Comportamento, Moda

“O que é slow fashion mesmo”?

Com origem na Europa, e inspirado no movimento slow food, o movimento slow fashion é uma alternativa ao que chamamos de fast fashion. A criação do termo é atribuída à consultora e professora de design sustentável do Centre for Sustainable Fashion Kate Fletcher, e diz respeito a uma forma de criar e consumir moda de maneira consciente. Assim como passamos a dar mais atenção à origem dos alimentos que consumimos, o impacto ambiental e social causado pela indústria da moda nos últimos anos pede uma leitura cautelosa também do “rótulo” do que vestimos

Apesar de estar intimamente ligado aos fatores ambientais, o movimento slow fashion diz respeito a todo o ciclo e pode ser praticado de diferentes formas por quem produz e/ou consome. Da escolha de materiais produzidos com menor impacto ambiental (ou reaproveitados) passando pelo respeito às leis trabalhistas e valorização da mão de obra até o reconhecimento do design autoral, da moda com personalidade e de itens que sobrevivem aos modismos passageiros (e que não por isso ignoram as tendências), adotar o slow fashion é, acima de tudo, uma questão de comportamento.

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Gola de tricô Ivy Lemes Slow Fashion

Produzir em pequena quantidade, acompanhar o processo do início ao fim, desenvolver peças únicas e transmitir mensagens genuínas que envolvem cultura, referências e habilidades de quem faz são algumas ações que diferenciam produtos slow fashion das cópias em massa que encontramos em grandes redes. A escolha cautelosa de materiais de qualidade superior e o cuidado com os detalhes visa entregar produtos feitos para durar,  assim como a criação de peças originais busca gerar real identificação com quem veste (na estética e na mensagem): produtos bons e que “falam sobre você” não perdem espaço com a mudança de estação.

Depois que lancei minha marca, dentro do conceito slow fashion, muitas perguntas sobre o assunto chegaram até mim; e é por isso que resolvi falar de maneira geral sobre esse conceito sem ignorar os “contras” apontados. Uma marca de slow fashion dificilmente proporcionará a variedade de cores e modelos encontradas nas araras das lojas de departamentos. E nem produzirá uma coleção em três, quatro ou sete dias para “todos os gostos”. E esse não é o objetivo. Aqui a identidade vem antes das tendências, podendo estar ou não de mãos dadas com elas. Slow fashion envolve, novamente, comportamento e questionamento: precisamos mesmo de todos esses modelos “para ontem”? Precisamos vestir a roupa da moça da novela?

Independente de onde e como cada um deseja consumir, o recado do movimento slow fashion é diminuir a velocidade para refletir sobre essas escolhas. Para criadores de Moda que estão mais preocupados em criar cartilhas de “certo e errado” para incluir ou excluir marcas da proposta levando em conta características que não impactam em seu propósito, e para consumidores que estão buscando novas formas de relacionar-se com a moda, deixo o recado: não existe apenas uma maneira de fazer e praticar slow fashion. Entender os princípios e usá-los sem moderação (e de verdade) é o que importa.

(Foto: Ivy Lemes)

Comportamento, Moda

Quem te influencia?

Desde que a moda é moda, alguém influencia e outro alguém é influenciado. Na Idade Média, os modelos desfilados pela nobreza passaram a ser copiados pela burguesia, uma classe social emergente que começava a ter acesso a bens de consumo antes inacessíveis e inspirar-se nas referências culturais dos nobres.

Nos anos 20, o cinema tornou-se um grande influenciador de comportamento e, consequentemente, de moda. Por isso, os Estados Unidos, um grande centro produtor de filmes, tornou-se referência de moda através de suas principais atrizes. A androgenia adotada nos anos anteriores começou a perder espaço para os visuais femininos de mulheres como Greta Garbo e Marlene Dietrich, e “toques sedosos, brilhos e silhueta marcada foram a ordem da década”*. Depois das atrizes, foi a vez dos estilistas influenciarem o modo de vestir quando, nos anos 50, nomes como Christian Dior e Hubert de Givenchy ditavam estilos através de suas criações.

Além de classes sociais, uma personalidade ou um criador de moda, fatos históricos também converteram-se em referência para a moda. Nos anos 60, a conquista espacial inspirou o uso de materiais inusitados na construção de roupas e acessórios com estética futurista. Ao mesmo tempo, esse espírito de mudança e liberdade colocou a juventude como foco e inspiração nas décadas seguintes, trazendo para a moda itens como a calça jeans e peças customizadas com detalhes artesanais e interferências, utilizadas pelos movimentos hippie e punk, por exemplo, para comunicar suas ideias.

Independentemente de quem e como a influência virou roupa, a história da moda mostra que o contexto social e o comportamento são traduzidos no que uma geração veste; e que as referências para a construção de um estilo podem estar em variadas fontes. Em 2017, quem te influencia? E, mais importante, por que te influencia? O que seu influencer comunica, e por que você inspira-se nele?

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Não são poucas as conversas sobre estilo, seja informalmente ou quando presto consultoria, em que blogueiras e digital influencers aparecem no topo da lista de inspirações. Que essas “web celebridades” representam, de alguma forma, nossa época, é inegável; porém, de modo geral, suas redes sociais são vitrines 99% patrocinadas e, por ganharem com isso, elas tornaram-se “manequins” que trocam completamente de estilo, forma e referências todos os dias sem a preocupação de trazer consigo mensagens sólidas. O resultado são muitos seguidores vestindo o que não lhes cabe (e aqui não falo apenas sobre formas, mas também estilo de vida), sem questionar o motivo pelo qual escolheu essa roupa e, principalmente, essa influência.

A indústria da moda pede socorro. E os principais agentes dessa transformação são os consumidores. “Para o bem de todos e felicidade geral da nação”, mudar os hábitos de consumo é necessário; e isso só acontece quando ativamos nosso senso crítico e passamos a questionar o que, como e por que compramos. O que quero dizer com isso tudo é que tentar acompanhar looks que mudam todo o dia da cabeça aos pés impulsiona o consumo desenfreado, alimenta um sistema nada ético e não contribui para um estilo coerente com o que somos e vivemos.

Olhe para si e para quem te influencia. Analise se isso tudo faz sentido no seu dia a dia. Um painel de visuais patrocinados não é, e nunca será, uma boa referência de estilo. Busque influências, do passado ou do presente, que tragam uma imagem consistente e que digam, através de suas roupas, discursos e estilo de vida, algo com o que se identifica. Acompanhe verdadeiros ícones, mulheres que marcaram suas décadas, como Jackie O. e Twiggy Lawson, e personalidades que são fiéis ao seu estilo e repetem (muita) roupa, como Taylor Swift, que traz referências retrô em visuais coloridos e com seu toque pessoal, ou Consuelo Blocker, uma ótima representante da moda de agora, sempre atualizada e sem afetações.  Descubra, na arte e na arquitetura que aprecia, o tipo de estampa que lhe atrai, as formas que lhe dizem algo.

Talvez o excesso de informação tenha confundido moda e consumo, transformando, erroneamente, post patrocinado em referência de estilo. O resultado é um monte de sacolas que não conversam nem entre si nem com quem veste. Em semana de Fashion Revoluiton, repense: quem, e por que, te influencia?

(Imagem: Visual Hunt)

+ | Recentemente o programa Esquadrão da Moda mostrou uma participante consumidora de blogs de moda, e como a falta de filtro e cuidado ao absorver o que vemos pode resultar em visuais equivocados. O programa está disponível na íntegra no YouTube do Esquadrão da Moda.

*Dica de leitura: o livro História da Moda: uma narrativa, de João Braga.

Comportamento, Moda, Negócios

Consumo consciente? Fast fashion se destaca em momento de crise

Essa semana o site O Negócio Do Varejo publicou uma matéria sobre o comportamento de consumo no período de recessão. Os dados compartilhados pelo O Negócio do Varejo mostram o que o consumidor de produtos do vestuário está buscando, e como esses anseios refletem na escolha do canal de compra. O aumento da relevância das lojas de departamento, na contramão dos movimentos de slow fashion, é justificada por essas preferências.

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Com relação ao design dos produtos o consumidor mostra-se atraído por peças “jovens, despojadas e diferentes”: “Em 2014, 36% dos consumidores informaram que, na última compra, haviam adquirido peças básicas, 17%, jovens, 13%, despojadas e 10%, diferentes. Neste ano, o percentual que se refere a roupas básicas caiu para 30%, subindo os de roupas jovens (27%), despojadas (18%) e diferentes (15%)”. Inovação e diferenciação são apontadas como características que atraem o consumidor, o que os levaria a optar pelas redes de fast fashion e suas araras sempre repletas de novidades.

Em uma análise pessoal, quando fala-se em inovação e diferenciação como pontos importantes na escolha de um item de vestuário, entendo que as lojas de departamento representam o oposto. Além de comercializar produtos com design pouco diferenciado, tanto no ponto de vista estético como em relação às coleções anteriores e às outras redes, os produtos em larga escala não atendem à necessidade de diferenciação. Porém, é importante interpretar esse dado como uma menor preocupação com a qualidade dos produtos: com o fator “novidade” como prioridade no processo de decisão de compra, é justificável o crescimento do fast fashion onde por um preço mais baixo é possível adquirir uma peça com durabilidade suficiente, não necessariamente longa, para ser substituída em breve por um novo modelo.

A conveniência é outro fator que faz com que as lojas de departamento saiam na frente. Segundo Edmundo Lima, diretor executivo da ABVTEX (Associação Brasileira do Varejo Têxtil), na matéria citada, “o fato de as redes terem produtos para toda a família e para a casa é conveniente para os clientes”. Atreladas à conveniência, a informação e a experiência aparecem como itens observados pelo consumidor. Ações em redes sociais com sugestões de looks, por exemplo, e o “encantamento do espaço da loja” estão cada vez mais relevantes. Nesse aspecto, o alto investimento das redes de departamento aumenta sua vantagem competitiva com relação aos pequenos negócios.

Para fazer frente à isso, a dica do consultor de varejo Michel Cutait, é “melhorar o atendimento, o relacionamento com os clientes e criar ambientes capazes de atrair o cliente e concretizar a venda”. Além disso, acrescento a importância do cuidado com os detalhes, como limpeza e manutenção da estrutura do ponto de venda, e da busca por informação de Moda para reinventar o visual do ponto de venda todos os dias através de novos formatos de exposição e de um styling atraente.

(Imagem: Visualhunt)

+ | Texto de minha autoria originalmente publicado no blog da Cena. Entre em contato para informações sobre produção de moda, styling e consultoria de visual merchandising para empresas de Moda.

Comportamento, Livros, Moda

A vanguarda do ficar, de Paulo Leminski, para repensar a Moda

Dias atrás li um ensaio do Paulo Leminski chamado A vanguarda do ficar. Bem alinhado com uma nova forma de pensar a moda, o texto fala sobre contrariar o que o autor chama de “mudançolatria”.

Quando Leminski afirma, brilhantemente, que “as modas, com sua velocidade paranoica, estão aí para nos consolar da impossibilidade da uma mudança realmente radical das coisas” ele explica a raiz do consumo excessivo: uma válvula de escape para outras frustrações. E quando o autor coloca a arte como sendo um espaço de equilíbrio, onde “vencem sempre os artistas que não mudam“, é possível traçar um paralelo com a forma como entendo a moda: uma maneira de expressão particular através das roupas, que, parte da nossa identidade, não precisam ser substituídas a cada estação.

O que isso quer dizer é que quando somos artistas que “prosseguem fiéis a um projeto original“, ou seja, ao nosso estilo pessoal bem entendido e bem resolvido, deixamos de lado a “mudançolatria”. Só assim é possível mudar o modo como nos relacionamos com a moda e, consequentemente, a forma como consumimos. Não é sobre abandonar a moda, mas sobre saber utilizá-la apenas como acessório para um “mergulho para dentro do maravilhosamente imutável achado perpétuo, aquela coisa, enfim, que justifica uma vida“.

Deixo-os com o ensaio de Leminski e com a certeza de que esse tema ainda vai render muito assunto por aqui.

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A vanguarda do ficar (Paulo Leminski)

“Esse mundinho explosivo em que vivemos parece favorecer uma certa “mudançolatria”, um culto fervoroso a tudo que seja novo, ou, pelo menos, pareça novo.

Nem vamos insistir no uso abusivo que a publicidade faz da palavra “novo” para qualificar positivamente um produto ou um processo que se quer vender ao respeitável público. Sabemos que, na maior parte dos casos, é um “novo” só de fachada, de aparência, uma apropriação indébita do conceito de “novidade”, já que nosso mundo parece produzir cada vez mais o mesmo tipo de coisas, para obter o mesmo tipo de resultados, da Washington a Moscou, de São Paulo a Pequim, de Havana a Pretória.

O ritmo supremo, a missa dessa Mudançolatria, é esse gesto coletivo chamado “moda”, consagração do efêmero, consagração do passageiro, vitória do tempo sobre o ser. O verde-musgo, campeão da última “saison”, é um cacófato imperdoável na “saison” seguinte, quando o amarelo-ouro e o roxo-crepúsculo reinam soberanos. Os abrigos esportivos, chiquérrimos há um ano, agora são quase uma grosseria, coisa de repertórios decididamente atrasados. A montanha russa entre as coisas “in” e as coisas “out” não pode parar.

Tudo isso está intimamente ligado a um dos mitos mais caros da nossa civilização, o mito do “progresso”, balela inventada por essa classe social que sempre confundiu avanço da humanidade com a prosperidade dos (seus) negócios.

Claro que essa “mudançolatria” só tem vigência no microuniverso dos detalhes, uma vez que os quadros gerais prosseguem sempre os mesmos. É como se a moda, a onda, como se diz, fosse as migalhas da mudança, que realmente mudaria tudo, a vida, as pessoas e as relações entre as pessoas. Em alguns terrenos, as mudanças teriam consequências tão graves que o mais sábio é deixar tudo como está. Inovações tecnológicas, por exemplo, são catastróficas.

Não é segredo para ninguém que a gasolina já poderia ter sido substituída por alguma outra fonte de energia para mover máquinas e motores, caminhões e automóveis. Mas as consequências econômicas e sociais dessa substituição em desemprego, desativamento de parques industriais imensos, decadência de regiões agora prósperas, revoluções de hábitos, nenhuma sociedade tem recursos para fazer frente a uma mudança desse porte. As modas, com sua velocidade paranoica, estão aí para nos consolar da impossibilidade da uma mudança realmente radical das coisas.

Mas existe um território onde a avidez pelo novo pode se exercer sem convulsões sociais extremas. É a chamada “arte”, território, aliás, que nem os mais hábeis cartógrafos culturais conseguiram delimitar em fronteiras reconhecíveis. Na arte, os conceitos de velho e de novo ganham a arena perfeita para os jogos de gladiadores que a Mudançolatria exige. A luta entre os estilos, a guerra entre as tendências, os conflitos entre as escolas, a arte, toda a arte, é uma das artes marciais. Mas não nos iludamos com tanta belicosidade.

É na arte que se restabelece o equilíbrio. Num mundo de tantas mudanças, na arte, por exemplo, vencem sempre os artistas que não mudam. Que prosseguem fiéis a um projeto original. Sonâmbulos de uma miragem primordial. Cegos e surdos a todos os apelos, como Ulisses, de ouvidos tapados, passando diante da ilha das Sereias. É nas horas em que eu penso essas coisas que me lembro de João Cabral de Mello Neto, um poeta que nunca mudou. Cabral descobriu o Brasil, João Cabral descobriu o cristal. E cristais João Cabral vem concretando há mais de trinta anos. Igual. Idêntico. Impecavelmente idêntico a si mesmo.

O próximo nome que me ocorre é, claro, o outro João, o Gilberto, igualmente igual a si mesmo, ao longo de décadas, perseguindo sempre o mesmo som, o mesmo som dentro do som, o mesmo som dentro do mesmo som. Cansei de ouvir, “João não muda”. Que bom! Não muda, João!

Outro é Jobim. Tem uma coisa no Maestro Antônio Carlos que é uma demanda do santo graal, um mergulho para dentro do maravilhosamente imutável achado perpétuo, aquela coisa, enfim, que justifica uma vida. Tiro Jobim, e coloco os Stones. “Os Rolling Stones é sempre a mesma coisa”, vivo ouvindo o pessoal reclamar. Bobagem. Que importa que sejam sempre a mesma coisa, se são inimitáveis, como Jorge Ben e Dalton Trevisan, dois outros imutáveis?

Enfim, este abraço vai para todos vocês que não mudam, que teimam numa nota só, que batem sempre na mesma tecla, que usam sempre a mesma palavra, que pensam sempre a mesma coisa. Ninguém consegue aprimorar a forma do ovo. Ninguém consegue melhorar o gosto da água”.

(Imagem: Visualhunt)

Comportamento, Moda, Negócios

Fast fashion, o plástico e a bolha

Mês passado compartilhei por aqui uma matéria (e três videos) sobre a poluição ambiental causada pelas indústrias de Moda na China. A China está em estado de alerta, e pretende frear a produção têxtil irresponsável. Enquanto isso, marcas internacionais procuram “outros países com farta mão de obra barata e custos baixos como Bangladesh, Índia, Marrocos, Vietnã, Turquia e agora África para fabricar seus produtos”.

O Brasil, apesar de discretamente, já produz para empresas multinacionais de fast fashion. Como são tratados esses resíduos em nosso “solo fértil” eu não sei (apesar de poder imaginar), mas fui testemunha ocular da quantidade de plástico que é descartada diariamente por uma grande rede em Curitiba e São Paulo.

Para garantir a chegada de seus brincos por R$ 5,90 intactos ao nosso país, a empresa o coloca dentro de um pequeno saco plástico. Cinco pequenos sacos plástico, cada um com um par de brinco, são colocados dentro de um outro saco plástico maior. Cinco sacos plásticos maiores são colocados dentro de mais um saco plástico, agora médio; e depois cinco sacos plásticos médios são armazenados em mais uma embalagem plástica grande e assim sucessivamente. É uma matrioska de sacos plásticos!

Usei o exemplo dos brincos, mas é dessa forma que são embalados grande parte dos produtos que abastecem as lojas da rede. Plástico, outro plástico, e mais um plástico dentro de outro plástico. São retirados, diariamente, sacos e mais sacos plásticos de cerca de 1 metro de altura contendo… outros sacos plásticos! E, sim. Eu disse diariamente. É claro que os produtos precisam de uma embalagem, mas é realmente necessário tanto plástico? Já vi aparecer, inclusive, dois sacos plásticos embalando apenas uma peça.

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Mas “nessa de conversar” sobre fast fashion e contar a história do plástico, percebi que há um problema maior que o plástico: a bolha. Muitos consumidores se agarram a qualquer argumento (furado) para justificar as práticas abusivas dessas indústrias. E isso vai de dizer que comprar no fast fashion é a única opção para elas, ao absurdo de achar que tais empresas fazem o bem (!!!) para uma população onde ganhar $1 trabalhando em condições deploráveis e com uma carga horária desumana é melhor que não ganhar nada (o quão desumano é esse pensamento?).

Resumindo: não adianta resolver o problema do plástico (que aqui representa o impacto ambiental), enquanto as pessoas permanecerem na “bolha”. O meio mais eficaz de, ao menos começar a, mudar o cenário é através de quem consome fast fashion.

Lendo sobre marketing de Moda no livro Vítimas da Moda?, de Guillaume Erner (livro esse que foi uma das bases do meu TCC, e que recomendo hoje e sempre), sublinhei um texto com o qual encerro esse post. Apesar de não tratar diretamente sobre o tema, ele reforça o poder do consumidor em toda essa engrenagem. Eu e você, “autores anônimos”, só precisamos querer.

“O mundo da moda se destaca pela atenção que dá às distinções. Desde o lugar ocupado em um desfile até a preocupação de algumas maisons com a clientela aristocrática, esse universo prolonga de forma artificial o mundo das castas. (…) Seu erro é acreditar que o domínio do esnobismo se aplica à sociedade inteira. (…) Para sua maior infelicidade, as marcas não têm o poder de impor um estilo de vida aos consumidores; ao contrário, elas vivem sob a constante ameaça que representam para elas as decisões desses atores anônimos“.

(Imagem: Ejorpin via Visualhunt)

Comportamento, Moda

Recicle, customize, recombine, reutilize!

Na última semana de Alta Costura, em Paris, a Viktor & Rolf apresentou uma coleção construída a partir de peças de temporadas anteriores e retalhos de tecidos de acervo. O outono/inverno 2017 da grife chama a atenção pela riqueza das texturas criadas com tecidos entrelaçados, babados e botões; visuais que estimulam a criatividade tanto para bordar uma calça jeans quanto para utilizar volumosas camadas coloridas em um vestido de festa.

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Em um momento onde a indústria descarta toneladas de material têxtil todos os dias, reciclar é preciso. Segundo matéria sobre reúso dessa matéria-prima publicada na Folha de São Paulo (leia aqui), só na região do Bom Retiro, em São Paulo, duas toneladas de tecido são jogadas fora por dia; por isso, além da responsabilidade das empresas desse setor, cabe a cada um de nós fazer a nossa parte.

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Desmontar e costurar peças descartadas ou produzir novas a partir de retalhos são apenas algumas das formas de aderir à “reciclagem” quando o assunto é moda. Pequenas interferências como cortar / desfazer a barra, deixando-a desfiada ou alterando o comprimento, trocar botões ou adicionar patches atualizam peças antigas. Ideias de customização fáceis, que não exigem habilidades ou equipamentos específicos, não faltam em sites que reúnem galerias de inspiração, como o Pinterest, e nas próprias publicações especializadas e blogs. Os jeans bordados da passarela da Viktor & Rolf são um ótimo exemplo.

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Quem não é fã de trabalhos manuais pode reciclar itens da estação passada através do styling, recombinando e experimentando novas formas de uso para suas roupas. Uma cartela de cores diferente, sobreposições, usar um vestido de botões aberto sobre uma calça ou uma camisa longa com cinto como vestido e por aí vai. Pesquisar e selecionar referências ajuda muito nessa missão (comentei sobre explorar peças que temos dificuldade de usar no terceiro post da série Aprimorando o estilo).

Outra maneira de tornar novamente usáveis peças que seriam descartadas, suas e de outras pessoas, é vendendo ou trocando-as em brechós. Diversas lojas de roupas usadas trabalham com trocas e vale compras, geralmente revertidos em valor maior que o pago em dinheiro. Se a intenção da sua venda é renovar o guarda-roupa, a negociação pode valer a pena.

(Fotos: Aaron van Dorn via Visualhunt e reprodução)

Comportamento, Moda

A importância das peças-chave

No primeiro texto sobre consumo consciente, citei o equilíbrio entre roupas com qualidade superior (e mais caras) e itens de moda com preço de fast fashion como mudança de hábito para começar a comprar menos. Para montar um guarda-roupa versátil, adicione ao primeiro “grupo”, além dos clássicos e básicos, itens chave para o seu estilo.

Essas peças, não necessariamente básicas, são roupas que podem sintetizar visualmente sua identidade. Uma jaqueta de couro com tachas, por exemplo, apesar de marcante, é coringa para quem tem um estilo com muitas referências rock. Avaliando a quantidade de visuais que podem ser criados com ela, nota-se que, assim como os neutros, tais peças valem um investimento maior.

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“Mas quais são as peças-chave do meu estilo”?

Autoconhecimento é fundamental para consumir moda de maneira mais assertiva e inteligente. Em uma série de posts sobre aprimoramento do estilo pessoal, compartilhei um passo a passo para criar e analisar seu painel de referências fashion (aqui e aqui). Desse exercício é possível retirar informações valiosas sobre styling para revisitar o que já tem no closet, e identificar suas peças-chave. De forma prática (e generalizada), elas são aquelas que se repetem em diversas inspirações selecionadas, ou complementam boa parte delas.

Não acredite em listas prontas de “peças que toda mulher deve ter”. Cada mulher é única em seu estilo de vida e de vestir, e nem todas precisam de camisa branca e scarpin preto.

(Imagem: reprodução)

Comportamento, Moda

Primeiras palavras sobre consumo consciente

O consumo de moda consciente é um tema bastante amplo e as discussões a respeito apresentam cada vez mais desdobramentos. Com tantas questões e polêmicas, tentar responder à pergunta “Como consumir moda de forma consciente”?, levando em conta estilo de vida e realidade financeira, foi meu ponto de partida para repensar e exercitar uma nova forma de consumir.

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Pensar em custo X benefício e priorizar qualidade sobre quantidade é o primeiro passo. Para alguns parece impossível trocar três calças de R$ 79,90 por uma peça que custe o triplo do valor de cada uma delas, ainda que essa última tenha uma vida útil cinco, seis ou dez vezes maior; mas basta analisar o destino das suas compras nos últimos anos para constatar que, quando o assunto é roupa, o barato costuma sair caro.

Além do custo com matéria prima de qualidade (ou materiais ecologicamente corretos, reaproveitados entre outros) ser inquestionavelmente maior, o processo de produção responsável e o respeito às leis trabalhistas é muitas vezes proporcional aos valores na etiqueta (embora os alvos de denúncias por condições degradantes de trabalho não sejam exclusivamente as lojas de departamentos). E essa consciência pode ser enumerada como um importante tópico para reflexão rumo a uma prática de consumo ética.

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Eu sei. É difícil abdicar dos “precinhos” do fast fashion quando se quer consumir moda (e não apenas roupa). Nem todo mundo, ou melhor, a minoria do mundo pode se dar ao luxo de comprar um item da temporada pagando mais do que o oferecido pelas grandes redes. Por isso, comece exercitando o equilíbrio: invista em peças clássicas com qualidade superior e etiquetas “responsáveis” como base do seu closet, e reduza as sacolas do fast fashion a uma ou outra tendência para atualizar o visual.

Sem ignorar a moda, eliminar exageros na hora das compras muda sua relação com esse universo e faz bem ao seu estilo (uma imagem pessoal bem resolvida não precisa ser 100% alterada a cada mês), ao seu bolso e ao mundo. Informe-se sobre o que compra e não feche os olhos!

É importante deixar claro que falar sobre qualidade e preço, sobre reduzir a quantidade de sacolas e buscar alternativas à marcas que não agem com transparência é apenas a “ponta do iceberg“. Fazer a sua parte contra o consumo excessivo e os problemas ambientais e sociais que ele gera é muito mais importante do que imagina. Eu ainda tenho muito a descobrir (e compartilhar) sobre isso.

Dica! Que tal saber mais sobre as marcas que consome através do Moda Livre? O aplicativo avalia o posicionamento de empresas de moda com relação ao trabalho escravo através de quatro indicadores (políticas, monitoramento, transparência e histórico), e a partir disso as “sinaliza” com verde, amarelo ou vermelho. C&A e Malwee são algumas das empresas bem avaliadas pela plataforma.

(Imagens: reprodução)