Comportamento, Moda, Moda consciente

Quem te influencia?

Desde que a moda é moda, alguém influencia e outro alguém é influenciado. Na Idade Média, os modelos desfilados pela nobreza passaram a ser copiados pela burguesia, uma classe social emergente que começava a ter acesso a bens de consumo antes inacessíveis e inspirar-se nas referências culturais dos nobres.

Nos anos 20, o cinema tornou-se um grande influenciador de comportamento e, consequentemente, de moda. Por isso, os Estados Unidos, um grande centro produtor de filmes, tornou-se referência de moda através de suas principais atrizes. A androgenia adotada nos anos anteriores começou a perder espaço para os visuais femininos de mulheres como Greta Garbo e Marlene Dietrich, e “toques sedosos, brilhos e silhueta marcada foram a ordem da década”*. Depois das atrizes, foi a vez dos estilistas influenciarem o modo de vestir quando, nos anos 50, nomes como Christian Dior e Hubert de Givenchy ditavam estilos através de suas criações.

Além de classes sociais, uma personalidade ou um criador de moda, fatos históricos também converteram-se em referência para a moda. Nos anos 60, a conquista espacial inspirou o uso de materiais inusitados na construção de roupas e acessórios com estética futurista. Ao mesmo tempo, esse espírito de mudança e liberdade colocou a juventude como foco e inspiração nas décadas seguintes, trazendo para a moda itens como a calça jeans e peças customizadas com detalhes artesanais e interferências, utilizadas pelos movimentos hippie e punk, por exemplo, para comunicar suas ideias.

Independentemente de quem e como a influência virou roupa, a história da moda mostra que o contexto social e o comportamento são traduzidos no que uma geração veste; e que as referências para a construção de um estilo podem estar em variadas fontes. Em 2017, quem te influencia? E, mais importante, por que te influencia? O que seu influencer comunica, e por que você inspira-se nele?

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Não são poucas as conversas sobre estilo, seja informalmente ou quando presto consultoria, em que blogueiras e digital influencers aparecem no topo da lista de inspirações. Que essas “web celebridades” representam, de alguma forma, nossa época, é inegável; porém, de modo geral, suas redes sociais são vitrines 99% patrocinadas e, por ganharem com isso, elas tornaram-se “manequins” que trocam completamente de estilo, forma e referências todos os dias sem a preocupação de trazer consigo mensagens sólidas. O resultado são muitos seguidores vestindo o que não lhes cabe (e aqui não falo apenas sobre formas, mas também estilo de vida), sem questionar o motivo pelo qual escolheu essa roupa e, principalmente, essa influência.

A indústria da moda pede socorro. E os principais agentes dessa transformação são os consumidores. “Para o bem de todos e felicidade geral da nação”, mudar os hábitos de consumo é necessário; e isso só acontece quando ativamos nosso senso crítico e passamos a questionar o que, como e por que compramos. O que quero dizer com isso tudo é que tentar acompanhar looks que mudam todo o dia da cabeça aos pés impulsiona o consumo desenfreado, alimenta um sistema nada ético e não contribui para um estilo coerente com o que somos e vivemos.

Olhe para si e para quem te influencia. Analise se isso tudo faz sentido no seu dia a dia. Um painel de visuais patrocinados não é, e nunca será, uma boa referência de estilo. Busque influências, do passado ou do presente, que tragam uma imagem consistente e que digam, através de suas roupas, discursos e estilo de vida, algo com o que se identifica. Acompanhe verdadeiros ícones, mulheres que marcaram suas décadas, como Jackie O. e Twiggy Lawson, e personalidades que são fiéis ao seu estilo e repetem (muita) roupa, como Taylor Swift, que traz referências retrô em visuais coloridos e com seu toque pessoal, ou Consuelo Blocker, uma ótima representante da moda de agora, sempre atualizada e sem afetações.  Descubra, na arte e na arquitetura que aprecia, o tipo de estampa que lhe atrai, as formas que lhe dizem algo.

Talvez o excesso de informação tenha confundido moda e consumo, transformando, erroneamente, post patrocinado em referência de estilo. O resultado é um monte de sacolas que não conversam nem entre si nem com quem veste. Em semana de Fashion Revoluiton, repense: quem, e por que, te influencia?

(Imagem: Visual Hunt)

+ | Recentemente o programa Esquadrão da Moda mostrou uma participante consumidora de blogs de moda, e como a falta de filtro e cuidado ao absorver o que vemos pode resultar em visuais equivocados. O programa está disponível na íntegra no YouTube do Esquadrão da Moda.

*Dica de leitura: o livro História da Moda: uma narrativa, de João Braga.

Moda, Viagem

Marcas locais, outlets e feiras da decepção em Buenos Aires

Comprar em Buenos Aires já foi mais divertido. Se em outras épocas encontrei uma boa variedade de produtos em couro, com preço justo e qualidade, em minha última visita à capital argentina os produtos locais de artesãos e pequenas marcas não me surpreenderam. O que vale a pena: grifes nacionais e seus outlets.

 

Repleta de estampas marcantes, peças alinhadas com as principais tendências e detalhes e acabamentos diferenciados, as marcas Cher. e Rapsodia são endereços imperdíveis para apaixonados por moda em Buenos Aires. A primeira delas, fundada em 2001 com o nome Maria Cher (da sua criadora Maria Cherñajovsy), traz um mix bem equilibrado de itens da temporada e peças clássicas revisitadas: na coleção de inverno 2017, não faltam peças em jeans com bordados e patches e calças de alfaiataria com detalhes esportivos. As estampas da grife, apesar de multicoloridas, trazem cartelas de cores versáteis e fáceis de combinar e estampam, além das peças de roupa, lenços e bolsas perfeitos para atualizar visuais neutros.

 

Longe de looks com poucos detalhes, a Rapsodia constrói sua personalidade a partir da fusão de culturas e referências com um estilo “boêmio, romântico e roqueiro”. Em composições que misturam uma variada gama de texturas e cores, os pontos de venda da marca nos convidam a explorar com calma e atenção a cada detalhe (da decoração da loja às peças); e suas campanhas e lookbook são excelentes referências para misturar estilos.
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Cher. e Rapsodia não são marcas para quem busca preços baixos. Mas, assim como outras grifes locais, a Rapsodia possui um outlet na Calle Aguirre (Calle Aguirre, 729), onde também estão outlets de marcas como Puma e Tommy Hilfiger, e onde funciona o outlet da Paula Cahen D’Anvers (Calle Aguirre, 875), outra marca argentina que vale a pena conhecer.

Desde 1994 no mercado, Paula Cahen D’Anvers mistura liberdade e sofisticação com itens clássicos inseridos em propostas inovadoras. Uma loja para quem busca peças confortáveis em tecidos nobres e modelagem e acabamentos impecáveis. Os blazers, em diferentes cortes, com cores neutras e mix de texturas, e os casacos clássicos são  ótimas escolhas para enriquecer looks com tênis.
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Além da região da Calle Aguirre, a Avenida Córdoba concentra outros outlets incluindo a loja da Materia (Av. Córdoba, 4502). A marca é uma boa pedida para encontrar “jeans e camiseta”, além de suéteres e cardigãs para completar visuais casuais.

 

Na Avenida Córdoba estão também os outlets da Ayres, Como Quieres Que Te Quiera e da Levi’s. De maneira geral, vale a pena garimpar nas lojas das marcas locais: mesmo em outlets, os preços da Levi’s e de outros nomes internacionais, como Lacoste e Adidas, estão muito similares aos valores praticados Brasil (com alguns itens mais caros). Mas, minha maior decepção no quesito compras em Buenos Aires foi com as Feiras de “Artesanato”…

 

Como adiantei no início dessa publicação, infelizmente a “versão 2017” da Feira da Recoleta (ou Feira da Plaza Francia), apesar de contar com alguns expositores de itens de couro com preços melhores que os nossos, não traz mais a mesma variedade e muitos produtos “chinocas” (a maioria) misturam-se ao artesanato local. Com relação às bolsas, alguns modelos diferenciados por fora pecam no acabamento e na qualidade dos metais, o que faz com que não valham o preço.

 

O mesmo acontece na Feira de Palermo Soho e seus arredores. Localizada em um bairro conhecido por abrigar artistas e novos designers, além da feira propriamente dita, montada na Plaza Serrano, diversos edifícios ao redor abrem suas portas para expor trabalhos de criadores locais. Porém, a promessa da sinalização na entrada não é cumprida. O que mais vi nos espaços foram produtos made in Asia que repetiam-se em outro expositor só mudando a etiqueta. Além disso, diversas falsificações de Chanel e Gucci e roupas encontradas no Centro da cidade, em lojas assumidamente fast fashion, com preços mais altos por estarem nas ruas de Palermo.
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Conclusão: Buenos Aires já não é mais um bom destino de compras para quem busca qualidade e preço baixo. As boas marcas locais tem seu preço, e seus outlets podem render ótimos achados, mas a qualidade dos produtos artesanais e as araras de fast fashion que tentam se passar por diseñadores locales foram uma grande decepção.

 

• E a Farmacity?

 

Aficionadas por compras de beleza como eu certamente colocam a Farmacity no roteiro ao planejar uma viagem à Buenos Aires. Dessa vez comprei apenas um creme para mãos da marca Farmacity ($ 30,50) e um bálsamo labial da francesa Ducray ($ 166). O restante, cosméticos e maquiagens, mesmo à preço de euro, valem mais a pena na Europa (ou no Brasil mesmo). Com relação ao duty free do Aeroparque Jorge Newbery (AEP) digo o mesmo: muitos produtos equivalentes ou mais caros que na Sephora Brasil.

 

(Imagens: divulgação e acervo)
Comportamento, Empreendedorismo, Moda, Moda consciente

Fashion Revolution?

O dia 24 de abril de 2013 foi um dia triste para a moda. A queda do Rana Plaza, em Bangladesh, foi uma das maiores tragédias que a indústria já viveu. O edifício que abrigava em condições precárias diversas fábricas de roupas que produziam para grandes marcas globais – como Benetton, Mango e Primark, conforme noticiado na época – colapsou, levando em poucos minutos a vida de mais de mil trabalhadores têxteis e deixando outros 2,5 mil feridos. Detalhe: alguns meses antes, outras centenas morreram em um incêndio ali mesmo e nada foi feito. No total, foram 200 mil pessoas mortas, em trezentos acidentes em fábricas como essa no século XXI.

O cenário, que mais parecia uma zona de guerra (entre escombros, pedaços humanos e pessoas soterradas vivas), foi o ponto de partida para o movimento Fashion Revolution, criado em Londres pelas designers e ativistas Carry Somers e Orsola de Castro com o objetivo de despertar a consciência para as práticas antiéticas na moda e lutar por um mercado fashion mais seguro, sustentável e humano“.

O trecho acima, retirado do livro Moda com Propósito, do André Carvalhal, explica o surgimento e intenção da Revolução Fashion. O movimento impulsiona diversos eventos para discutir o tema, especialmente durante o mês de abril, em diferentes frentes, da indústria ao varejo. Tão importante quanto falar sobre o que é e como surgiu, é, como profissionais e/ou consumidores de moda, buscar e compartilhar formas de fazer parte dessa revolução.

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• Para quem faz moda

Semana passada recebi da ABVTEX (Associação Brasileira do Varejo Têxtil) um material sobre o Programa de Certificação de Fornecedores que veio ao encontro de diversos questionamentos de designers e estudantes que li ou recebi nos últimos dias no que diz respeito aos fornecedores.

Para Edmundo Lima, diretor executivo da ABVTEX, o consumidor “vem se tornando cada vez mais consciente da necessidade de escolhas e dos impactos do seu consumo. Por isso, é que as varejistas associadas à ABVTEX trabalham para garantir a qualidade da origem do produto oferecido nas lojas”. Segundo a ABVTEX, em seis anos de existência o programa realizou quase 20 mil auditorias em confecções e seus subcontratados para verificação de boas práticas e cumprimento da legislação trabalhista em vigor. Só no ano de 2016, foram realizadas mais de cinco mil auditorias com 4.112 empresas certificadas em 681 municípios, em 18 Estados, com o objetivo de “ajudar as empresas signatárias a monitorar e qualificar, de maneira estruturada e integrada, a cadeia de fornecedores do setor têxtil, a fim de disseminar as boas práticas e combater o uso do trabalho análogo ao escravo nas confecções“.

Para os empresários da indústria e confecção, a certificação de fornecedores promove melhoria no ambiente de trabalho, redução de acidentes, aumento de produtividade e qualidade de produto além da retenção de trabalhadores e do alinhamento com a moda responsável cada vez mais valorizada pelo consumidor final, o que garante um retorno positivo dos investimentos em certificação.

Além de trabalhar com fornecedores certificados, novas marcas e pequenos criadores podem buscar alternativas com relação a materiais e processos, reaproveitando matéria prima descartada por empresas de maior porte ou outros criadores através de iniciativas como o Banco de Tecidos, e utilizando técnicas artesanais com foco em exclusividade. Produção em menor escala e transparência nos processos são um caminho interessante para estruturar um novo negócio em um momento de incertezas e economia (de recursos naturais e financeiros).

• Para quem consome moda

Assim como consumir marcas que trabalham com fornecedores certificados e processos responsáveis, o momento atual pele a reavaliação dos hábitos de consumo (onde, como, quanto e porque compramos) e a consciência sobre o real impacto deles. Avalio que a mudança na indústria fashion depende muito mais dos consumidores do que de quem faz, e é triste perceber que a preocupação ainda não é tão presente na vida dos “atores anônimos” (leia mais aqui) que possuem a poderosa ferramenta escolha nas mãos.

Avalie qualidade, busque informação sobre as marcas, reutilize e transforme o que já tem. Faça compras em seu próprio closet, permita-se novas combinações e atente-se para a conservação de suas roupas. Ao longo desses últimos parágrafos, deixo sete links de publicações sobre o assunto aqui no ivylemes.com com o objetivo de mostrar que colocar nosso tijolinho na construção de uma moda mais ética é muito mais fácil e importante do que muita gente imagina. Vamos?

(Imagem: Visualhunt)

+ | Não deixe de assistir o documentário The True Cost para avaliar quando custa realmente aquilo que vestimos.

Moda

Um ano de Gazeta do Povo

Gabrielle Chanel abriu seu primeiro negócio, em 1911 em Paris, para vender chapéus que confeccionava. Com uma personalidade marcante e questionadora, “Coco” libertou as mulheres ade peças desconfortáveis no início do século XX com seus modelos com poucos detalhes e referências vindas do guarda-roupa masculino. Tornou moda seu corte curto de cabelo e sua bolsa com longas alças de corrente, para deixar as mãos das mulheres livres, é objeto de desejo até os dias atuais. A versatilidade, o conforto e a elegância do casaqueto de tweed de sua marca tornou a peça um dos itens mais copiados do mundo. E também é dela a sapatilha bicolor com bico redondo, com a ponta preta criada para diminuir visualmente o tamanho dos próprios pés (que ela considerava grandes demais). Das mãos de Chanel vieram muitos dos principais clássicos da Moda.

Mesmo com toda essa tradição “nas costas”, a (marca) Chanel vive mudando: são it bags repaginadas em jeans, conjuntos de tweed que desfilam ao lado de bonés (na coleção de primavera 2017), camisetas com estampas atuais que chegam para compor com peças e detalhes tradicionais da grife (na coleção resort do mesmo ano) … “Mas Chanel tem que ser clássica”, “Uma bolsa icônica com esse tecido”?, “Chanel não tem nada a ver com bota de plástico”. Dizem os que preferem “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

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Chanel na capa em diferentes épocas

Sexta-feira passada completamos um ano de Palpite De Alice, blog que administro ao lado da Monica Berlitz, na Gazeta do Povo. Embora nunca tenha dito a ninguém, escrever sobre Moda nesse veículo me trouxe diversos “dramas existenciais”. Não é fácil falar na Gazeta. Não para quem leva esse espaço, e sua profissão, tão a sério como eu.

Muitas vezes excluí o texto inteiro e recomecei do zero. Em alguns momentos, abri o painel administrativo do blog e selecionei 80% das minhas publicações: estava a um clique de apertar a latinha de lixo e deletar tudo. “Tá horrível”!!! Dizia a voz dentro de mim.

Foi um ano de, além de crises, muita mudança e muito aprendizado. Perdi as contas sobre quantos formatos publiquei. Quantos blogs visitei. Quantas análises sobre “o que as pessoas querem ler” fiz em rodinhas sociais, importunando as amigas em momentos de lazer. E a cada mudança, mais uma crise: “Se você não parar de mudar nunca criará consistência”. “Seu texto não tem estilo, cada hora é uma coisa”. A voz outra vez.

A partir da próxima-quinta feira, vou arriscar apresentar por lá um olhar mais amplo sobre moda e tendências. Com um pouco mais de história e de outros temas. Um caminho mais longo, mas que talvez faça mais sentido para as pessoas do que eu costumo pré-julgar. Jogar um pouco de tinta e combinar com tênis a roupa clássica que sempre achei ser a mais eficaz em um veículo que abrange um público tão diverso. Um veículo tradicional. Mas que, não por acaso, também está mudando.

O que Chanel tem a ver com isso? Muito pouco. Mas nessa introdução um tanto quanto fora de contexto certamente algum leitor aprendeu algo sobre Moda. E esse é exatamente o objetivo das colunas que vem por aí no Palpite De Alice.

Menos estabelecida e bem menos conhecida que Chanel, também preciso mudar. E sem (tantas) crises.

(Imagens: internet)

Moda, Viagem

Fazendo as malas | Menos é mais

Há algumas semanas publiquei em meu Facebook pessoal uma foto da minha mala de viagem para dez dias, incluindo a roupa do voo de ida, com apenas dez peças de roupa, três calçados e uma bolsa. Com essa seleção de peças (sem contar acessórios e roupa de banho), consigo montar mais de quinze looks; ou seja, o suficiente para uma viagem que não inclui ocasiões que exigem uma produção elaborada.

Apesar de trabalhar com consultoria de estilo, nunca fiz nenhum curso para montagem de malas. Aprendi a fazer malas compactas viajando. Sofrendo com as malas extras e carregando muito peso no aeroporto. Portanto, o que divido por aqui é fruto da minha experiência e felicidade de conseguir viajar bem mais leve, levando o suficiente para poder trazer o que comprei no destino (e que também pode incrementar os visuais durante a viagem) sem precisar de mais um volume e sem pagar bagagem extra.

Para ilustrar selecionei peças em diferentes modelos dentro de um estilo coerente, mas vale ressaltar que essa não é uma lista padrão a ser seguida: sua mala e seu estilo são únicos, e não há nenhum molde fechado para elaboração dela. A ideia é mostrar uma forma de pensar na construção da mala, que deve ser adaptada de acordo com o seu estilo, preferências, objetivos, ocasião da viagem, destino etc.

Consultar a previsão do tempo é o primeiro passo. Apesar de possibilidade de imprevistos climáticos, esse dado serve como guia na seleção de itens. O segundo passo é restringir a cartela de cores e eliminar roupas com efeito visual similar: leve peças que combinam entre si mas evite várias roupas com a mesma cor e proporção (exemplo: short e saia preta) para conseguir produzir visuais com outra “cara” sem precisar de muitas opções.

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O número de tops (partes de cima) deve ser superior ao número de bottoms (parte de baixo), e contar com peças que podem ser usadas sozinhas ou em sobreposição é uma ótima ideia. A camisa jeans, por exemplo, pode ser usada tanto fechada como aberta sobre outra peça ou amarrada na cintura para incrementar um terceiro look.

Além desse, outros truques de styling contribuem para adaptar peças em diferentes visuais e ocasiões durante a viagem: a calça de alfaiataria ganha um toque informal com a barra dobrada em um visual hi-lo com camiseta e chinelo. E por falar em camiseta, t-shirts que combinam estampas fáceis de coordenar com tecido que não amassa são verdadeiros coringas na mala de viagem.

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Peças lisas e neutras também valem muito na mala de viagem, e elas não precisam ser sem graça. Experimente começar a construção da mala com roupas sem estampa mas com texturas diferentes. Esses itens levam informação de moda para o visual mesmo quando ele é composto apenas de peças lisas.

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Ao invés de levar peças que cabem apenas a uma ocasião (quando sua viagem não inclui eventos específicos, claro), selecione acessórios capazes de transformar um look casual em um visual interessante para um happy hour por exemplo. Uma clutch bordada ou com brilho, um maxi colar ou brincos grandes ocupam pouco espaço na mala e tem “impacto” na produção. Dica! Use a clutch como porta acessórios ao invés de adicionar mais um volume para transportar brincos e outros itens pequenos.

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Mais um motivo para evitar muitas peças de uma só cor na mala de viagem: Cores diferentes de peças lisas criam visuais super interessantes e são uma chance de experimentar composições com três ou mais tons. Além do exemplo abaixo, preto, cinza, azul e vermelho; ou branco, bege, amarelo e rosa funcionam bem juntos.

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Vestidos estampados com tecidos e modelagens versáteis, que possam ser usados tanto com tênis como com salto alto, com ou sem cinto, durante o dia e à noite valem a pena. Ao invés de levar um vestido de malha para o dia e outro com detalhe bordado para jantar, cogite a possibilidade de apenas um em tecido nobre com poucos detalhes e cores.

Durante o dia, combine com uma peça casual, como a camisa jeans (sobreposta ou amarrada na cintura), e à noite com um cardigã longo (casaqueto ou jaqueta de couro), acessórios “ricos” e salto alto.

Minha mala, nessa ocasião, não incluiu nenhum sapato de salto, mas a dica para quem não dispensa calçados altos segue a mesma ideia: Escolha um modelo que combine com a maior parte dos itens que está levando. Um cinto diferente é um acessório precioso pois além de trazer um detalhe diferenciado para o look, ele possibilita “alterar” o comprimento da peça e utilizar o vestido de diferentes maneiras mesmo quando sozinho (cintura alta e marcada ou cintura baixa).

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Quer levar aquela peça estampada favorita? Pense em sua cartela de cores a partir dela. Escolha os neutros que combinam com as cores que predominam nesse item para poder usá-lo de diferentes maneiras.

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Em dúvida sobre qual estampa levar? Opte por desenhos que combinem com diferentes “famílias” de neutros: jeans, preto e cinza e branco + tons terrosos, por exemplo. E já que o assunto são tons terrosos, essas tonalidades são as mais indicadas para a escolha da bolsa de viagem, pois combinam tanto com cores escuras como com tons claros. MALA-DE-VIAGEM-9

(Imagens: divulgação / Edição de looks: Ivy Lemes)

+ | Leia também o post Fazendo as malas, publicado em outubro de 2014, com algumas dicas para arrumar a bagagem.

Empreendedorismo, Moda

Case de fracasso

O texto Não saia por aí fazendo roupa repercutiu muito mais do que eu esperava. Uma repercussão que avalio como 100% positiva. Trouxe olhares complementares, visões múltiplas sobre o tema, que incluem outras áreas dentro da Moda, e comentários que impulsionaram o texto de hoje.

“Ivy, quais são suas dicas para quem quer ter uma marca de Moda”? Mas… Eu não tenho uma marca de Moda. E mais. Minha marca de Moda fracassou. Espera aí… Eu tenho muitas dicas para pequenas marcas de Moda, e justamente pelo fato da minha ter fracassado.

Quando estava construindo minha primeira empresa encontrei muitos conselhos sobre o que fazer. Hoje, avalio que o que realmente precisava ler naquela época (e não sabia) era sobre o que NÃO fazer. Sobram cases de sucesso, mas às vezes é preciso saber mais sobre os cases de fracasso.

Apesar de muitos blogs dedicados aos cases de sucesso deixarem claro que o empreendedor em questão faliu algumas vezes antes de alcançar um modelo de negócio que deu certo, pouco se fala sobre os motivos da falência e muitos conselhos espelhados no negócio de sucesso não funcionam para quem está dando o primeiro passo. São dicas que deram certo para o empreendedor de sucesso exatamente porque outras questões menores já estavam resolvidas para ele devido ao fracasso anterior. Coisas essas que “passam batido” nas matérias. Coisas essas que eu queria ter lido quando comecei. Por isso, começo a semana compartilhando o meu case de fracasso.

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Para abordar todos os meus erros na aventura da “primeira marca” seria necessário escrever um livro. Já comecei errado, optando pela construção de um negócio com uma gama muito alta de produtos que, além disso, eram produtos sazonais: moda praia no verão (com complementos casuais) e comfort wear para as estações frias. Uma escolha baseada no “falta biquíni no verão” / “falta comfort wear no inverno” e nada mais, provando que tão importante quanto ouvir o consumidor/lojista é usar o conhecimento profissional e a pesquisa de mercado para filtrar e adaptar a demanda à realidade de um novo negócio. Esse é meu primeiro conselho.

• Faça um orçamento real: O que você consegue “abraçar”?

Ao decidir abrir uma marca, contei com o famoso “paitrocínio”. Embora meu pai estivesse disposto a me ajudar, havia uma limitação no orçamento: Eu tinha X reais para tirar meu negócio do papel. Em um primeiro momento, pareceu um “dinheirão”; pois com esse valor era possível cobrir o custo dos tecidos, aviamentos, metais para detalhes, plaquinhas personalizadas, confecção (terceirizada), embalagens, criação de logomarca, etiquetas, tags e… só.

Parece muita coisa mas ainda faltava pensar em marketing, em material de divulgação, nos canais de venda (para participar de feiras, eu precisava ter dinheiro em caixa), no custo de logística para entrega desses produtos que, aliás, eu pretendia vender para lojas sem ter estrutura para isso (mais um erro).

Também faltou considerar que uma coleção não é vendida inteira em uma estação, e que não se pode contar com o dinheiro da venda da primeira para produzir a segunda. Ou seja, é necessário possuir recursos para as próximas coleções para manter a marca no mercado (falarei mais sobre isso no segundo tópico).

O dinheiro não era pouco. Mas minhas ideias, o público que eu visava, as compras que fiz para dar início à marca e a quantidade que decidi produzir eram megalomaníacas! Irrisórias para uma indústria estruturada, mas totalmente “fora da casinha” para uma marca iniciante nas minhas condições. Eu queria, como citei no parágrafo anterior, vender no atacado. E quando penso nisso agradeço à Deus pelo fato da marca não ter funcionado “de cara”. Meu problema teria sido muito maior caso lojistas se interessassem pelo meu produto, pois eu não teria condições de produzi-los e entregá-los.

É importante tomar decisões a partir de um orçamento, e não fazer escolhas precipitadas para depois ficar correndo atrás de mais e mais recursos e empréstimos para sustentá-las. Na prática, eu poderia ter economizado em determinados itens para poder gastar no que era essencial (material de qualidade, por exemplo). Li, nos cases de sucesso, que uma marca precisa de uma embalagem inovadora para se destacar. Concordo. Porém, é preciso pensar se, na primeira coleção, seu orçamento permite encomendar uma embalagem com o melhor fornecedor do mercado que exige uma quantidade mínima alta e adiciona um frete alto para entrega (pois produz fora da cidade). Eu fiz isso. Por preguiça de encontrar alternativas locais, colocar a cabeça para funcionar e criar, talvez manualmente, uma embalagem diferenciada dentro do meu orçamento. É possível!

Não me arrependo de ter investido, por exemplo, no material utilizado pelas melhores marcas de moda praia do Brasil para confeccionar meus biquínis. Esse era um alto investimento que realmente valia a pena, a qualidade  e a durabilidade do produto são primordiais. Mas o que quero mostrar com o exemplo da embalagem é que cada investimento deve ser extremamente cauteloso. Cada R$ 1,50 faz diferença.

• Planejamento à longo prazo

Com o valor que eu tinha na conta era possível colocar no mercado minha primeira coleção. E só. Erro detected.

Não conheço nenhuma marca que abriu as portas e vendeu todo seu estoque para financiar a próxima coleção. É preciso possuir recursos financeiros para manter seu negócio funcionando por mais tempo, sem contar 100% com o retorno das vendas da primeira produção. Parece óbvio mas vejo esse erro acontecendo com frequência.

Volto ao tópico anterior e à necessidade de planejar-se a partir do seu orçamento real. No meu caso, se ao invés de produzir x peças logo de cara resolvesse produzir x/3 em um primeiro momento, mais um pouco em um segundo lançamento e assim por diante, com controle financeiro e monitoramento do mercado (O que as pessoas estão gostando? O que encalhou? Quais são as críticas? O que minhas clientes estão pedindo?), minhas chances de sucesso seriam muito maiores.

• Menos variedade, mais qualidade

Produzir vinte modelos diferentes, sem nenhum teste prévio, é muito arriscado. Nos cases de sucesso, li que era necessário oferecer uma gama alta de produtos para dar certo. Mas esse foi um dos fatores que fez minha marca dar errado.

“Se você quer vender 3 mil reais por mês, tenha um estoque com ao menos o triplo desse valor” (foi uma das coisas que eu li). Às vezes não! Quando não temos experiência no mercado, e nem dinheiro para arriscar na “mesa de jogo” contando com a sorte, investir alto em produtos que ainda não foram testados pelo consumidor (e até pelo próprio empresário) é uma péssima ideia.

Isso tudo sem citar a questão da moda responsável, e a realidade de uma empresa pequena muitas vezes composta por você e você mesmo. Não é fácil gerenciar uma produção. Mesmo quando terceirizada (meu caso), o criador precisa estar presente olhando o acabamento, conferindo os tamanhos, monitorando o aproveitamento da matéria-prima (a confecção não está preocupada como seu dinheiro, e eu senti isso na pele, ou melhor, no bolso) e muitas outras coisas. Reflita: Você consegue “dar conta” de grades e mais grades de modelos diferentes de produto, além de desenhar, comprar material, pensar no material gráfico, atualizar as redes sociais, prospectar clientes (…)?

Esses e muitos outros detalhes atropelados pela empolgação do sonho do negócio próprio fez com que ele se transformasse em algo bem amargo. E a culpa foi minha. Não foi do cliente, nem da confecção, nem da crise. A sabedoria foi pegar esse limão e fazer uma limonada, aproveitando o conhecimento adquirido em meus trabalhos posteriores ainda que em outras áreas da Moda.

Ninguém está livre de “dar errado” (e não há vergonha nenhuma nisso). Mesmo com todos os cuidados, há fatores externos que podem colocar a perder um negócio estruturado; mas o planejamento, a cautela e a humildade diminuem consideravelmente as chances de fracasso. Com esse texto espero que, de alguma forma, meus limões contribuam com a sua receita. Ainda tenho muitos para espremer aqui.

(Imagem:  tsuacctnt via Visualhunt)

Comportamento, Moda, Moda consciente

O quanto seu look sabe sobre você?

Descobrir seu estilo não é fácil. Mantê-lo e repaginá-lo com o passar do tempo também não. Mudanças em nossas vidas e rotinas, sejam relacionadas a um novo estado civil, mudança de cargo, empresa ou ingresso no mercado de trabalho, pedem uma nova versão de nós mesmas. Mudar renova as energias e se a roupa fala sobre quem somos é interessante que o que vestimos amadureça ao lado do nosso “discurso”.

Atualizar o guarda-roupa é tão importante quanto mapear seu estilo, e não significa gastar muito a cada mudança de estação: quanto mais coerente e “bem resolvido” ele é, menos irá gastar. A quantidade de informação de moda a qual estamos expostos o tempo todo pode levar ao consumismo e à velha sensação de não ter nada para vestir mesmo quando o guarda-roupa está abarrotado. E é por isso que divido por aqui, utilizando exemplos pessoais, alguns truques para reformatar seu estilo sem descartar tudo ou perdê-lo no meio do caminho.

Vale deixar claro que construí essa publicação usando o meu guarda-roupa como exemplo, e que, peças que cito como itens que já não cabem no meu estilo podem perfeitamente representar o seu. Essa publicação não tem como objetivo criar listas de certo e errado ou afirmar quais peças pode-se ou não usar em cada idade.

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Experimente novos materiais, detalhes e composições.

• Novos materiais

Manter ideias que funcionam em seu dia a dia com novos materiais é a primeira dica para reformular e amadurecer seu estilo. As t-shirts, por exemplo, trazem para o visual um toque descontraído e atual com o qual me identifico. Porém, as estampas das camisetas de malha dos meus 18 anos já não combinam com a calça de alfaiataria que uso agora, ao mesmo tempo em que passam uma imagem juvenil demais para o meu momento quando as combino com tênis. Trocar desenhos com cores contrastantes por estampas onde predominam as cores neutras e investir em peças confeccionadas em materiais mais nobres ao invés da tradicional t-shirt de malha foi uma das minhas “decisões de moda”.

A escolha dos tecidos tende a evoluir com o estilo que, com observação, estudo e o passar dos anos, fica cada vez mais sólido. A partir do autoconhecimento e da consciência sobre o consumo, vale investir em peças chave (do seu estilo pessoal, e não daquela lista na revista) com materiais melhores, mesmo que mais caros. Essas peças, com maior vida útil, estarão para sempre em nosso closet. Experimente trocar três ou quatro blusas de fio sintético por um cardigã 100% lã, por exemplo.

• Cores que combinam, shapes que valorizam

Não foi uma só vez que comprei peças por encantar-me com uma de suas características sem pensar nas demais. Um bom exemplo é uma saia com uma estampa que “me representa” mas com uma modelagem que não valoriza o que desejo destacar. Além disso, desapeguei de itens que, embora falassem sobre o meu estilo, tinham cores que não combinavam com o meu guarda-roupa como um todo, e que por isso passaram um bom tempo sem uso.

Nesses casos outra alternativa é partir para a costureira mais próxima e ajustar a peça. Encurtar uma barra, adicionar uma faixa (ou tirar) na cintura de um vestido ou transformar uma calça cuja modelagem não lhe agrada, mas tem um tecido excelente, em um short, são algumas ideias. Mas cuidado! Conte com a ajuda de um profissional experiente para orientá-la sobre as transformações possíveis: infelizmente nem todos os materiais ou modelagens podem ser transformados.

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Ajuste o que fica, desapegue do que não faz mais sentido.

• Mesmas referências, novas escolhas

Referências retrô são bastante presentes tanto no meu guarda-roupa como na decoração da minha casa. Aos 16, lembro-me que tinha quatro ou cinco blusas, em cores diferentes, que uniam gola redonda, mangas bufantes e poá. Elas continuam servindo no tamanho, mas chegou um momento em que essas peças não dizem mais sobre quem eu sou. Em um nova fase, mantenho a essência das inspirações de forma mais sutil: as bolinhas estão em peças com modelagem assimétrica e as flores pequenas saíram das saias rodadas para vestidos retos estampados com fundo neutro, por exemplo.

Criar novas combinações para peças antigas também vale quando o item ainda diz sobre você: A calça de onça que era combinada a uma sapatilha em tom pastel agora anda por aí com um tênis preto, por exemplo, para uma imagem mais moderna e que une referências antigas com novos “códigos” e tendências que refletem o que sou hoje. A sapatilha também não precisa ir embora, e pode ganhar um novo look para completar.

(Imagens: internet)

+ | Quer ajuda para repensar e/ou amadurecer seu estilo? Confira a série de posts Aprimorando o estilo (o primeiro é esse aqui) e participe do workshop Estilo é pessoal.

Moda, Moda consciente

Não saia por aí fazendo roupa

Gosto muito quando são anunciados eventos de Moda em Curitiba. Convido profissionais que conheço e gosto de divulgar aos amigos, de dentro e de fora da área, marcas e produtos interessantes produzidos aqui.

Mais que gostar de itens diferenciados feitos com matéria prima de qualidade e baixa tiragem, há pouco menos de um ano optei por conscientizar meu guarda-roupa evitando produtos de fast fashion. A ideia de substituir produtos com procedência duvidosa pela moda ética é boa (e continuo a favor dela), mas, além de reservar um espaço para discursar sobre o quão mal as grandes redes fazem para o planeta e para as pessoas, nos encontros entre amigas também abri a cabeça para ouvir os argumentos que as levam a optar pelas lojas de departamentos.

As pessoas estão sim dispostas a pagar mais por um produto produzido localmente, desde que ele tenha, além de ética, a qualidade e o diferencial que se espera. Diversas marcas nacionais e locais estão vendendo “Forever 21 à preço de Chanel”, com bem disse a mãe de uma amiga. Tecidos ruins, acabamentos mal feitos, despreocupação com a modelagem. Não é a toa que, ao ministrar um workshop sobre negócios de Moda em Curitiba no ano passado, o consultor Reginaldo Fonseca, da Cia. Paulista de Moda, avaliou alguns novos criadores nacionais como “preguiçosos” (sem citar nomes, obviamente). Não é exagero. E preciso concordar com eles. E explico o porquê com dois exemplos práticos que vivenciei em Curitiba recentemente.

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Ano passado, interessada em visitar um evento de marcas locais, fui até o local logo no primeiro dia (eram três) e cedo (meia hora após o horário de abertura divulgado). Quando cheguei ao endereço, senti-me um pouco intimidada para entrar: não havia nenhum tipo de comunicação na porta e um silêncio lá dentro. Entrei. E avistei um único criador de Moda atendendo para uma outra marca (“a fulana ainda não chegou”), além da sua própria, três pequenos espaços com produtos e um espaço, destinado a uma marca de acessórios, vazio. “O pessoal dessa marca ainda não chegou, acho que eles vem mais tarde”.

Gente! Vem cá! Papo de amiga! Que amadorismo é esse? A partir do momento que se propõe a participar de um evento, estar lá antes do horário de início (para limpar, organizar, dobrar, acariciar, “dar um cheiro” nos seus produtos com todo aquele amor que te move) é o MÍNIMO que se espera de um profissional. Duas da tarde é cedo demais? Não tem público para esse horário? Então NÃO ANUNCIE um evento para esse horário!!! Não é possível que alguém “não tenha pensado nisso antes”!

Além disso, é inadmissível que alguém que quer divulgar e apresentar sua marca aos consumidores, seja ela nova ou já tradicional, grande ou pequena, deixe o estande na mão de outra pessoa durante um evento (du-ran-te, porque eu não pulei o muro fora do horário de funcionamento). Na hora de fazer o discurso que justifica os preços mais altos que o das peças made in China em suas redes sociais todos estão afiadíssimos. Mas quando o cliente chega ao espaço da sua marca, interessado em comprar e saber mais sobre o produto, o criador não está lá. E aí? “Como faz”? Isso sem contar o desprazer que é chegar em um estande de marca local e ter que elaborar uma entrevista para descobrir o produto, pois o criador permanece sentado entretido em seu bordado. Galera, no estande tem que atender!!!

Qualidade é um conjunto de fatores: matéria-prima, acabamento, comunicação da marca, atendimento… E é justamente no atendimento que o criador passará por um processo fundamental para a construção de uma marca com qualidade e sucesso comercial: OUVIR seu público. O que ele procura, o que ele gosta, o que ele achou bonito, o que ele criticou. Por mais brilhante e criativo que seja, um designer não constrói uma moda plus size eficiente quando nega o argumento de uma mulher plus size (coisa que eu vi acontecer em workshop de moda em Curitiba).

Esses e outros fatos sempre me deixaram bastante pensativa sobre como os criadores estão pensando em construindo suas marcas. E essa semana, em mais um evento de Moda (eis o segundo exemplo), acho que descobri um dos motivos.

Em um debate com convidados para falar de Moda, com muitos estudantes entre os presentes, uma convidada incentivou a criação de novas marcas. Ótimo, concordo. Mas o discurso que veio a seguir é, para mim, bastante irresponsável. Para ela, os criadores locais estão “muito tímidos”, e se você tem vontade fazer “vai lá e faz”! Quer fazer camisetas? “Pegue um empréstimo” e faça logo uma grande variedade de peças, “faça várias estampas, várias modelagens”, “faz curta, faz comprida, faz larga”. E é assim que os criadores estão pensando, ou melhor, NÃO PENSANDO suas marcas. É o que os estudantes estão ouvindo. E fazendo.

Respeito diferentes formas de pensar. Mas registro aqui meu choque e minha opinião radicalmente conta essa fala. Já fui dona de marca, de loja e já estive nos bastidores de uma das maiores varejistas de moda do país. E meu conselho para quem deseja construir uma marca de Moda competitiva, consistente e de sucesso resume-se a um só: Não saia por aí fazendo roupa!

É preciso PENSAR uma marca de Moda. ESTUDAR. Pensar de novo. AVALIAR o orçamento (inicial e para os próximos passos). Reavaliar o orçamento. Estudar mais um pouco. Fazer uma peça piloto. Lançar a peça. SENTIR o mercado. OUVIR o consumidor. Repensar a marca. Estudar de novo. Repensar modelagem. Replicar os acertos. Ajustar os erros. Construir a identidade da marca. Unir o conceito e estilo do criador ao anseio do público (você faz para o outro, e suas roupas precisam ir além do seu “gosto”). Estudar. Estudar mais (a vida inteira). Fazer mais um pouco. Aprimorar detalhes. Ouvir o consumidor mais uma vez (e nunca parar de ouvir). Pensar na etiqueta. Na embalagem. Nas imagens de divulgação. Estar em eventos como consumidor. Participar do seu primeiro evento (participar, não apenas colocar seus produtos lá). Ouvir. Estudar os resultados. Aumentar as variações do produto. Repensar. (Finalizo o parágrafo aqui, mas na prática isso não deve acabar nunca).

Não é timidez. É responsabilidade! Não apenas com a sua marca, o seu nome como profissional e com os recursos financeiros (se sobra na sua conta bancária, vale refletir sobre a situação de muitos outros que estão ao seu lado). Mas também com os recursos naturais do planeta! Imagine como aumentaremos o desperdício e o descarte de peças se todo criador “sair fazendo” grades enormes de roupas sem saber se vão funcionar comercialmente? Sem parâmetros de aceitação, sem testar na “vida real” as primeiras ideias e desenvolvê-las com consciência? A moda responsável acaba sem nem começar.

(Imagem: goMainstream via Visualhunt)

Moda

Detalhes de passarela para o outono/inverno

Das passarelas internacionais, inspirações para investir nos detalhes e deixar o visual de inverno ainda mais interessante não faltam. Com a gola alta como um dos hits da temporada, o styling da Alberta Ferretti combina gola leve (e com babados) com casaco pesado com o colarinho mais alto, enquanto na Antonio Marras a combinação de gola de tricô com gola de pele mistura texturas e referências.

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Alberta Ferretti fall 2017
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Antonio Marras fall 2017

E por falar em pele, a gola de pele, que rouba a atenção por si só, aparece em uma composição interessante que mistura gola alta de malha, colarinho de alfaiataria e tricô no desfile da Nº 21.

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Nº 21 fall 2017

As luvas podem ser o ponto focal do look de inverno: o visual p&b da Anteprima ganhou luvas coloridas, e na Bottega Veneta o que chama a atenção é a mistura de texturas do couro das luvas e da carteira. Luvas longas, o acessório perfeito para visuais sofisticados, ficaram ainda mais “ricas” quando combinadas a braceletes com pedras na passarela da Elisabetta Franchi. Gostou? Cuidado! O detalhe não funciona com qualquer look, nem em qualquer ambiente ou horário.

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Anteprima fall 2017
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Bottega Veneta fall 2017
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Elisabetta Franchi fall 2017

O veludo está em alta, e uma faixa nesse material na cintura, ou no cós da calça, pode atualizar peças que já tem no armário; assim como as meias estampadas ou texturizadas (como o modelo arrastão) dão um up no visual aparecendo sob os recortes da calça, sob uma fenda ou entre a barra mais curta da calça e sapatos fechados. A dupla meia de poá com calçado rústico, da Bottega Veneta, é uma boa maneira de contrastar estilos de forma sutil.

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Giorgio Armani fall 2017
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Bottega Veneta fall 2017

(Imagens: divulgação)

Comportamento, Marketing & VM, Moda, Moda consciente

Consumo consciente? Fast fashion se destaca em momento de crise

Essa semana o site O Negócio Do Varejo publicou uma matéria sobre o comportamento de consumo no período de recessão. Os dados compartilhados pelo O Negócio do Varejo mostram o que o consumidor de produtos do vestuário está buscando, e como esses anseios refletem na escolha do canal de compra. O aumento da relevância das lojas de departamento, na contramão dos movimentos de slow fashion, é justificada por essas preferências.

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Com relação ao design dos produtos o consumidor mostra-se atraído por peças “jovens, despojadas e diferentes”: “Em 2014, 36% dos consumidores informaram que, na última compra, haviam adquirido peças básicas, 17%, jovens, 13%, despojadas e 10%, diferentes. Neste ano, o percentual que se refere a roupas básicas caiu para 30%, subindo os de roupas jovens (27%), despojadas (18%) e diferentes (15%)”. Inovação e diferenciação são apontadas como características que atraem o consumidor, o que os levaria a optar pelas redes de fast fashion e suas araras sempre repletas de novidades.

Em uma análise pessoal, quando fala-se em inovação e diferenciação como pontos importantes na escolha de um item de vestuário, entendo que as lojas de departamento representam o oposto. Além de comercializar produtos com design pouco diferenciado, tanto no ponto de vista estético como em relação às coleções anteriores e às outras redes, os produtos em larga escala não atendem à necessidade de diferenciação. Porém, é importante interpretar esse dado como uma menor preocupação com a qualidade dos produtos: com o fator “novidade” como prioridade no processo de decisão de compra, é justificável o crescimento do fast fashion onde por um preço mais baixo é possível adquirir uma peça com durabilidade suficiente, não necessariamente longa, para ser substituída em breve por um novo modelo.

A conveniência é outro fator que faz com que as lojas de departamento saiam na frente. Segundo Edmundo Lima, diretor executivo da ABVTEX (Associação Brasileira do Varejo Têxtil), na matéria citada, “o fato de as redes terem produtos para toda a família e para a casa é conveniente para os clientes”. Atreladas à conveniência, a informação e a experiência aparecem como itens observados pelo consumidor. Ações em redes sociais com sugestões de looks, por exemplo, e o “encantamento do espaço da loja” estão cada vez mais relevantes. Nesse aspecto, o alto investimento das redes de departamento aumenta sua vantagem competitiva com relação aos pequenos negócios.

Para fazer frente à isso, a dica do consultor de varejo Michel Cutait, é “melhorar o atendimento, o relacionamento com os clientes e criar ambientes capazes de atrair o cliente e concretizar a venda”. Além disso, acrescento a importância do cuidado com os detalhes, como limpeza e manutenção da estrutura do ponto de venda, e da busca por informação de Moda para reinventar o visual do ponto de venda todos os dias através de novos formatos de exposição e de um styling atraente.

(Imagem: Visualhunt)

+ | Texto de minha autoria originalmente publicado no blog da Cena. Entre em contato para informações sobre produção de moda, styling e consultoria de visual merchandising para empresas de Moda.