Comportamento, Moda

Etiqueta vermelha

Não é de hoje que as lojas iniciam suas liquidações de inverno quando a estação mal começou. Mas confesso que esse ano levei um susto quando comecei a receber anúncios de saldos e lançamento de coleção resort enquanto ainda espero o primeiro “frio de verdade” do ano. Sabe aquela antiga chamada de preços baixos que diz “deu a louca no gerente”? Nunca fez tanto sentido. Minha proposta é deixá-lo “fazer o louco” sozinho por diferentes motivos.

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O primeiro deles é que não precisamos acelerar mais ainda as coisas. Do antigo calendário onde as marcas apresentavam quatro coleções por ano (embora não julgue viável voltar a ele) passamos a inserir coleções intermediárias e linhas entre as intermediárias até chegar ao ponto de tirar de cena a coleção de inverno na chegada da estação: as lojas já estão “botando fora” aquela bota que você nunca usou! Mais que estimular o consumo frenético quando o mundo pede (implora!) consciência e responsabilidade com compra e descarte, as liquidações precoces afetam profundamente pequenas, e até médias, empresas e marcas que não podem competir em preço e ritmo.

Olhando por um viés “egoísta”, será que há vantagem real em comprar aquela peça de R$ 300 por R$ 100, ou você só está pagando o que ela realmente vale (ou mais)? E pensando em moda ética, será mesmo que algumas dessas empresas resolveram praticamente doar seus produtos recém lançados, abatendo 70% de seu valor, em um sopro de bondade? Ou há algo muito errado na precificação cheia? Etiquetas que oferecem 60, 70% de desconto em produtos novos abrem espaço para uma importante reflexão: o quanto de lucro abusivo e práticas duvidosas podem conter aí?

(Imagem: Simon Greig Photo via Visual Hunt)

Comportamento, Moda

“O que é slow fashion mesmo”?

Com origem na Europa, e inspirado no movimento slow food, o movimento slow fashion é uma alternativa ao que chamamos de fast fashion. A criação do termo é atribuída à consultora e professora de design sustentável do Centre for Sustainable Fashion Kate Fletcher, e diz respeito a uma forma de criar e consumir moda de maneira consciente. Assim como passamos a dar mais atenção à origem dos alimentos que consumimos, o impacto ambiental e social causado pela indústria da moda nos últimos anos pede uma leitura cautelosa também do “rótulo” do que vestimos

Apesar de estar intimamente ligado aos fatores ambientais, o movimento slow fashion diz respeito a todo o ciclo e pode ser praticado de diferentes formas por quem produz e/ou consome. Da escolha de materiais produzidos com menor impacto ambiental (ou reaproveitados) passando pelo respeito às leis trabalhistas e valorização da mão de obra até o reconhecimento do design autoral, da moda com personalidade e de itens que sobrevivem aos modismos passageiros (e que não por isso ignoram as tendências), adotar o slow fashion é, acima de tudo, uma questão de comportamento.

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Gola de tricô Ivy Lemes Slow Fashion

Produzir em pequena quantidade, acompanhar o processo do início ao fim, desenvolver peças únicas e transmitir mensagens genuínas que envolvem cultura, referências e habilidades de quem faz são algumas ações que diferenciam produtos slow fashion das cópias em massa que encontramos em grandes redes. A escolha cautelosa de materiais de qualidade superior e o cuidado com os detalhes visa entregar produtos feitos para durar,  assim como a criação de peças originais busca gerar real identificação com quem veste (na estética e na mensagem): produtos bons e que “falam sobre você” não perdem espaço com a mudança de estação.

Depois que lancei minha marca, dentro do conceito slow fashion, muitas perguntas sobre o assunto chegaram até mim; e é por isso que resolvi falar de maneira geral sobre esse conceito sem ignorar os “contras” apontados. Uma marca de slow fashion dificilmente proporcionará a variedade de cores e modelos encontradas nas araras das lojas de departamentos. E nem produzirá uma coleção em três, quatro ou sete dias para “todos os gostos”. E esse não é o objetivo. Aqui a identidade vem antes das tendências, podendo estar ou não de mãos dadas com elas. Slow fashion envolve, novamente, comportamento e questionamento: precisamos mesmo de todos esses modelos “para ontem”? Precisamos vestir a roupa da moça da novela?

Independente de onde e como cada um deseja consumir, o recado do movimento slow fashion é diminuir a velocidade para refletir sobre essas escolhas. Para criadores de Moda que estão mais preocupados em criar cartilhas de “certo e errado” para incluir ou excluir marcas da proposta levando em conta características que não impactam em seu propósito, e para consumidores que estão buscando novas formas de relacionar-se com a moda, deixo o recado: não existe apenas uma maneira de fazer e praticar slow fashion. Entender os princípios e usá-los sem moderação (e de verdade) é o que importa.

(Foto: Ivy Lemes)

Moda

Moda atemporal (e com propósito) para elas e eles

Em um passeio pelo bairro de Pinheiros fui ver de perto duas marcas que acompanho via Instagram: a Yes I Am Jeans e a Insecta Shoes, que dividem espaço em uma loja inspiradora na Rua Artur de Azevedo. Na mesma rua, tive o prazer de conhecer uma marca masculina que segue o mesmo propósito das outras duas: moda com qualidade, feita para durar muito. E é sobre essas três marcas que falo hoje.

Com produção nacional e a melhor matéria-prima disponível no mercado, a Yes I Am Jeans trabalha com interpretações da clássica calça jeans de cintura alta. A cartela de cores neutras diminui a necessidade de produtos químicos no processo de lavanderia, reduzindo o impacto ambiental e incentivando o consumo consciente através de peças versáteis e que podem ser facilmente recombinadas: “Nossas peças resgatam um estilo de vida básico, simples, com foco no conforto e utilidade“. Além das calças, a loja online da marca conta com modelos de camiseta e vestido básicos.

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Loja Yes I Am Jeans + Insecta Shoes

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Com a mesma proposta, a Oriba é uma marca de roupas e acessórios masculinos criada por três amigos que, consumidores de moda básica, uniram-se no desafio de oferecer bons produtos essenciais: “Nos demos conta que nós três, e muitos outros amigos, consumíamos produtos básicos, sem excessos ou frescuras, só que nenhum comprado em nosso próprio país. Ora porque era caro, ora porque era de baixa qualidade“. Mais que oferecer qualidade e preço justo, a Oriba preocupa-se em acompanhar todas as etapas da produção e descarte de resíduos além de possuir um propósito maior: investir na educação infantil (leia mais sobre o Projeto Base no site da Oriba).

Para combinar com os básicos e essenciais, os calçados ecológicos e veganos da Insecta Shoes podem ser encontrados na prateleira ao lado das araras da Yes I Am Jeans. Produzidos a partir de peças de roupas usadas, além de garrafas de plástico recicladas, as botas, oxfords, sandálias e slippers da Insecta Shoes são unissex e livres de matéria-prima de origem animal. Com o reaproveitamento como palavra de ordem, a marca tem como um dos propósitos “aumentar a vida útil do que já existe pelo mundo”. Até mesmo a sola dos calçados é feita com borracha triturada do excedente da indústria calçadista. O resultado são peças únicas e que sobrevivem aos modismos.

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Loja Yes I Am Jeans + Insecta Shoes

(Fotos: Ivy Lemes)

Comportamento, Moda

Motivos egoístas para comprar em brechó

Um entre muitos textos que li nos últimos tempos sobre consumo consciente de moda dizia que nenhuma roupa é mais sustentável (e responsável) do que a que já existe. O trecho do texto incentivava o consumo de moda em brechós, com a mensagem de que, mais que produzir peças com pouco impacto, é preciso olhar para os produtos que já temos e ainda estão em condições de uso.

Embora os brechós tenham ganhado espaço em publicações e sites de moda, e endereços descolados e até luxuosos, bem diferentes daquele esteriótipo de loja amontoada de peças velhas, o preconceito contra roupas usadas ainda existe. A extensa lista de motivos para garimpar em vintage shops inclui questões ambientais e éticas, como a economia de água e energia, o reaproveitamento e a construção de um guarda-roupa com peças de qualidade, reduzindo a necessidade de comprar novos itens em um curto espaço de tempo.

Porém, a (triste) realidade é que muita gente não está preocupada com isso. Pensando nisso, trago três motivos egoístas para considerar uma visita ao brechó: comprar roupas de segunda mão podem nos trazer vários benefícios pessoais. (Keep calm, é uma ironia).

• Nomes e marcas famosas por menos

Mais que desfilar uma logo, muitas grifes são cobiçadas pela qualidade de seus produtos. Essa característica faz com que peças premium atravessem gerações sem envelhecer, na estética e no material. Um suéter de cashmere, um vestido de seda pura e uma bolsa com um couro de qualidade, por exemplo, dificilmente parecerão velhos. Os brechós que trabalham com marcas selecionadas são uma excelente oportunidade de adquirir itens de moda com bons materiais por preços amigos. Lembre-se que os bons produtos não envelhecem, e ninguém vai saber se saiu da loja ou do brechó.

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Placa informativa no provador e arara em frente à fachada do brechó Acervo de Coisinhas, em São Paulo

• Exclusividade e itens vintage

Mesmo quando o produto não foi produzido como peça única, é muito difícil encontrar alguém com o mesmo item que garimpou em um brechó. Isso sem falar em brechós especializados em peças vintage, onde é possível encontrar complementos e acessórios que deixarão o visual sofisticado e cheio de personalidade. Poucas coisas são mais chiques que uma peça de época ao lado de uma produção básica, como jeans e camiseta, ou de um vestido longo com poucos detalhes. Além disso, o contraste de estilos está em alta; e um jeans original dos anos 80 pode ser bem mais cool que a releitura da peça.

• Moda do momento sem comprometer o orçamento

Nem só de roupas antigas são feitos os brechós. Muitos endereços são destinados a peças atuais, onde é possível encontrar roupas da moda usadas pouquíssimas vezes (ou novas) pela metade do preço ou menos. Sabe aquela vontade de usar um modismo? Procure no brechó! Deixe para gastar mais em itens duráveis, e selecione entre peças de segunda mão aquilo que logo será repassado. Alguns brechós trabalham com trocas, ou oferecem vale compras pelas peças que não usa mais, o que permite que renove alguns itens do seu closet e cada estação sem precisar gastar muito para isso.

• Mais: Dificuldades, o que eu compro e brechó contemporâneo x vintage

Confesso que já consumi mais em brechós do que agora. A mudança de estilo e a busca por peças preferencialmente lisas dificulta um pouco minhas compras em brechós. Outra dificuldade que sinto é com relação ao tamanho: não é fácil encontrar peças pequenas. Obviamente existem roupas que valem o ajuste, mas é preciso avaliar se a reforma é possível (nem todos os tecidos e modelagens se comportam bem quando ajustados) e financeiramente viável. Por essas questões, costumo ficar mais atenta aos vestidos que podem sem “adaptados” com um cinto e aos acessórios, quando o brechó trabalha com peças vintage (as bolsas pequenas de tecido ou bordadas e os cintos de couro são meus favoritos).

Falando nisso, uma visita ao brechó é melhor aproveitada quando escolhemos o endereço certo de acordo com nosso objetivo. Lojas que trabalham com roupas contemporâneas são bons lugares para encontrar itens de moda, mas exigem um olhar atento com relação ao custo x benefício das peças: não foram poucas as vezes que vi camisetas de malha de fast fashion em brechós por preços abusivos considerando que esses produtos não fazem parte da lista de “peças para durar” (tanto no quesito design quanto no quesito qualidade).

Qualidade não costuma ser um problema quando o assunto são itens vintage. Nessa categoria, duas coisas importantes na hora de escolher as peças são: experimentar e avaliar a adequação ao seu estilo pessoal. Experimentar é fundamental pois o tamanho e a modelagem das peças mudou consideravelmente com o passar do tempo, e avaliar como ela se comportará ao lado do que já temos no armário é importante para não fazer uma compra por impulso sem avaliar a pertinência dela em nosso dia a dia.

Além do brechó Acervo de Coisinhas, que ilustra o post e conta com roupas e acessórios predominantemente contemporâneos, também no bairro de Pinheiros, em São Paulo, conheci o brechó Varal do Beco, especializado em peças vintage e figurinos. Vá com tempo para explorar as araras lotadas de roupas até o teto (mesmo!).

(Fotos: acervo pessoal)

Comportamento, Moda, TV & Cinema

Não estarei sempre “na moda”

A relação das pessoas com suas coisas, a publicidade ostensiva a que somos submetidos e a rotina ansiosa das grandes cidades são alguns dos temas abordados em Minimalism: A Documentary About the Important Things (2015). O documentário propõe, através da história de pessoas que aderiram uma forma minimalista de viver e de reflexões de profissionais de áreas como economia, sociologia e até arquitetura, um novo olhar sobre consumo, expectativas e estilo de vida.

Joshua Fields Millburn, um dos minimalistas, conta sobre as mudanças em sua rotina e mente após o descarte de “todas essas coisas que havia trazido à minha vida sem questionar“; e, em outro trecho do documentário, comenta que o problema não está no ato de consumir, mas no consumismo compulsório e no hábito de “comprar coisas porque é isso que você deveria fazer“. É assim no mundo da moda rápida.

“Querem que você se sinta fora de moda semana após semana, para que assim compre algo na semana seguinte”, avalia a consultora de moda sustentável Shannon Whitehead, que também aborda as expectativas criadas por nós e pelos outros com relação ao que “devemos ser”, o que, de certa forma, alimenta a falsa necessidade de precisar vestir algo novo todo dia, de não repetir roupa ou não poder usar um item “fora de moda”. A exigência é geral, e quando trabalhamos dentro desse universo é maior ainda.

Como profissional da área, já senti, direta e indiretamente, a pressão para estar “sempre na moda”. Os argumentos vão de “o dress code dessa empresa de moda exige” a “estar com peças da moda é fundamental para o seu marketing pessoal”. Será?

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Independente da minha extensa lista de questionamentos sobre “o tal” marketing pessoal, entendo que muitas dessas exigências são impostas a nós por alguns mas nem sempre relevantes ou percebidas por tantos e por quem de fato importa. Quando falo sobre “quem importa”, inclui nós mesmos. Afinal, quem mais importa quando o assunto é a minha roupa sou eu (meu bem estar, minha mensagem).  E aí entra um interessante depoimento da Courtney Carver, fundadora do Project 33.

Em seu Projeto 33, Courtney Carver desafiou-se a usar apenas 33 itens por três meses, incluindo acessórios e calçados. A ideia de usar menos do que tinha disponível em seu armário faz parte do processo de desapego que iniciou em 2010 e que não lhe pareceu fácil quando chegou no closet: “Para mim foi uma grande forma de realmente ver do que precisava, o que eu estava usando e se iria fazer alguma diferença”.

Ela conta que trabalhava com propaganda, e muitos clientes com os quais mantinha contato diário. Nos “escritórios criativos”, não apenas de moda, é comum ouvir que precisamos mostrar nosso talento através de visuais modernos e sempre novos. Courtney Carver, com seus 33 itens, conta que “durante esses três meses ninguém notou” a diferença.

Se você pensar no conceito de moda, ele incorpora a ideia de que você pode jogar as coisas fora não quando elas não servem mais, mas quando não têm mais aquele valor social ou não estão mais na moda“. Compartilho esse depoimento da economista e socióloga Juliet Schor e a experiência de Courtney Carver para trazer à tona o questionamento sobre a “necessidade” de estar na moda (trabalhando ou não com ela) e para comunicar formalmente que não estarei sempre na moda. Ainda que isso decepcione alguém ou me faça perder o job.

(Imagem: Visual Hunt)

Comportamento, Livros, Moda

Organize e otimize

Ainda encantada com as mensagens e ensinamentos do livro A Mágica da Arrumação, compartilho por aqui dicas práticas da Marie Kondo para organizar (e consequentemente otimizar) o closet. Em um breve resumo para quem não conhece o livro, e o método KonMari de organizar, Marie Kondo começa sua “mágica” pelo descarte e revela (e incentiva) a relação emocional com o que temos tanto para conservar como para descartar o que já nos fez feliz e pode servir ao outro, mantendo-se vivo ao invés de permanecer encostado no guarda-roupa.

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Para descobrir o que ainda faz sentido para você (o que serve), a dica é colocar todas as suas roupas em cima da cama e olhar para elas “como se estivesse selecionando itens na vitrine da sua loja favorita“. Começar pelos itens que não estão em uso atualmente, ou seja, as peças de outras estações, segundo Marie facilita o processo: “como roupas de outras estações não são necessárias de imediato é mais fácil avaliar se trazem alegria ou não“.

Outra boa dica prática é uma ordem que coloco em prática no meu guarda-roupa: organizar as peças das pesadas para as leves, das claras para as escuras. Pode parecer bobagem, mas a organização visual (e aqui também entra, por minha conta, a padronização dos cabides) contribui para a visibilidade dos itens: nenhuma peça leve ficará “escondida” entre itens pesados, e as roupas claras não se perdem em meio às escuras.

Marie Kondo acredita que criar categorias como camisas de algodão, camisas de seda e blusas de malha, por exemplo, é mais eficiente do que separar as peças por ocasião de uso. Entendendo que muitos itens podem servir tanto a uma quanto a outra ocasião, concordo com o formato proposto que também contribui para não deixar itens esportivos bacanas, e que podem compor visuais casuais, por exemplo, esquecidos na “gaveta de academia”. Além disso, o ideal é ter todas às peças que forem possíveis à vista (ao invés de colocar itens de outra estação fora do campo de visão); afinal, vivemos com variações climáticas e ambientes que, com ar condicionado, pedem um “casaquinho” mesmo em dias de sol.

Acrescentando uma experiência pessoal, avalio que o descarte contribui para a assertividade do visual. Já saí de casa com a roupa errada por insistir em usar uma peça encostada pelo simples fato de não deixá-la encostada, mesmo quando já não representava mais o meu estilo (de vida e de ser). Para quem, como eu, escolhe o look com pressa, manter só o que realmente faz sentido diminui muito as chances de errar no visual.

Não importa onde guarde suas peças, uma regra comum é: de vez em quando, abra as gavetas ou portas dos armários para deixar entrar um pouco de luz e ar. Passe as mãos peças roupas. Faça com que saibam que você se importa com elas e que anseia por usá-las novamente. Essa comunicação mantém as peças vibrantes e faz o relacionamento de vocês durar mais“. (Marie Kondo)

(Imagem:  jamelah via Visual Hunt)

Comportamento, Moda

“The world is watching, it’s time to detox”

A quantidade de produtos de moda made in China é assustadora. Vou parecer ingênua, e talvez tenha sido, com o comentário a seguir, mas achei que o fast fashion no Brasil era avassalador até colocar meus pés em terras europeias. Parei de anotar os nomes na quinta ou sexta loja de fast fashion que descobri na Itália: são muitas, muitas mesmo! Mais do que podia imaginar a minha “vã filosofia”.

Cada uma dessas lojas recebe semanalmente uma quantidade enorme daquelas peças tão bonitinhas quanto ordinárias. E essas lojas estão cheias. Filas nos provadores, filas nos caixas, suas sacolas circulam por todos os pontos da cidade nas mãos de moradores locais ou turistas. Quando comecei a falar sobre consumo consciente de maneira aberta por aqui, pensei em trazer o assunto para debate de forma sutil. Mas a sutileza não combina com o atual cenário: uma indústria que escraviza da produção ao ponto de venda e que está acabando com os recursos naturais que ainda temos.

Semana passada o site Stylo Urbano publicou um excelente texto sobre o futuro dessa indústria em terras chinesas: assim como os trabalhadores, o meio ambiente está sentindo os efeitos da exploração. A matéria descreve a posição preocupada do governo chinês, que busca meios de reverter a situação enquanto é tempo, e a posição não tão preocupada assim das marcas internacionais que, até então, exploravam mão de obra e meio ambiente do país: “Os custos de eletricidade e mão de obra na China estão ficando mais caros e isso se reflete no preço da fabricação de artigos de moda, por isso as marcas internacionais estão procurando outros países com farta mão de obra barata e custos baixos como Bangladesh, Índia, Marrocos, Vietnã, Turquia e agora África para fabricar seus produtos”. É isso mesmo. Depois de acabar com a China, outros países estão na “linha de tiro”.

A China tenta salvar-se como pode, planejando mudar o foco da indústria de Moda local com investimento em moda autoral e o fechamento de fábricas que não atendam aos novos termos de sustentabilidade que serão implantados. Segundo a matéria acima citada, “outra ideia é a de reciclar quimicamente todos os resíduos têxteis e roupas velhas para criar novos tecidos e evitar que sejam descartados nos aterros”.

Os consumidores de Moda são mais decisivos nesse processo do que imaginam. Quando compartilhei por aqui o documentário The True Cost, e também divulguei entre amigos, muitos dividiram comigo sua comoção. Sentiram-se tristes, choraram… E continuaram comprando. Sim, há uma luz no fim do túnel. Mas percebi que é preciso seguir um valioso conselho da minha irmã: “Em alguns temas, a gente precisa ser radical”. Esse é um deles.

Não é fácil ler que “a indústria da Moda” está matando, “a indústria da Moda” está poluindo. Eu faço parte dessa indústria e garanto a vocês que ela não é só isso. A indústria da Moda é um rico universo de cultura, sociologia, filosofia, arte… De tecidos combinados com um propósito e significado, de formas que ajudam a contar a história do mundo, de cores que transmitem emoções.

Existem muitos profissionais responsáveis nessa indústria. Criativos e crentes de que a Moda fala, inclui e transforma. Prova disso é que há movimentos engajados na área, unidos para denunciar e fazer a sua parte. “The world is watching, it’s time to detox“!

Ilustro esse texto com três excelentes vídeos retirados da matéria do site Stylo Urbano, mencionada acima, e finalizo com dois apelos. Profissionais de Moda que mantém suas empresas de forma responsável, continuem lutando. Para sobreviver do que amam, para mostrar que a indústria da Moda vai além desse “lado negro” e para virarmos o jogo. Consumidores de Moda, não há justificativa: parem de comprar dessas empresas!!!

+ | Ciente de que a exploração, tanto ambiental como de mão de obra, não é exclusividade do fast fashion, uso as grandes redes como exemplo por serem as lojas com maior visibilidade e “acesso”. Obviamente, a mensagem é geral: exploradores, grandes ou pequenos, não passarão.

Comportamento, Moda

Primeiras palavras sobre consumo consciente

O consumo de moda consciente é um tema bastante amplo e as discussões a respeito apresentam cada vez mais desdobramentos. Com tantas questões e polêmicas, tentar responder à pergunta “Como consumir moda de forma consciente”?, levando em conta estilo de vida e realidade financeira, foi meu ponto de partida para repensar e exercitar uma nova forma de consumir.

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Pensar em custo X benefício e priorizar qualidade sobre quantidade é o primeiro passo. Para alguns parece impossível trocar três calças de R$ 79,90 por uma peça que custe o triplo do valor de cada uma delas, ainda que essa última tenha uma vida útil cinco, seis ou dez vezes maior; mas basta analisar o destino das suas compras nos últimos anos para constatar que, quando o assunto é roupa, o barato costuma sair caro.

Além do custo com matéria prima de qualidade (ou materiais ecologicamente corretos, reaproveitados entre outros) ser inquestionavelmente maior, o processo de produção responsável e o respeito às leis trabalhistas é muitas vezes proporcional aos valores na etiqueta (embora os alvos de denúncias por condições degradantes de trabalho não sejam exclusivamente as lojas de departamentos). E essa consciência pode ser enumerada como um importante tópico para reflexão rumo a uma prática de consumo ética.

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Eu sei. É difícil abdicar dos “precinhos” do fast fashion quando se quer consumir moda (e não apenas roupa). Nem todo mundo, ou melhor, a minoria do mundo pode se dar ao luxo de comprar um item da temporada pagando mais do que o oferecido pelas grandes redes. Por isso, comece exercitando o equilíbrio: invista em peças clássicas com qualidade superior e etiquetas “responsáveis” como base do seu closet, e reduza as sacolas do fast fashion a uma ou outra tendência para atualizar o visual.

Sem ignorar a moda, eliminar exageros na hora das compras muda sua relação com esse universo e faz bem ao seu estilo (uma imagem pessoal bem resolvida não precisa ser 100% alterada a cada mês), ao seu bolso e ao mundo. Informe-se sobre o que compra e não feche os olhos!

É importante deixar claro que falar sobre qualidade e preço, sobre reduzir a quantidade de sacolas e buscar alternativas à marcas que não agem com transparência é apenas a “ponta do iceberg“. Fazer a sua parte contra o consumo excessivo e os problemas ambientais e sociais que ele gera é muito mais importante do que imagina. Eu ainda tenho muito a descobrir (e compartilhar) sobre isso.

Dica! Que tal saber mais sobre as marcas que consome através do Moda Livre? O aplicativo avalia o posicionamento de empresas de moda com relação ao trabalho escravo através de quatro indicadores (políticas, monitoramento, transparência e histórico), e a partir disso as “sinaliza” com verde, amarelo ou vermelho. C&A e Malwee são algumas das empresas bem avaliadas pela plataforma.

(Imagens: reprodução)