Empreendedorismo, Moda

Case de fracasso

O texto Não saia por aí fazendo roupa repercutiu muito mais do que eu esperava. Uma repercussão que avalio como 100% positiva. Trouxe olhares complementares, visões múltiplas sobre o tema, que incluem outras áreas dentro da Moda, e comentários que impulsionaram o texto de hoje.

“Ivy, quais são suas dicas para quem quer ter uma marca de Moda”? Mas… Eu não tenho uma marca de Moda. E mais. Minha marca de Moda fracassou. Espera aí… Eu tenho muitas dicas para pequenas marcas de Moda, e justamente pelo fato da minha ter fracassado.

Quando estava construindo minha primeira empresa encontrei muitos conselhos sobre o que fazer. Hoje, avalio que o que realmente precisava ler naquela época (e não sabia) era sobre o que NÃO fazer. Sobram cases de sucesso, mas às vezes é preciso saber mais sobre os cases de fracasso.

Apesar de muitos blogs dedicados aos cases de sucesso deixarem claro que o empreendedor em questão faliu algumas vezes antes de alcançar um modelo de negócio que deu certo, pouco se fala sobre os motivos da falência e muitos conselhos espelhados no negócio de sucesso não funcionam para quem está dando o primeiro passo. São dicas que deram certo para o empreendedor de sucesso exatamente porque outras questões menores já estavam resolvidas para ele devido ao fracasso anterior. Coisas essas que “passam batido” nas matérias. Coisas essas que eu queria ter lido quando comecei. Por isso, começo a semana compartilhando o meu case de fracasso.

industria-moda

Para abordar todos os meus erros na aventura da “primeira marca” seria necessário escrever um livro. Já comecei errado, optando pela construção de um negócio com uma gama muito alta de produtos que, além disso, eram produtos sazonais: moda praia no verão (com complementos casuais) e comfort wear para as estações frias. Uma escolha baseada no “falta biquíni no verão” / “falta comfort wear no inverno” e nada mais, provando que tão importante quanto ouvir o consumidor/lojista é usar o conhecimento profissional e a pesquisa de mercado para filtrar e adaptar a demanda à realidade de um novo negócio. Esse é meu primeiro conselho.

• Faça um orçamento real: O que você consegue “abraçar”?

Ao decidir abrir uma marca, contei com o famoso “paitrocínio”. Embora meu pai estivesse disposto a me ajudar, havia uma limitação no orçamento: Eu tinha X reais para tirar meu negócio do papel. Em um primeiro momento, pareceu um “dinheirão”; pois com esse valor era possível cobrir o custo dos tecidos, aviamentos, metais para detalhes, plaquinhas personalizadas, confecção (terceirizada), embalagens, criação de logomarca, etiquetas, tags e… só.

Parece muita coisa mas ainda faltava pensar em marketing, em material de divulgação, nos canais de venda (para participar de feiras, eu precisava ter dinheiro em caixa), no custo de logística para entrega desses produtos que, aliás, eu pretendia vender para lojas sem ter estrutura para isso (mais um erro).

Também faltou considerar que uma coleção não é vendida inteira em uma estação, e que não se pode contar com o dinheiro da venda da primeira para produzir a segunda. Ou seja, é necessário possuir recursos para as próximas coleções para manter a marca no mercado (falarei mais sobre isso no segundo tópico).

O dinheiro não era pouco. Mas minhas ideias, o público que eu visava, as compras que fiz para dar início à marca e a quantidade que decidi produzir eram megalomaníacas! Irrisórias para uma indústria estruturada, mas totalmente “fora da casinha” para uma marca iniciante nas minhas condições. Eu queria, como citei no parágrafo anterior, vender no atacado. E quando penso nisso agradeço à Deus pelo fato da marca não ter funcionado “de cara”. Meu problema teria sido muito maior caso lojistas se interessassem pelo meu produto, pois eu não teria condições de produzi-los e entregá-los.

É importante tomar decisões a partir de um orçamento, e não fazer escolhas precipitadas para depois ficar correndo atrás de mais e mais recursos e empréstimos para sustentá-las. Na prática, eu poderia ter economizado em determinados itens para poder gastar no que era essencial (material de qualidade, por exemplo). Li, nos cases de sucesso, que uma marca precisa de uma embalagem inovadora para se destacar. Concordo. Porém, é preciso pensar se, na primeira coleção, seu orçamento permite encomendar uma embalagem com o melhor fornecedor do mercado que exige uma quantidade mínima alta e adiciona um frete alto para entrega (pois produz fora da cidade). Eu fiz isso. Por preguiça de encontrar alternativas locais, colocar a cabeça para funcionar e criar, talvez manualmente, uma embalagem diferenciada dentro do meu orçamento. É possível!

Não me arrependo de ter investido, por exemplo, no material utilizado pelas melhores marcas de moda praia do Brasil para confeccionar meus biquínis. Esse era um alto investimento que realmente valia a pena, a qualidade  e a durabilidade do produto são primordiais. Mas o que quero mostrar com o exemplo da embalagem é que cada investimento deve ser extremamente cauteloso. Cada R$ 1,50 faz diferença.

• Planejamento à longo prazo

Com o valor que eu tinha na conta era possível colocar no mercado minha primeira coleção. E só. Erro detected.

Não conheço nenhuma marca que abriu as portas e vendeu todo seu estoque para financiar a próxima coleção. É preciso possuir recursos financeiros para manter seu negócio funcionando por mais tempo, sem contar 100% com o retorno das vendas da primeira produção. Parece óbvio mas vejo esse erro acontecendo com frequência.

Volto ao tópico anterior e à necessidade de planejar-se a partir do seu orçamento real. No meu caso, se ao invés de produzir x peças logo de cara resolvesse produzir x/3 em um primeiro momento, mais um pouco em um segundo lançamento e assim por diante, com controle financeiro e monitoramento do mercado (O que as pessoas estão gostando? O que encalhou? Quais são as críticas? O que minhas clientes estão pedindo?), minhas chances de sucesso seriam muito maiores.

• Menos variedade, mais qualidade

Produzir vinte modelos diferentes, sem nenhum teste prévio, é muito arriscado. Nos cases de sucesso, li que era necessário oferecer uma gama alta de produtos para dar certo. Mas esse foi um dos fatores que fez minha marca dar errado.

“Se você quer vender 3 mil reais por mês, tenha um estoque com ao menos o triplo desse valor” (foi uma das coisas que eu li). Às vezes não! Quando não temos experiência no mercado, e nem dinheiro para arriscar na “mesa de jogo” contando com a sorte, investir alto em produtos que ainda não foram testados pelo consumidor (e até pelo próprio empresário) é uma péssima ideia.

Isso tudo sem citar a questão da moda responsável, e a realidade de uma empresa pequena muitas vezes composta por você e você mesmo. Não é fácil gerenciar uma produção. Mesmo quando terceirizada (meu caso), o criador precisa estar presente olhando o acabamento, conferindo os tamanhos, monitorando o aproveitamento da matéria-prima (a confecção não está preocupada como seu dinheiro, e eu senti isso na pele, ou melhor, no bolso) e muitas outras coisas. Reflita: Você consegue “dar conta” de grades e mais grades de modelos diferentes de produto, além de desenhar, comprar material, pensar no material gráfico, atualizar as redes sociais, prospectar clientes (…)?

Esses e muitos outros detalhes atropelados pela empolgação do sonho do negócio próprio fez com que ele se transformasse em algo bem amargo. E a culpa foi minha. Não foi do cliente, nem da confecção, nem da crise. A sabedoria foi pegar esse limão e fazer uma limonada, aproveitando o conhecimento adquirido em meus trabalhos posteriores ainda que em outras áreas da Moda.

Ninguém está livre de “dar errado” (e não há vergonha nenhuma nisso). Mesmo com todos os cuidados, há fatores externos que podem colocar a perder um negócio estruturado; mas o planejamento, a cautela e a humildade diminuem consideravelmente as chances de fracasso. Com esse texto espero que, de alguma forma, meus limões contribuam com a sua receita. Ainda tenho muitos para espremer aqui.

(Imagem:  tsuacctnt via Visualhunt)