Moda, Negócios

Não saia por aí fazendo roupa

Gosto muito quando são anunciados eventos de Moda em Curitiba. Convido profissionais que conheço e gosto de divulgar aos amigos, de dentro e de fora da área, marcas e produtos interessantes produzidos aqui.

Mais que gostar de itens diferenciados feitos com matéria prima de qualidade e baixa tiragem, há pouco menos de um ano optei por conscientizar meu guarda-roupa evitando produtos de fast fashion. A ideia de substituir produtos com procedência duvidosa pela moda ética é boa (e continuo a favor dela), mas, além de reservar um espaço para discursar sobre o quão mal as grandes redes fazem para o planeta e para as pessoas, nos encontros entre amigas também abri a cabeça para ouvir os argumentos que as levam a optar pelas lojas de departamentos.

As pessoas estão sim dispostas a pagar mais por um produto produzido localmente, desde que ele tenha, além de ética, a qualidade e o diferencial que se espera. Diversas marcas nacionais e locais estão vendendo “Forever 21 à preço de Chanel”, com bem disse a mãe de uma amiga. Tecidos ruins, acabamentos mal feitos, despreocupação com a modelagem. Não é a toa que, ao ministrar um workshop sobre negócios de Moda em Curitiba no ano passado, o consultor Reginaldo Fonseca, da Cia. Paulista de Moda, avaliou alguns novos criadores nacionais como “preguiçosos” (sem citar nomes, obviamente). Não é exagero. E preciso concordar com eles. E explico o porquê com dois exemplos práticos que vivenciei em Curitiba recentemente.

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Ano passado, interessada em visitar um evento de marcas locais, fui até o local logo no primeiro dia (eram três) e cedo (meia hora após o horário de abertura divulgado). Quando cheguei ao endereço, senti-me um pouco intimidada para entrar: não havia nenhum tipo de comunicação na porta e um silêncio lá dentro. Entrei. E avistei um único criador de Moda atendendo para uma outra marca (“a fulana ainda não chegou”), além da sua própria, três pequenos espaços com produtos e um espaço, destinado a uma marca de acessórios, vazio. “O pessoal dessa marca ainda não chegou, acho que eles vem mais tarde”.

Gente! Vem cá! Papo de amiga! Que amadorismo é esse? A partir do momento que se propõe a participar de um evento, estar lá antes do horário de início (para limpar, organizar, dobrar, acariciar, “dar um cheiro” nos seus produtos com todo aquele amor que te move) é o MÍNIMO que se espera de um profissional. Duas da tarde é cedo demais? Não tem público para esse horário? Então NÃO ANUNCIE um evento para esse horário!!! Não é possível que alguém “não tenha pensado nisso antes”!

Além disso, é inadmissível que alguém que quer divulgar e apresentar sua marca aos consumidores, seja ela nova ou já tradicional, grande ou pequena, deixe o estande na mão de outra pessoa durante um evento (du-ran-te, porque eu não pulei o muro fora do horário de funcionamento). Na hora de fazer o discurso que justifica os preços mais altos que o das peças made in China em suas redes sociais todos estão afiadíssimos. Mas quando o cliente chega ao espaço da sua marca, interessado em comprar e saber mais sobre o produto, o criador não está lá. E aí? “Como faz”? Isso sem contar o desprazer que é chegar em um estande de marca local e ter que elaborar uma entrevista para descobrir o produto, pois o criador permanece sentado entretido em seu bordado. Galera, no estande tem que atender!!!

Qualidade é um conjunto de fatores: matéria-prima, acabamento, comunicação da marca, atendimento… E é justamente no atendimento que o criador passará por um processo fundamental para a construção de uma marca com qualidade e sucesso comercial: OUVIR seu público. O que ele procura, o que ele gosta, o que ele achou bonito, o que ele criticou. Por mais brilhante e criativo que seja, um designer não constrói uma moda plus size eficiente quando nega o argumento de uma mulher plus size (coisa que eu vi acontecer em workshop de moda em Curitiba).

Esses e outros fatos sempre me deixaram bastante pensativa sobre como os criadores estão pensando em construindo suas marcas. E essa semana, em mais um evento de Moda (eis o segundo exemplo), acho que descobri um dos motivos.

Em um debate com convidados para falar de Moda, com muitos estudantes entre os presentes, uma convidada incentivou a criação de novas marcas. Ótimo, concordo. Mas o discurso que veio a seguir é, para mim, bastante irresponsável. Para ela, os criadores locais estão “muito tímidos”, e se você tem vontade fazer “vai lá e faz”! Quer fazer camisetas? “Pegue um empréstimo” e faça logo uma grande variedade de peças, “faça várias estampas, várias modelagens”, “faz curta, faz comprida, faz larga”. E é assim que os criadores estão pensando, ou melhor, NÃO PENSANDO suas marcas. É o que os estudantes estão ouvindo. E fazendo.

Respeito diferentes formas de pensar. Mas registro aqui meu choque e minha opinião radicalmente conta essa fala. Já fui dona de marca, de loja e já estive nos bastidores de uma das maiores varejistas de moda do país. E meu conselho para quem deseja construir uma marca de Moda competitiva, consistente e de sucesso resume-se a um só: Não saia por aí fazendo roupa!

É preciso PENSAR uma marca de Moda. ESTUDAR. Pensar de novo. AVALIAR o orçamento (inicial e para os próximos passos). Reavaliar o orçamento. Estudar mais um pouco. Fazer uma peça piloto. Lançar a peça. SENTIR o mercado. OUVIR o consumidor. Repensar a marca. Estudar de novo. Repensar modelagem. Replicar os acertos. Ajustar os erros. Construir a identidade da marca. Unir o conceito e estilo do criador ao anseio do público (você faz para o outro, e suas roupas precisam ir além do seu “gosto”). Estudar. Estudar mais (a vida inteira). Fazer mais um pouco. Aprimorar detalhes. Ouvir o consumidor mais uma vez (e nunca parar de ouvir). Pensar na etiqueta. Na embalagem. Nas imagens de divulgação. Estar em eventos como consumidor. Participar do seu primeiro evento (participar, não apenas colocar seus produtos lá). Ouvir. Estudar os resultados. Aumentar as variações do produto. Repensar. (Finalizo o parágrafo aqui, mas na prática isso não deve acabar nunca).

Não é timidez. É responsabilidade! Não apenas com a sua marca, o seu nome como profissional e com os recursos financeiros (se sobra na sua conta bancária, vale refletir sobre a situação de muitos outros que estão ao seu lado). Mas também com os recursos naturais do planeta! Imagine como aumentaremos o desperdício e o descarte de peças se todo criador “sair fazendo” grades enormes de roupas sem saber se vão funcionar comercialmente? Sem parâmetros de aceitação, sem testar na “vida real” as primeiras ideias e desenvolvê-las com consciência? A moda responsável acaba sem nem começar.

(Imagem: goMainstream via Visualhunt)

Comportamento, Moda, Negócios

Consumo consciente? Fast fashion se destaca em momento de crise

Essa semana o site O Negócio Do Varejo publicou uma matéria sobre o comportamento de consumo no período de recessão. Os dados compartilhados pelo O Negócio do Varejo mostram o que o consumidor de produtos do vestuário está buscando, e como esses anseios refletem na escolha do canal de compra. O aumento da relevância das lojas de departamento, na contramão dos movimentos de slow fashion, é justificada por essas preferências.

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Com relação ao design dos produtos o consumidor mostra-se atraído por peças “jovens, despojadas e diferentes”: “Em 2014, 36% dos consumidores informaram que, na última compra, haviam adquirido peças básicas, 17%, jovens, 13%, despojadas e 10%, diferentes. Neste ano, o percentual que se refere a roupas básicas caiu para 30%, subindo os de roupas jovens (27%), despojadas (18%) e diferentes (15%)”. Inovação e diferenciação são apontadas como características que atraem o consumidor, o que os levaria a optar pelas redes de fast fashion e suas araras sempre repletas de novidades.

Em uma análise pessoal, quando fala-se em inovação e diferenciação como pontos importantes na escolha de um item de vestuário, entendo que as lojas de departamento representam o oposto. Além de comercializar produtos com design pouco diferenciado, tanto no ponto de vista estético como em relação às coleções anteriores e às outras redes, os produtos em larga escala não atendem à necessidade de diferenciação. Porém, é importante interpretar esse dado como uma menor preocupação com a qualidade dos produtos: com o fator “novidade” como prioridade no processo de decisão de compra, é justificável o crescimento do fast fashion onde por um preço mais baixo é possível adquirir uma peça com durabilidade suficiente, não necessariamente longa, para ser substituída em breve por um novo modelo.

A conveniência é outro fator que faz com que as lojas de departamento saiam na frente. Segundo Edmundo Lima, diretor executivo da ABVTEX (Associação Brasileira do Varejo Têxtil), na matéria citada, “o fato de as redes terem produtos para toda a família e para a casa é conveniente para os clientes”. Atreladas à conveniência, a informação e a experiência aparecem como itens observados pelo consumidor. Ações em redes sociais com sugestões de looks, por exemplo, e o “encantamento do espaço da loja” estão cada vez mais relevantes. Nesse aspecto, o alto investimento das redes de departamento aumenta sua vantagem competitiva com relação aos pequenos negócios.

Para fazer frente à isso, a dica do consultor de varejo Michel Cutait, é “melhorar o atendimento, o relacionamento com os clientes e criar ambientes capazes de atrair o cliente e concretizar a venda”. Além disso, acrescento a importância do cuidado com os detalhes, como limpeza e manutenção da estrutura do ponto de venda, e da busca por informação de Moda para reinventar o visual do ponto de venda todos os dias através de novos formatos de exposição e de um styling atraente.

(Imagem: Visualhunt)

+ | Texto de minha autoria originalmente publicado no blog da Cena. Entre em contato para informações sobre produção de moda, styling e consultoria de visual merchandising para empresas de Moda.