidade e sucesso comercial: OUVIR seu público. O que ele procura, o que ele gosta, o que ele achou bonito, o que ele criticou. Por mais brilhante e criativo que seja, um designer não constrói uma moda plus size eficiente quando nega o argumento de uma mulher plus size (coisa que eu vi acontecer em workshop de moda em Curitiba).

Esses e outros fatos sempre me deixaram bastante pensativa sobre como os criadores estão pensando em construindo suas marcas. E essa semana, em mais um evento de Moda (eis o segundo exemplo), acho que descobri um dos motivos.

Em um debate com convidados para falar de Moda, com muitos estudantes entre os presentes, uma convidada incentivou a criação de novas marcas. Ótimo, concordo. Mas o discurso que veio a seguir é, para mim, bastante irresponsável. Para ela, os criadores locais estão “muito tímidos”, e se você tem vontade fazer “vai lá e faz”! Quer fazer camisetas? “Pegue um empréstimo” e faça logo uma grande variedade de peças, “faça várias estampas, várias modelagens”, “faz curta, faz comprida, faz larga”. E é assim que os criadores estão pensando, ou melhor, NÃO PENSANDO suas marcas. É o que os estudantes estão ouvindo. E fazendo.

Respeito diferentes formas de pensar. Mas registro aqui meu choque e minha opinião radicalmente conta essa fala. Já fui dona de marca, de loja e já estive nos bastidores de uma das maiores varejistas de moda do país. E meu conselho para quem deseja construir uma marca de Moda competitiva, consistente e de sucesso resume-se a um só: Não saia por aí fazendo roupa!

É preciso PENSAR uma marca de Moda. ESTUDAR. Pensar de novo. AVALIAR o orçamento (inicial e para os próximos passos). Reavaliar o orçamento. Estudar mais um pouco. Fazer uma peça piloto. Lançar a peça. SENTIR o mercado. OUVIR o consumidor. Repensar a marca. Estudar de novo. Repensar modelagem. Replicar os acertos. Ajustar os erros. Construir a identidade da marca. Unir o conceito e estilo do criador ao anseio do público (você faz para o outro, e suas roupas precisam ir além do seu “gosto”). Estudar. Estudar mais (a vida inteira). Fazer mais um pouco. Aprimorar detalhes. Ouvir o consumidor mais uma vez (e nunca parar de ouvir). Pensar na etiqueta. Na embalagem. Nas imagens de divulgação. Estar em eventos como consumidor. Participar do seu primeiro evento (participar, não apenas colocar seus produtos lá). Ouvir. Estudar os resultados. Aumentar as variações do produto. Repensar. (Finalizo o parágrafo aqui, mas na prática isso não deve acabar nunca).

Não é timidez. É responsabilidade! Não apenas com a sua marca, o seu nome como profissional e com os recursos financeiros (se sobra na sua conta bancária, vale refletir sobre a situação de muitos outros que estão ao seu lado). Mas também com os recursos naturais do planeta! Imagine como aumentaremos o desperdício e o descarte de peças se todo criador “sair fazendo” grades enormes de roupas sem saber se vão funcionar comercialmente? Sem parâmetros de aceitação, sem testar na “vida real” as primeiras ideias e desenvolvê-las com consciência? A moda responsável acaba sem nem começar.

(Imagem: goMainstream via Visualhunt)

Moda

Dolce & Gabbana e inspirações para customizar

Depois dos patches e bordados florais do verão, broches e aplicações confirmam sua presença, cada vez mais forte, ao lado deles nas passarelas e vitrines de inverno. Os detalhes ganharam brilho. Patches  e apliques com brasões dourados e bordados em pedrarias ou paetês enriquecem ainda mais composições com tecidos de lã e veludo e atualizam o jeans. Vai aderir a essa moda? Ao invés de comprar, customize.

Inspirações não faltam no styling de inverno da Dolce & Gabbana, apresentado em Milão. Da passarela da grife italiana, uma ideia e tanto para renovar o vestido preto: botões em diferentes tamanhos e modelos, na peça toda ou ao redor do decote.

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Os botões também aparecem no jeans da grife, assim como bordados com paetês. A proposta é maximalista, e as calças jeans cheias de detalhe estão ao lado de jaquetas tão poderosas quanto + t-shirt + mix de colares.

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Mais sutis, as aplicações podem estar nos calçados ou bolsas. Experimente trocar a fivela de uma sandália antiga, por exemplo. Outra ideia é trocar os botões básicos da camisa branca por botões diferenciados ou, com uma fita de veludo, fazer um laço sob o colarinho. Itens simples e um bom acabamento garantem roupas renovadas, informação de moda ao visual e menos consumo. Já escolheu uma peça do seu guarda roupa para transformar?

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(Imagens: reprodução)

Moda, Negócios

Não queremos só trabalhar com Moda. Queremos (e precisamos) sobreviver dela.

Semana passada, antes da polêmica envolvendo o site da Lilian Pacce tomar conta das redes sociais (leia aqui a matéria do Estadão), estava procrastinando no Instagram quando me deparei com um anúncio de estágio para Design de Moda em Curitiba (coisa rara de se ver). Interessada em indicar a vaga a uma estudante que conheço, fui me informar sobre ele. Suas funções, estagiário, serão assistente de corte, assistente de modelagem, acabamentos e finalização de produto em geral, mas você não receberá nada por isso. Um “estágio voluntário”. Termo depois alterado para “estágio curricular”, mas sem alteração alguma na sua conta bancária no fim do mês.

Com funções de costureiro(a) assistente, ou seja, uma das funções mais importantes na produção de um produto de moda (sem costureira não tem produto), o estagiário presta seus serviços gratuitamente a uma marca com fins lucrativos. Lembra aquele papo sobre exploração de mão de obra na China? Como bem posicionou esse post do site Não Combina, ela não está tão longe quanto se imagina. (Teve rima).

Quando falamos em consumo consciente vale ressaltar que, por essas e outras, é preciso ficar de olho em quem faz nossas roupas. Não é só fast fashion que explora. Tem marca local que é “farinha do mesmo saco”. Que gera lixo desnecessário, que não descarta resíduos corretamente, ou que lucra pagando muito pouco (ou nada) pelo trabalho alheio. Não é exagero, não é “mimimi”, é exploração de mão de obra. É!!!

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Lendo os comentários sobre o caso do estágio não remunerado para cobrir a São Paulo Fashion Week para o site da Lilian Pacce, alguns argumentam que “existem momentos profissionais  que dinheiro nenhum paga”, ou que “experiência não tem preço”. Concordo. Tive momentos profissionais que dinheiro nenhum paga. Mas, apenas para chegar ao local do trabalho e realizá-lo com energia (produção de Moda, por exemplo, exige muita!) até o fim da tarde, coloco na conta o transporte e duas refeições. Meu “momento profissional” não era aceito como forma de pagamento no transporte público ou restaurante. E, se não estou muito desatualizada, ainda não é. Essa conta superficial é só o começo: pagamos para estudar (mensalidades + livros + materiais caríssimos) e, consequentemente, adquirir conhecimentos para estagiar em cantinhos divertidos e coloridos.

Com o estágio aprendemos. Mas também deixamos na empresa o conhecimento que pagamos ($) para receber na faculdade onde chegamos através de um meio pago ($) de transporte e que concluímos apresentando trabalhos e provas que exigem a compra (olha o dinheiro de novo aí, gente) de materiais para serem realizados(as). Resta saber quem vai se voluntariar a pagar (não tem como fugir di$$o) essa história toda.

Queremos trabalhar com Moda. E queremos também, ou melhor, precisamos, sobreviver dela. Marcas, e empresários, respeitem os profissionais responsáveis pela sua existência. Consumidores, invistam em moda produzida com ética.

(Imagem: Visualhunt)

Comportamento, Moda

O rótulo da roupa: Qualidade, conservação e mais um pouco

É comum ler o rótulo dos alimentos antes de comprá-los, mas poucas pessoas preocupam-se em ler o “rótulo” das roupas. Atentar-se à etiqueta é fundamental para consumir moda de forma consciente: nela estão informações sobre tecido, conservação e origem do produto, itens importantes para conhecer sua qualidade e real valor.

Ler o rótulo das roupas nos leva a comprar de forma mais assertiva, e a avaliar se o preço da etiqueta é justo independente do nome da marca estampada nela. Da mesma forma que é possível encontrar peças de qualidade a preço acessível, não são poucas as grifes vendendo “poliéster por algodão”. Marca não atesta qualidade! E é na etiqueta que encontramos as informações para avaliar se o produto irá, de fato, valer a pena.

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Importante! Quando abordo o tema qualidade X quantidade percebo um equívoco com relação ao primeiro termo. Qualidade não diz respeito apenas ao tempo em que a roupa permanece em bom estado, uma vez que a durabilidade dos itens de vestuário depende de uma série de fatores. Uma peça pouco usada, e consequentemente pouco lavada, por exemplo, pode durar um tempo considerável mesmo tratando-se de um produto de baixa qualidade. Por isso, é importante pensar em qualidade como um conjunto de bom tecido, acabamento e modelagem bem feitos e vida útil.

Roupa boa no closet, hora de cuidar dela. Observe os dados, importe-se com o comportamento dos tecidos e procure entender a simbologia da etiqueta (tem tabela disponível para download aqui) para conservar suas peças. Afinal, mesmo os itens de qualidade dependem do uso responsável para permanecer em bom estado: matérias-primas, como a seda, exigem cuidados especiais; assim como modelos com aplicações ou técnicas diferenciadas de tingimento podem restringir o uso de alguns produtos no momento da lavagem.

Por fim, informe-se sobre a origem! “Tudo na vida tem seu preço”, e, independente do posicionamento pessoal de cada um, o importante é estar ciente do verdadeiro custo do que consumimos. Sempre é tempo de repensar se trocar três ou quatro produtos de R$ 49 reais, produzido a alto custo humano, por uma peça monetariamente mais cara com origem transparente é mesmo tão difícil.

(Imagem: Leafcutter Designs)

+ | Dica de leitura: A matéria do The Uniplanet, publicada no dia 17 desse mês, sobre a jornada de trabalho das crianças em Bangladesh.

Comportamento, Moda

“The world is watching, it’s time to detox”

A quantidade de produtos de moda made in China é assustadora. Vou parecer ingênua, e talvez tenha sido, com o comentário a seguir, mas achei que o fast fashion no Brasil era avassalador até colocar meus pés em terras europeias. Parei de anotar os nomes na quinta ou sexta loja de fast fashion que descobri na Itália: são muitas, muitas mesmo! Mais do que podia imaginar a minha “vã filosofia”.

Cada uma dessas lojas recebe semanalmente uma quantidade enorme daquelas peças tão bonitinhas quanto ordinárias. E essas lojas estão cheias. Filas nos provadores, filas nos caixas, suas sacolas circulam por todos os pontos da cidade nas mãos de moradores locais ou turistas. Quando comecei a falar sobre consumo consciente de maneira aberta por aqui, pensei em trazer o assunto para debate de forma sutil. Mas a sutileza não combina com o atual cenário: uma indústria que escraviza da produção ao ponto de venda e que está acabando com os recursos naturais que ainda temos.

Semana passada o site Stylo Urbano publicou um excelente texto sobre o futuro dessa indústria em terras chinesas: assim como os trabalhadores, o meio ambiente está sentindo os efeitos da exploração. A matéria descreve a posição preocupada do governo chinês, que busca meios de reverter a situação enquanto é tempo, e a posição não tão preocupada assim das marcas internacionais que, até então, exploravam mão de obra e meio ambiente do país: “Os custos de eletricidade e mão de obra na China estão ficando mais caros e isso se reflete no preço da fabricação de artigos de moda, por isso as marcas internacionais estão procurando outros países com farta mão de obra barata e custos baixos como Bangladesh, Índia, Marrocos, Vietnã, Turquia e agora África para fabricar seus produtos”. É isso mesmo. Depois de acabar com a China, outros países estão na “linha de tiro”.

A China tenta salvar-se como pode, planejando mudar o foco da indústria de Moda local com investimento em moda autoral e o fechamento de fábricas que não atendam aos novos termos de sustentabilidade que serão implantados. Segundo a matéria acima citada, “outra ideia é a de reciclar quimicamente todos os resíduos têxteis e roupas velhas para criar novos tecidos e evitar que sejam descartados nos aterros”.

Os consumidores de Moda são mais decisivos nesse processo do que imaginam. Quando compartilhei por aqui o documentário The True Cost, e também divulguei entre amigos, muitos dividiram comigo sua comoção. Sentiram-se tristes, choraram… E continuaram comprando. Sim, há uma luz no fim do túnel. Mas percebi que é preciso seguir um valioso conselho da minha irmã: “Em alguns temas, a gente precisa ser radical”. Esse é um deles.

Não é fácil ler que “a indústria da Moda” está matando, “a indústria da Moda” está poluindo. Eu faço parte dessa indústria e garanto a vocês que ela não é só isso. A indústria da Moda é um rico universo de cultura, sociologia, filosofia, arte… De tecidos combinados com um propósito e significado, de formas que ajudam a contar a história do mundo, de cores que transmitem emoções.

Existem muitos profissionais responsáveis nessa indústria. Criativos e crentes de que a Moda fala, inclui e transforma. Prova disso é que há movimentos engajados na área, unidos para denunciar e fazer a sua parte. “The world is watching, it’s time to detox“!

Ilustro esse texto com três excelentes vídeos retirados da matéria do site Stylo Urbano, mencionada acima, e finalizo com dois apelos. Profissionais de Moda que mantém suas empresas de forma responsável, continuem lutando. Para sobreviver do que amam, para mostrar que a indústria da Moda vai além desse “lado negro” e para virarmos o jogo. Consumidores de Moda, não há justificativa: parem de comprar dessas empresas!!!

+ | Ciente de que a exploração, tanto ambiental como de mão de obra, não é exclusividade do fast fashion, uso as grandes redes como exemplo por serem as lojas com maior visibilidade e “acesso”. Obviamente, a mensagem é geral: exploradores, grandes ou pequenos, não passarão.

Comportamento, Moda

A importância das peças-chave

No primeiro texto sobre consumo consciente, citei o equilíbrio entre roupas com qualidade superior (e mais caras) e itens de moda com preço de fast fashion como mudança de hábito para começar a comprar menos. Para montar um guarda-roupa versátil, adicione ao primeiro “grupo”, além dos clássicos e básicos, itens chave para o seu estilo.

Essas peças, não necessariamente básicas, são roupas que podem sintetizar visualmente sua identidade. Uma jaqueta de couro com tachas, por exemplo, apesar de marcante, é coringa para quem tem um estilo com muitas referências rock. Avaliando a quantidade de visuais que podem ser criados com ela, nota-se que, assim como os neutros, tais peças valem um investimento maior.

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“Mas quais são as peças-chave do meu estilo”?

Autoconhecimento é fundamental para consumir moda de maneira mais assertiva e inteligente. Em uma série de posts sobre aprimoramento do estilo pessoal, compartilhei um passo a passo para criar e analisar seu painel de referências fashion (aqui e aqui). Desse exercício é possível retirar informações valiosas sobre styling para revisitar o que já tem no closet, e identificar suas peças-chave. De forma prática (e generalizada), elas são aquelas que se repetem em diversas inspirações selecionadas, ou complementam boa parte delas.

Não acredite em listas prontas de “peças que toda mulher deve ter”. Cada mulher é única em seu estilo de vida e de vestir, e nem todas precisam de camisa branca e scarpin preto.

(Imagem: reprodução)

Comportamento, Moda, TV & Cinema

The True Cost

“Este preço? A que custo”? The True Cost, dirigido por  Andrew Morgan e produzido por Michael Ross, é um choque de realidade sobre a indústria da Moda. Como o próprio título revela, o documentário questiona o preço pago pelo meio ambiente e pela sociedade para que grandes empresas encham nossos olhos com novas roupas e acessórios a todo o tempo e aumentem, cada vez mais, seu lucro.

Além das péssimas condições de trabalho e salários vergonhosos, trabalhadores de fábricas têxteis correm risco de vida em edifícios prestes a desabar, agricultores e suas famílias têm sua saúde ameaçada em comunidades afetadas pelo uso de agrotóxicos e outros materiais poluentes, e nós nos convencemos de que “somos ricos ou endinheirados porque podemos comprar muito” quando, “na verdade, eles estão nos empobrecendo“(trecho do maravilhoso discurso da Livia Firth, fundadora da Eco Age Ltd).

Prefiro poupar palavras e recomendar que assistam e divulguem  The True Cost (disponível no Netflix). Um emocionante filme que mostra o mundo nada glamouroso do fast fashion. Todos nós estamos envolvidos e, de alguma forma, podemos fazer a nossa parte. Vale o choque. Mais ainda, a reflexão.

Podemos ter os melhores materiais entrando no mercado da moda, mas tem tanto trabalho acontecendo por trás disso. E tanto produto químico tem sido usado nisso, os efluentes vêm sendo despejados em tantos rios. Mas só estamos olhando para o momento em que temos o produto final. Precisamos dar um passo para trás e pensar sobre isso“.(Satish Sinha, da Toxics Link).

Comportamento, Moda

Primeiras palavras sobre consumo consciente

O consumo de moda consciente é um tema bastante amplo e as discussões a respeito apresentam cada vez mais desdobramentos. Com tantas questões e polêmicas, tentar responder à pergunta “Como consumir moda de forma consciente”?, levando em conta estilo de vida e realidade financeira, foi meu ponto de partida para repensar e exercitar uma nova forma de consumir.

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Pensar em custo X benefício e priorizar qualidade sobre quantidade é o primeiro passo. Para alguns parece impossível trocar três calças de R$ 79,90 por uma peça que custe o triplo do valor de cada uma delas, ainda que essa última tenha uma vida útil cinco, seis ou dez vezes maior; mas basta analisar o destino das suas compras nos últimos anos para constatar que, quando o assunto é roupa, o barato costuma sair caro.

Além do custo com matéria prima de qualidade (ou materiais ecologicamente corretos, reaproveitados entre outros) ser inquestionavelmente maior, o processo de produção responsável e o respeito às leis trabalhistas é muitas vezes proporcional aos valores na etiqueta (embora os alvos de denúncias por condições degradantes de trabalho não sejam exclusivamente as lojas de departamentos). E essa consciência pode ser enumerada como um importante tópico para reflexão rumo a uma prática de consumo ética.

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Eu sei. É difícil abdicar dos “precinhos” do fast fashion quando se quer consumir moda (e não apenas roupa). Nem todo mundo, ou melhor, a minoria do mundo pode se dar ao luxo de comprar um item da temporada pagando mais do que o oferecido pelas grandes redes. Por isso, comece exercitando o equilíbrio: invista em peças clássicas com qualidade superior e etiquetas “responsáveis” como base do seu closet, e reduza as sacolas do fast fashion a uma ou outra tendência para atualizar o visual.

Sem ignorar a moda, eliminar exageros na hora das compras muda sua relação com esse universo e faz bem ao seu estilo (uma imagem pessoal bem resolvida não precisa ser 100% alterada a cada mês), ao seu bolso e ao mundo. Informe-se sobre o que compra e não feche os olhos!

É importante deixar claro que falar sobre qualidade e preço, sobre reduzir a quantidade de sacolas e buscar alternativas à marcas que não agem com transparência é apenas a “ponta do iceberg“. Fazer a sua parte contra o consumo excessivo e os problemas ambientais e sociais que ele gera é muito mais importante do que imagina. Eu ainda tenho muito a descobrir (e compartilhar) sobre isso.

Dica! Que tal saber mais sobre as marcas que consome através do Moda Livre? O aplicativo avalia o posicionamento de empresas de moda com relação ao trabalho escravo através de quatro indicadores (políticas, monitoramento, transparência e histórico), e a partir disso as “sinaliza” com verde, amarelo ou vermelho. C&A e Malwee são algumas das empresas bem avaliadas pela plataforma.

(Imagens: reprodução)