Moda, TV & Cinema

Figurinos de época (e séries) para se apaixonar

Séries de época são as  minhas favoritas. Mais que emocionantes enredos, The Tudors e Downton Abbey trazem figurinos riquíssimos que, além de encantar pela beleza, mostram que Moda faz parte da história e da estória: caminha com elas e ajuda a contá-las. Dos complexos trajes do século XVI que vestiram a dinastia Tudor, quando as transações comerciais levaram até a Europa tecidos brocados, sedas e novas técnicas de tingimento vindas do oriente, à chegada dos anos 20 e a necessidade de roupas mais leves e descomplicadas, especialmente para as mulheres, presentes no figurino de Downton Abbey, vale a pena se entreter e aprender moda com essas duas premiadas séries.

•  The Tudors

Inspirada na história da dinastia Tudor, o figurino de The Tudors rendeu dois Emmys para a figurinista irlandesa Joan Bergin. Embora não sejam historicamente corretas, as roupas utilizadas nas quatro temporadas de série atendem a expectativa de seu criador, Michael Hirst, que buscou, na construção de The Tudors, criar cenas que “parecessem contemporâneas embora as pessoas ainda estivessem usando trajes históricos” não necessariamente fiéis, como conta o site Boullan citando Hirst: “O pensamento por trás dos trajes era de apresentar (uma era) Tudor desconstruída onde as roupas não seriam puristas e estranhas para um público contemporâneo”.

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Mesmo com alguns detalhes da vestimenta original da época retirados, como o codpiece, para os homens, ou adaptados para versões menos detalhadas, o figurino mostra a riqueza de adornos tanto da indumentária feminina como masculina dos nobres da época. Além da sobreposições de tecidos nobres ricamente bordados e detalhes em ouro e pele, as jóias são elementos indispensáveis na corte de Henrique XVIII. O famoso colar de pérolas da rainha Ana Bolena, com a letra ”B” em ouro e três pérolas em formato de gota pendendo sobre o pingente, registrado em pinturas de época e incorporado ao figurino da série, é um dos exemplos mais marcantes.

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• Downton Abbey

Na construção do figurino de Downton Abbey, assinado por Susannah Buxton e Caroline McCal, peças originais de época e bolsas vintage restauradas misturam-se às roupas confeccionadas especialmente para as personagens. Ganhadora do Globo de Ouro, a série retrata a aristocracia britânica através da rotina da família Crawley e seus empregados em sua propriedade rural chamada Downton Abbey, do final de 1910 e início dos anos 20. A evolução do figurino, de roupas típicas da Bella Époque até os looks mais leves e com menos tecido da década de vinte, retratam as mudanças na estrutura social, e consequentemente na moda, durante o período que a série compreende.

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Rico e cuidadoso nos detalhes, o figurino incorpora a personalidade de cada personagem através de sutilezas que vão das cores ao tecido das peças. Além disso, é notável a diferença entre a vestimenta dos serviçais e dos membros da família Crawley, onde as mulheres ostentam belos acessórios de cabelo, como chapéus e tiaras repletas de pedras, e sapatos bordados, que ganham destaque na década de 20 quando o comprimento mais curto dos vestidos os deixa à mostra. As jóias, assim como em The Tudors, são um espetáculo à parte. O sucesso das peças foi tanto que a joalheria 1928 Jewelry Co. lançou, em 2013, uma coleção de bijuterias e acessórios licenciados inspirados no figurino da série.

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(Imagens: reprodução)

Arte, Moda, TV & Cinema

Crie para preencher, impactar e sobreviver

Nas duas últimas décadas trabalhando, descobri que, em geral, as coisas são feitas para preencher vazios“. A frase da cenógrafa Es Devlin que abre o terceiro episódio da série documental Abstract: The Art of Design vai ao encontro de um constante questionamento pessoal sobre o mundo e, claro, sobre a moda. Mais que isso, Es Devlin instiga o pensamento sobre como o que fazemos, além de preencher vazios, impacta o outro e sobre a efemeridade das coisas.

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Muitas das coisas, no sentido literal ou não, que fazemos são feitas para preencher vazios. E as melhores coisas que fazemos são feitas a partir de vazios. Ao falar sobre suas criações, Es Devlin diz que “precisamos começar sem luz para encontrá-la” e com essa frase traduz uma das minhas poucas certezas: só encarando uma ausência (de objetos, de luz) é possível entender o que falta para preenchê-la.  O vazio é a principal matéria-prima para uma criação genuína.

Embora em diferentes realidades e espaços, todos seres humanos possuem sentimentos universais que fazem com que algo provoque sensações comuns. Para Es Devlin, “é mais útil criar um objeto que tenha significado para todos“:  “Como nos sentimos em um túnel? Acho que são sensações completamente básicas, fundamentais, primárias, que todos nós temos em um túnel escuro e curvo. Acredito que todo mundo tenha uma resposta emocional a isso“.

Só o genuíno preenche com êxito o vazio, o nosso e o do outro, provocando “sensações completamente básicas, fundamentais, primárias” e levando aquilo que criamos para além do nosso espaço quando mais pessoas apropriam-se do objeto. Quando a coisa criada é uma roupa, o objetivo não deve ser diferente: servir aos vazios, despertar sensações, ser voz(es).

Objetos de vestir são capazes de suplementar vazios na autoestima, na coragem, na capacidade de comunicação; e por isso fazer moda, como criador ou como stylist de si mesmo todos os dias, com verdade é tão importante. Como? Apague a luz que ilumina conceito pré definidos para tatear, no escuro, o que desperta sensações além de efêmero. E para, mais que preencher vazios, manter-se vivo na memória de alguém.

Nada durará. Quando você começa a fazer já sabe que a criação desaparecerá. (…) No fim tudo existirá apenas na memória das pessoas” (Es Devlin).

(Imagem: reprodução)