Design, Negócios, TV & Cinema

Design e business

Criar algo esteticamente atraente, funcional e comercial é apenas um dos desafios de quem trabalha com design. Além disso, para destacar-se, um objeto, uma fotografia e até mesmo um edifício, precisa trazer consigo algo intangível capaz de gerar identificação e emocionar. A série documental Abstract: The Art of Design mostra, mais que inspiração, alguns desafios comuns ao dia a dia de quem faz, de certa forma, “arte para vender”. Selecionei alguns deles que podem contribuir para o desenvolvimento de projetos, sem esquecer que processo criativo é algo muito particular e que, com o tempo e a experiência, cada um descobre sua maneira de criar.

• Rabiscos e anotações: Tanto o designer de tênis Tinker Hatfield quanto a designer gráfico Paula Scher falam sobre a importância que anotações (que parecem ser) aleatórias são importantes em seu processo criativo. Estar sempre com um bloco de anotações à mão contribui para não deixarmos escapar nenhuma referência, que pode fazer sentido em algum momento de “branco”…

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• Saia do escritório: O “branco” dificilmente torna-se colorido olhando para a tela do computador. No meu dia a dia, isso é muito claro. Quando preciso criar e as ideias não aparecem, sair do trabalho para olhar o mundo “lá fora” (literalmente ou através de um livro, por exemplo) é a melhor forma de mudar esse cenário. Lembro-me de estar em cima do prazo para finalizar um texto e, sem ideias, parar para ver um filme sobre um assunto totalmente fora do tema em qual estava trabalhando. Aos vinte minutos de filme, a ideia veio.

Se você ficar só no escritório tentando ter novas ideias, não terá uma boa base para a sua ideia. Saia e viva a vida. Isso cria um acervo mental, que você poderá explorar em designs inovadores“. (Tinker Hatfield)

• Inovar e “prever”: A necessidade de criar algo inovador ano após ano e desenvolver um produto que mantenha-se atrativo a longo prazo são outros dois desafios mostrado na série. Para isso, é importante olhar além dos modismos de hoje, e considerar aspectos ligados ao estilo de vida das pessoas e seus anseios para o futuro. Contar com pesquisas de tendências sérias e saber filtrá-las para o seu público é fundamental.

Sempre tento imaginar o futuro. Nós projetamos algo para daqui a cinco anos, depois o carro tem que sobreviver no mercado de três a seis anos. Então é uma janela de nove anos que precisamos considerar ao projetar esses veículos“. (Ralph Gilles)

• Marca e produto: O designer de automóveis Ralph Gilles diz acreditar na “redenção pelo design”: “Toda marca já fez um produto ruim. Mas sou otimista. (…) É possível criar um produto que revitalize a marca por meio da engenharia e do design“. Projetar levando em conta a identidade da marca é essencial. O consumidor precisa ver a marca no produto antes mesmo de enxergar a logomarca (que pode nem estar visível). Apenas dessa forma se constrói uma marca de sucesso e revitaliza-se uma marca tradicional sem tirá-la do rumo. Esse aspecto é abordado de forma bastante interessante pela designer Paula Scher, quando diz que o tamanho, a espessura, a posição dos traços e todos os detalhes de uma tipografia são importantes na construção da personalidade daquilo que se quer representar.

• Vender a ideia:  Quando o designer Tinker Hatfield comenta as reuniões realizadas entre a equipe da Nike e Michael Jordan para discutir o design dos tênis da linha que leva o nome do jogador de basquete, fica clara a necessidade de saber expor e vender a ideia para o cliente. Nesse momento, painéis referenciais e tudo que ajude a contar a história que levou o designer a determinado resultado deve entrar em cena. O que para o criador parece óbvio, pode não ser para o cliente.

Há muito mais lições nos oito episódios da primeira temporada de Abstract: The Art of Design. Por aqui, já comentei sobre a relação entre arte e design tendo como exemplo o trabalho de Tinker Hatfield, sobre a necessidade de criar experiência e emoção citando a cenógrafa Es Devlin e parti do princípio de estruturas complexas que parecem simples, do arquiteto Bjarke Ingels, para falar de moda. Recomendo e aguardo ansiosa as próximas temporadas.

(Imagem: Visual Hunt)

Moda

Ideias e cores na MAX&Co.

Com as peças mais cool da temporada, o look book da MAX&Co. (outono/inverno 2017) traz uma série de visuais que mostram moda possível e confortável. Dos vestidos às peças de alfaiataria, nada é muito justo; e as composições chamam a atenção pela riqueza do styling, com diferentes referências, sem fugir da proposta comercial.

O jeans da marca é azul e bordado (leia mais sobre o jeans bordado aqui), e aparece em composições fáceis. Camisa branca + pantacourt jeans  foram combinadas a uma dupla de casacos pesados, que inclui uma parka verde militar, enquanto a t-shirt jeans ganhou leveza com uma saia plissada e bolsa clássica e neutra. Os visuais foram arrematados por uma delicada sandália com aplicações e salto baixo dourado, que, ao lado dos saltos largos e modelos flat traz conforto para o outono/inverno da marca.

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Quando o assunto é conforto, é difícil deixar as referências esportivas de fora. Na MAX&Co. elas dividem espaço com o clássico em visuais claros. A monocromia é uma ótima maneira de levar o casaco que já tem no armário para uma nova proposta: pense em um sobretudo marinho com uma calça com listra lateral e tênis, com peças em tons de azul e preto, por exemplo.

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Falando nisso, a composição com diferentes tons de azul, cinza e preto é uma das minhas favoritas. A camisa e o xadrez clássicos, e com referências do guarda-roupa masculino, ganham cara nova com o colete longo e sapatilha de bico fino em uma opção moderna para mulheres que preferem não arriscar contrastes de cor.

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• Cartelas de cores

O styling da MAX&Co. está repleto de ideias para experimentar novas combinações de cores começando pelo mix suave de tons de azul com caramelo. Da mesma forma, o trio verde, bege e dourado traz o tom neutro na maior peça,  garantindo a leveza da composição.

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Vestidos estampados leves podem continuar em uso durante o outono/inverno ao lado de casacos pesados. Mais que isso, as estampas dos vestido da grife trazem ideias de composição de cores: vermelho e roxo com rosê e azul e rosa com verde são algumas delas. Nesses casos, escolher sapato e acessórios neutros é sempre mais seguro.

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(Imagens: divulgação / Styling: Tom Van Dorpe)

Decor, Design, Moda

CASACOR não é “só” decor

Na manhã dessa sexta-feira a CASACOR Paraná 2017 recebeu a imprensa e convidados para a abertura da 24ª edição da mostra. Com a proposta “Foco no Essencial”, as tendências de arquitetura e design de interiores apresentadas refletem a busca pela funcionalidade e a preocupação ambiental. Alinhados com o estilo de vida moderno, os ambientes da CASACOR estão cheios de referências também para o que vestimos.

A união de estruturas e móveis minimalistas com elementos orgânicos, seja em arranjos  de mesa (onde predomina o verde), em enormes painéis decorativos com plantas ou em materiais rústicos, é muito presente nos ambientes da CASACOR. Um mix que inspira, na moda, a apostar em bons e duradouros básicos aliando a eles acessórios com a energia da natureza (seja em estampa ou matéria prima). As referências naturais, ou peças artesanais, aparecem também combinadas a elementos gráficos: da composição de almofadas da CASACOR para o guarda-roupa, pense em t-shirts com desenhos geométricos em preto e branco ao lado de peças em tricô ou fibras naturais como o linho.

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Tons claros, texturas delicadas e um toque de verde na Suíte da Moça, de Michele Krauspenhar
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Gráfico + artesanal

Misturar opostos e trazer elementos inusitados, para a casa e para o look, são uma ótima forma de repaginar essenciais. No ambiente Quarto da bebê, da arquiteta Janaína Macedo, uma mesa de centro rústica divide espaço com peças em estilo clássico, com móveis Luís XVI, e delicados acabamentos em dourado; e tanto lavabo quanto um espaço spa trazem cores escuras para mostrar que ambientes relaxantes não precisam ser construídos com “paredes brancas”. Então por que não um visual de verão all black?

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Spa em casa, da designer de interiores Katleen Luizaga

Toques em tons vibrantes não ficam de fora. Para acender as cores escuras ou a mistura de texturas neutras, detalhes pop, na cor e no estilo, aparecem na CASACOR lado a lado com referências étnicas, no ambiente Spa em Casa, inspirado na Tailândia, ou clássicas. E se o essencial deve ser versátil, um ambiente como o Quarto de Menina, da Melissa Dallegrave, mostra como um espaço pode ser multifuncional, fácil e adequado para diferentes fases.

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Neutro + vibrante, clássico + moderno no detalhe da cozinha, de Cristian Schönhofen e Richard Schönhofen

A valorização do simples, a conexão com o natural, a inserção do inusitado, o toque moderno e a versatilidade são só algumas das inspirações da CASACOR que valem muito na moda. A mostra abre ao público no dia 04 de junho, no Jockey Club do Paraná.

(Fotos: acervo)

Comportamento, Moda

Serve?

Festa à vista e pouca vontade, e tempo, de procurar um vestido. Aproveito para puxar os cabides do fundo do armário onde moram, já a algum tempo, cerca de oito cocktail dresses. Nenhum serve.

Engordei? Não. Emagreci? Também não. Os vestidos continuam “entrando”, mas não servem. Um dos maiores “erros de moda” é insistir em uma peça que não serve. Não é porque o zíper subiu que a roupa serve. Entrar é diferente de servir. E o que vestimos hoje, precisa servir hoje. Ao nosso corpo, ao nosso estilo de vida e ao nosso propósito (isso para não entrar no quesito ocasião).

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Fisicamente uma peça de roupa que requer esforço para vestir, mesmo que “entre”, não serve. Compare o que vê no espelho com o que viu no cabide: o modelo parece o mesmo? Quando a modelagem é reta no cabide, mas justa no corpo: não serve. Quando o decote é estreito no cabide e amplo no corpo: não serve. Ninguém precisa “entrar” em um vestido, é o vestido que deve “entrar” em quem veste de forma confortável  e harmoniosa; e mais que encontrar a roupa que lhe serve, em tamanho e modelagem, avalie se ela ajusta-se à sua rotina e essência.

Recentemente li o livro A Mágica da Arrumação, da Marie Kondo (sobre o qual comecei a falar aqui), e a principal mensagem da autora, ao falar sobre descartar o que não usamos, é clara e eficiente: essa roupa (ou objeto) lhe traz alegria? (Traz, no presente). Essa é a máxima que levo a partir de agora na hora de me vestir. Quando o vestido cabe fisicamente mas não me traz alegria, ele não serve. Não transmite o que sinto hoje, não é confortável para os ambientes que frequento (diferentes daqueles que costumava ir a anos atrás), não “me representa” mais? Não serve.

Existem alternativas para o descarte. Algumas peças podem ser reformuladas ou ganhar novos complementos. Mas independente do destino que decidir dar a cada uma de suas roupas, esteja certa de que o melhor look é sempre aquele que lhe serve. E que só “entrar” não serve.

(Imagem: Visual Hunt)

Comportamento, Moda, Negócios

Reclame aí

Já ensaiei escrever sobre esse assunto por aqui algumas vezes. Mas foi um comentário “se não gosta simplesmente não use” lido há cinco minutos que impulsionou, finalmente, o texto. Precisamos falar sobre críticas!

Sabe aquela frase que diz para falarmos apenas de coisas boas, ou aquela ideia de que se for pra criticar é melhor ficar calado? Nunca concordei. A falta de críticas pode fazer tão mal a uma marca (ou a uma pessoa) quanto o excesso delas. Por experiência própria, os trabalhos e as pessoas que mais me fizeram crescer como profissional não foram os (as) que me deram 100% de aprovação. Da mesma forma, atribuo o fato de termos tantos serviços e marcas ruins no mercado a essa cultura (?) de não criticar.

Penso que muitos produtos ruins circulam por aí não por falta de cuidado de quem os faz, mas por falta de feedback de quem os consome. Cansei de ouvir comentários negativos sobre marcas “pelas costas”, vindo de pessoas que não economizavam elogios ao dono da empresa quando na frente dele (mas, obviamente, nunca mais compraram/consumiram). O produto perde a firmeza depois de lavado? A barra descosturou no segundo dia? Fale! O contrário não é justo com nenhum dos lados.

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Me entristeceria saber que estou repetindo um erro já notado por quem consumiu meu produto e ninguém fez o favor de “me dar um toque”. Da mesma forma não entendo a lógica que faz as pessoas ficarem raivosas quando criticadas, e também não sei quem disse a elas que uma crítica as descredibiliza como profissionais. Ninguém é pior por errar. Com o perdão do clichê, errar só nos faz melhores. Além de significar que estamos fazendo algo (e não inertes) e sendo notados, contribui para o aperfeiçoamento do trabalho. O olhar do outro é precioso.

Faço uso desse espaço para deixar claro que o tal “não gostou é só não comprar” não se aplica por aqui. Quero saber o motivo de não ter agradado, pois só assim posso aprimorar meu produto (ou serviço) para, quem sabe, fazê-lo “comprar” da próxima vez. Se ainda assim não funcionar, certamente apresentei uma segunda versão melhor que a primeira.

Como profissional, aceite, avalie e absorva as críticas. Como consumidor, reclame aí! Contribua para um mercado melhor, onde produtos e serviços realmente bons são os que sobrevivem (e não aqueles cheios de elogios comprados) e ajude quem admira a estar entre eles.

(Imagem:Visual Hunt)

Moda, Negócios

Parecendo manequim de loja

Não foram poucas as vezes que li, em livros de consultoria de estilo e revistas, o quão negativo é sair “parecendo manequim de loja”. A afirmação sempre vem acompanhada de dicas sobre estilo pessoal, e sobre como é mais interessante vestir-se com personalidade ao invés de mergulhar em tendências.

Com o passar dos anos, concluí que a frase certamente foi escrita por alguém que ainda não teve contato com um bom manequim de loja. Compreensível. Visto que mais de 90% dos manequins de loja são ruins. E não, não é uma “questão de gosto”.

Produzir e avaliar um manequim de loja exige informação e técnica: coerência com a identidade e público, com o tempo lá fora, com as tendências da estação, cartela de cores, ocasião, coordenação de materiais e coordenação dos manequins entre si (quando mais de um) são apenas alguns dos fatores que fazem uma vitrine funcionar ou não.

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As vitrines e manequins da grife italiana Max Mara trazem composições reais e inteligentes

Com tantas “modas” espalhadas por aí, boas vitrines não preocupam-se apenas com a exposição de tendências. Consequentemente, não criam visuais que resumem-se a um amontoado delas. Para posicionar uma marca e fazer frente aos concorrentes, muitas vezes com produtos esteticamente similares, o look do manequim precisa trazer algo a mais: a função do styling é prestar uma consultoria de moda silenciosa à cliente, sugerindo e explorando novas formas de uso; e sua consequência é que, sim, a cliente deseje reproduzir o que viu na vitrine em seu dia a dia (e, do ponto de vista comercial, compre o visual inteiro).

Mesmo sem notar, consumidores de moda escolhem e preferem marcas que mostram imagens que podem vesti-lo de verdade, combinações de peças com as quais ele se identifica e que o inspiram até mesmo a repaginar algo que já tem no armário. Do outro lado, empresários e gestores do varejo de moda devem preocupar-se em oferecer exposições que façam seus clientes contrariarem a máxima que abre esse texto.

Esqueça as vitrines com cartelas de cores limitadas e com aquela mesma estampa na saia de uma e no vestido de outra. Quando não for possível contar com um profissional especializado para editar os visuais da vitrine, reserve um tempo para estudar, planejar e executar com carinho cada um dos manequins. A próxima vez que eu passar por aí, quero sentir vontade de sair parecendo o manequim da sua loja.

(Imagem: Think Retail)

Comportamento, Livros, Moda

Peça perdão às suas meias

Você já fez algo que acreditava ser bom e depois percebeu que sua atitude magoou alguém? Isso é mais ou menos o que fazemos com as nossas meias“. A frase da especialista em organização Marie Kondo no livro A Mágica da Arrumação é seguida de um relato. Durante o trabalho de organização na casa de uma cliente, Marie Kondo deparou-se com as tradicionais bolotas feitas para enrolar e guardar meias.

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Apontei para as bolotas de meias e perguntei: “Olhe bem para isso. Elas deveriam estar descansando. Você acha mesmo que elas conseguem descansar assim”? É isso mesmo. As meias e meias-calças guardadas na gaveta estão de férias. Levam uma surra no trabalho do dia a dia, aguentando a pressão e a fricção para proteger seus preciosos pés. O tempo que passam no armário é a única chance que elas tem de descansar. Mas se estiverem enroladas como bolas ou com um nó no meio ficarão em estado permanente de tensão, com o tecido esticado e o elástico distendido. Enroladas assim, rolam e batem umas nas outras toda vez que se abre e fecha a gaveta. Aquelas que têm a infelicidade de serem empurradas para o fundo da gaveta geralmente são esquecidas por tanto tempo que o elástico afrouxa sem possibilidade de recuperação. Quando o dono enfim repara nelas já é tarde demais e são renegadas à lixeira. Pode haver tratamento pior“?

O trecho acima ilustra a linda relação de Marie Kondo com as roupas e objetos. Muito além de técnicas de organização, o método KonMari nos motiva a trabalhar o desapego, essencial para manter a casa em ordem, de forma pessoal, e revela como o vínculo emocional com os objetos não impede o descarte (muito pelo contrário).

Mais que isso, o livro A Mágica de Arrumação é repleto de ensinamentos sobre como nossa casa fala sobre nós e sobre como olhar para esse entorno com carinho é transformador. Certamente esse livro ainda renderá bastante assunto por aqui, mas, por ora deixo dois conselhos: peça perdão às suas meias e passe a ver o que veste como mais que pedaços de tecido. Além de cuidar melhor do que tem, isso com certeza irá redirecionar as novas escolhas.

• Da relação com o que visto…

Nasceram as golas da primeira coleção de slow fashion que leva meu nome. A ideia, entre outras, é instigar a interação com o acessório: vista, tire, mude o modo de usar, coloque sem pensar e descubra uma nova possibilidade. Toque, sinta a textura e use a seu modo, transmitindo sua energia e humor para aquilo que veste.

Com três variações de cores em coleção limitada, conto mais sobre esse novo produto na aba ETIQUETA (clique para acessar). As peças são produzidas artesanalmente sob demanda.

(Imagem: Visual Hunt)

Arte, Moda

Fotógrafo também faz Moda

Na noite de ontem a Subcomissão de Direito de Moda, vinculada à Comissão de Assuntos Culturais e Propriedade Intelectual da OAB Paraná, promoveu uma noite de palestras para falar sobre Moda como expressão de arte e cultura, onde a estilista Sandra Kanayama (comentei um pouco sobre o trabalho dela aqui) e o fotógrafo Luciano Fileti dividiram seu olhar sobre moda e arte. Dentre os diversos temas abordados, Luciano Fileti comentou a participação do fotógrafo na construção da fotografia de Moda, um tema sobre o qual paro para refletir a cada trabalho que realizo. Explico.

Aprendi, desde que comecei a estudar produção de Moda, qual era o papel do produtor em uma sessão de fotos. Entre as funções estão selecionar referências para o fotógrafo: referências de cores, de enquadramento, de estilo. Construía o passo a passo, mas confesso que muitas vezes me senti desconfortável com esse modelo.

Mesmo antes de conseguir fundamentar,  entendia o fotógrafo como parte muito mais ativa no processo do que o proposto pela apostila. Além disso, como dirigir de forma tão incisiva alguém que possui muito mais conhecimento de fotografia que eu? Por que não, ao invés de limitar cor e enquadramento, levar o conceito e o objetivo da mensagem para co-criar a imagem do produto, seja como designer ou produtora, ao lado de quem vai fotografá-lo?

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A parceria criativa que busquei construir com os fotógrafos com quem trabalhei me levou a ser elogiada por alguns e repreendida por outros: “você precisa me dizer exatamente o que quer”, disseram alguns deles (talvez acostumados com com o padrão engessado). Porém, os melhores trabalhos são resultado da discussão de uma ideia em dupla e as melhores cenas não são aquelas que rascunhei previamente.

Luciano Fileti acredita que respeitando o espaço e a visão do fotógrafo as chances de trazer algo novo e inusitado são muito maiores. Além de concordar plenamente com ele, acrescento que ter como referência outra fotografia de Moda, como aprendi, é um belo empurrão para cair no “lugar comum”. Obviamente cada caso é um caso (cada cliente é um cliente, cada produto é um produto), mas a escolha do fotógrafo por si só já tem como função triar, através do portfólio do profissional, o estilo ideal para determinado job. A partir daí, creio que uma (boa) dose de liberdade criativa só tem a somar. Convenhamos, não precisamos de mais do mesmo.

Parte do trabalho do fotógrafo Luciano Fileti está em exposição na mostra Signs, no Museu da Fotografia / Solar do Barão, em Curitiba até o dia 23 de julho. Aproveito para parabenizar a Subcomissão de Direito de Moda pelo excelente evento.

(Imagem: Visual Hunt)

Comportamento, Moda

Roupa objetiva

A utilidade de uma mensagem está condicionada ao seu entendimento. Não só no campo da linguagem. Obras de arte só são apreciadas quando fazem sentido para quem vê. Objetos só são vendidos quando mostram-se vantajosos. Com o que vestimos não poderia ser diferente.

Que “a roupa fala” já sabemos. E que essa voz afeta nossa carreira e é capaz de direcionar relações sociais também. Porém, mais que auto compreender-se  e saber traduzir tal essência na vestimenta, a mensagem precisa ser entendida pelo outro. Para isso, é necessário transmitir, através dessa “carta de apresentação” formada por tecidos e acessórios (e cabelo e maquiagem e postura), um discurso claro.

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Uma comunicação visual persuasiva não é necessariamente minimalista, mas capaz de encaixar elementos de maneira coerente como um texto com início, meio e fim que traz frases diretas e sem duplo sentido, mesmo ao unir termos coloquiais e técnicos. Na  série documental Abstract: The Art of Design, o arquiteto dinamarquês Bjarke Ingels ilustra a importância da “estética fácil” quando explica, sobre seu trabalho, que “por mais cuidadosamente pensados, refletidos, discutidos, projetados e testados” sejam os projetos “quando você os vê, precisam parecer simples“.

Na moda, a nova-iorquina Iris  Apfel é um bom exemplo:  seus visuais repletos de referências e elementos impactantes anunciam, logo de cara, quem é Iris. Somos até capazes de  intuir de onde ela vem, o que e como ela faz, e nessa análise é possível perceber a quantidade de barreiras que podem ser quebradas através de uma produção cujo resultado final é acessível.

Leve a reflexão para a frente do espelho, desafie-se a explicar o seu próprio visual e avalie se a tradução corresponde ao roteiro original. Em meio à rotina atribulada, principalmente no universo corporativo, sai na frente quem é facilmente assimilado.

(Imagem: Visual Hunt)

Arte, Design, Moda

Irmãos Campana no MON e na Moda

Com ideias inovadoras e o uso de materiais inusitados, os irmãos Fernando e Humberto Campana transformaram seus móveis em obras de arte e estão entre os designers mais aclamados da atualidade. Em Curitiba, o Museu Oscar Niemeyer apresenta cerca de 130 obras da dupla na mostra Irmãos Campana.

A exposição, ambientada pelos próprios designers e repleta de cores, luzes e texturas, mostra a ampla variedade de materiais já utilizados na construção de móveis de diferentes estilos e formas. Para os Campana, o design começa a partir deles; e a ousadia combinada ao pensamento “inverso” é uma das boas lições dos Irmãos Campana (também) para quem faz moda. Como?

Uma boa ideia  e um produto diferenciado podem surgir ao olhar os materiais com atenção e de outra forma. Quando nos permitimos experimentar, até mesmo a matéria-prima “comum” oferece novas possibilidades: é possível explorar tecidos geralmente utilizados em decoração, considerar o avesso do material, ou inspirar-se em sua própria estrutura. Isso sem citar materiais como papéis especiais, plástico e tantos outros que podem ser processados, recortados, bordados e transformados em superfícies únicas e ergonômicas.

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Lacoste + Irmãos Campana (2013)

Na Moda, os irmãos Campana apresentam novas aplicações de conceitos já presentes em sua obra (a camisa Lacoste da imagem abaixo, de 2013, faz referência a coleção Sushi, de 2003) e mostram como é possível revisitar clássicos de forma original, trazendo frescor sem perder a tradição. A mostra traz peças das famosas parcerias com a Melissa e peças criadas para a Lacoste, onde a identidade dos designers se apresenta em perfeita sintonia com o posicionamento de cada uma das marcas.

Mais? A série Objetos Nômades, em parceria com a Louis Vuitton (2012), não está na exposição, mas é um bom exemplo de criação de acessórios com reaproveitamento de materiais: as peças foram produzidas com tiras de couro descartados das bolsas Haute Maroquinerie.

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Louis Vuitton + Irmãos Campana (2012)
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Louis Vuitton + Irmãos Campana (2012)

Em mobiliários, calçados ou roupas, a obra de Fernando e Humberto Campana é um excelente exemplo de como arte e função podem caminhar juntas. Irmãos Campana está em cartaz no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, até o dia 20 de agosto de 2017. A entrada (inteira) do museu é R$ 16.

(Imagens: divulgação)