Comportamento, Moda

De fora do Brasil

Ah, os importados! Em diferentes situações da vida, eles aparecem para jogar na nossa cara seu valor. “Você não tem interesse em vender essas roupas? Mas elas são de fora do Brasil”! “Nossa, aquela camiseta tá mais cara que a outra que comprei fora do Brasil”. “Claro que a qualidade é ótima, é de fora do Brasil”.

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Que muitas coisas funcionam melhor lá pra cima ou do outro lado do oceano nós sabemos. Mas devo dizer que a terra do Tio Sam e a nossa querida “Euro” também tem um montão de porcarias à venda. Até porque muitos produtos de moda “da Itália”, “da França”, “da Inglaterra” são na verdade de países asiáticos e poderiam estar no mesmo container que desembarcou uma hora dessas aqui em terras tupiniquins.

A blusinha da “Forever 21 dos Estados Unidos” é a mesma blusinha da Forever 21 do Park Shopping Barigui. Sinto informar. E mesmo quando made in USA, nacionalidade não garante qualidade: tem produto ruim feito aqui, tem produto ruim feito lá. É. E não se assuste quando encontrar um artesanato nacional mais caro do que a roupa importada, pois o artesanato nacional muitas vezes vale mais mesmo. Sim. Com certeza. Não tenha dúvida.

Gostaria de conhecer o cidadão que espalhou que artesanato deve ser mais barato que produto produzido em série. Porque isso é um equívoco dos grandes. Basta pensar no tempo que demora para ser produzida uma peça feita à mão, e no custo (mais alto) de produtos confeccionados em menor escala. Tudo isso para dizer que a avaliação de um produto vai muito além do local onde foi confeccionado ou adquirido. E que “lá fora” também tem gato sendo vendido por lebre (seja ele chinês, francês ou norte americano).

Portanto, chega de se enganar (ou tentar enganar os outros) com a etiqueta premium imaginária da marca “de fora de Brasil”. Garanto que “dentro do Brasil” tem muita coisa tão legal quanto, e até melhor que.

(Imagem: reprodução)

Comportamento, Moda

Slow tudo

Sempre que leio, escrevo ou converso sobre a necessidade de mudarmos nossos hábitos de consumo de moda, bate uma tristeza. Sinto que esse é um daqueles casos em que a teoria vai bem, mas a prática nem tanto. O fast fashion cresce apoiado nos preços baixos e na facilidade de pagamento, mesmo quando a gente argumenta que basta comprar menos para comprar melhor. E que não precisa ter tanta roupa.

No texto Fast fashion, o plástico e a bolha (leia aqui), publicado em setembro do ano passado, comentei sobre a quantidade de lixo plástico que uma das empresas em que trabalhei produzia; mas principalmente sobre o impacto da escolha de quem consome. Em mais uma incoerência da vida, os que preferem permanecer na bolha costumam ser os mesmos que reclamam que a moda está chata, sem novidades, e que “a indústria da moda” faz mal ao mundo.

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O estilista Ronaldo Fraga falou recentemente ao site da revista Elle sobre a moda ser “o espelho do tempo”: “Nessa loucura que a gente tá vivendo, tem gente dizendo que a moda tá terrível hoje. Não tá, ela tá a cara do tempo”. Sim! A moda é comportamento. E só o comportamento é capaz de mudar a moda. Não apenas o comportamento de consumo, mas a forma como levamos a vida. Repare como a busca por novidades o tempo todo, e a vontade de ter muito, fazer muito, mostrar muito é presente no trabalho, na vida social, nas relações…

Keep calm! Diminuir a velocidade, em muitos sentidos, mudou minha rotina, qualidade de vida e fez muito bem à minha sanidade mental (importantíssimo). É claro que existem urgências, mas a maioria das pressões não precisam ser aceitas: minhas pesquisas empíricas comprovaram que 98% do que dizem ser “urgente” pode esperar.

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Semana passada assisti um vídeo da Jout Jout onde ela conta que ao começar a fazer as coisas mais devagar percebeu que sobrava mais tempo, e nada poderia traduzir melhor o que quero dizer aqui. Muitos dirão o contrário, mas o princípio da rebeldia (de desacelerar em pleno 2017) é fazer o oposto.

Fazer sem pressa, com cuidado, prestando atenção e valorizando cada detalhe e processo (material e humano) são alguns dos fundamentos do slow fashion que servem para ser slow em tudo. Permitir-se respirar ar puro no meio do dia, desligar o celular para almoçar e aproveitar momentos de ócio é importante. Na vida slow, a gente tem tempo de parar para pensar. E é nesse tempo que o pontapé inicial para consumir consciente, entender qualidade x quantidade, fica muito claro. Não custa tentar!

(Fotos: Hans Neumann / Styling: Melissa Levy)

+ | As imagens que ilustram o post são do editorial A Study on Sleep, da Crash Magazine (maio de 2017). Uma das liberdades que assumir o slow me deu foi contar pra todo mundo que, se possível, prefiro agendar o job para o período da tarde. E que isso não tem nada a ver com preguiça de trabalhar.

O vídeo da Jout Jout, acima citado (e linkado), também fala sobre foco e o conceito controverso dessa palavra. Mais uma vez, me representa.

Comportamento, Livros, Moda

Organize e otimize

Ainda encantada com as mensagens e ensinamentos do livro A Mágica da Arrumação, compartilho por aqui dicas práticas da Marie Kondo para organizar (e consequentemente otimizar) o closet. Em um breve resumo para quem não conhece o livro, e o método KonMari de organizar, Marie Kondo começa sua “mágica” pelo descarte e revela (e incentiva) a relação emocional com o que temos tanto para conservar como para descartar o que já nos fez feliz e pode servir ao outro, mantendo-se vivo ao invés de permanecer encostado no guarda-roupa.

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Para descobrir o que ainda faz sentido para você (o que serve), a dica é colocar todas as suas roupas em cima da cama e olhar para elas “como se estivesse selecionando itens na vitrine da sua loja favorita“. Começar pelos itens que não estão em uso atualmente, ou seja, as peças de outras estações, segundo Marie facilita o processo: “como roupas de outras estações não são necessárias de imediato é mais fácil avaliar se trazem alegria ou não“.

Outra boa dica prática é uma ordem que coloco em prática no meu guarda-roupa: organizar as peças das pesadas para as leves, das claras para as escuras. Pode parecer bobagem, mas a organização visual (e aqui também entra, por minha conta, a padronização dos cabides) contribui para a visibilidade dos itens: nenhuma peça leve ficará “escondida” entre itens pesados, e as roupas claras não se perdem em meio às escuras.

Marie Kondo acredita que criar categorias como camisas de algodão, camisas de seda e blusas de malha, por exemplo, é mais eficiente do que separar as peças por ocasião de uso. Entendendo que muitos itens podem servir tanto a uma quanto a outra ocasião, concordo com o formato proposto que também contribui para não deixar itens esportivos bacanas, e que podem compor visuais casuais, por exemplo, esquecidos na “gaveta de academia”. Além disso, o ideal é ter todas às peças que forem possíveis à vista (ao invés de colocar itens de outra estação fora do campo de visão); afinal, vivemos com variações climáticas e ambientes que, com ar condicionado, pedem um “casaquinho” mesmo em dias de sol.

Acrescentando uma experiência pessoal, avalio que o descarte contribui para a assertividade do visual. Já saí de casa com a roupa errada por insistir em usar uma peça encostada pelo simples fato de não deixá-la encostada, mesmo quando já não representava mais o meu estilo (de vida e de ser). Para quem, como eu, escolhe o look com pressa, manter só o que realmente faz sentido diminui muito as chances de errar no visual.

Não importa onde guarde suas peças, uma regra comum é: de vez em quando, abra as gavetas ou portas dos armários para deixar entrar um pouco de luz e ar. Passe as mãos peças roupas. Faça com que saibam que você se importa com elas e que anseia por usá-las novamente. Essa comunicação mantém as peças vibrantes e faz o relacionamento de vocês durar mais“. (Marie Kondo)

(Imagem:  jamelah via Visual Hunt)

Comportamento, Moda

Serve?

Festa à vista e pouca vontade, e tempo, de procurar um vestido. Aproveito para puxar os cabides do fundo do armário onde moram, já a algum tempo, cerca de oito cocktail dresses. Nenhum serve.

Engordei? Não. Emagreci? Também não. Os vestidos continuam “entrando”, mas não servem. Um dos maiores “erros de moda” é insistir em uma peça que não serve. Não é porque o zíper subiu que a roupa serve. Entrar é diferente de servir. E o que vestimos hoje, precisa servir hoje. Ao nosso corpo, ao nosso estilo de vida e ao nosso propósito (isso para não entrar no quesito ocasião).

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Fisicamente uma peça de roupa que requer esforço para vestir, mesmo que “entre”, não serve. Compare o que vê no espelho com o que viu no cabide: o modelo parece o mesmo? Quando a modelagem é reta no cabide, mas justa no corpo: não serve. Quando o decote é estreito no cabide e amplo no corpo: não serve. Ninguém precisa “entrar” em um vestido, é o vestido que deve “entrar” em quem veste de forma confortável  e harmoniosa; e mais que encontrar a roupa que lhe serve, em tamanho e modelagem, avalie se ela ajusta-se à sua rotina e essência.

Recentemente li o livro A Mágica da Arrumação, da Marie Kondo (sobre o qual comecei a falar aqui), e a principal mensagem da autora, ao falar sobre descartar o que não usamos, é clara e eficiente: essa roupa (ou objeto) lhe traz alegria? (Traz, no presente). Essa é a máxima que levo a partir de agora na hora de me vestir. Quando o vestido cabe fisicamente mas não me traz alegria, ele não serve. Não transmite o que sinto hoje, não é confortável para os ambientes que frequento (diferentes daqueles que costumava ir a anos atrás), não “me representa” mais? Não serve.

Existem alternativas para o descarte. Algumas peças podem ser reformuladas ou ganhar novos complementos. Mas independente do destino que decidir dar a cada uma de suas roupas, esteja certa de que o melhor look é sempre aquele que lhe serve. E que só “entrar” não serve.

(Imagem: Visual Hunt)

Comportamento, Moda, Negócios

Reclame aí

Já ensaiei escrever sobre esse assunto por aqui algumas vezes. Mas foi um comentário “se não gosta simplesmente não use” lido há cinco minutos que impulsionou, finalmente, o texto. Precisamos falar sobre críticas!

Sabe aquela frase que diz para falarmos apenas de coisas boas, ou aquela ideia de que se for pra criticar é melhor ficar calado? Nunca concordei. A falta de críticas pode fazer tão mal a uma marca (ou a uma pessoa) quanto o excesso delas. Por experiência própria, os trabalhos e as pessoas que mais me fizeram crescer como profissional não foram os (as) que me deram 100% de aprovação. Da mesma forma, atribuo o fato de termos tantos serviços e marcas ruins no mercado a essa cultura (?) de não criticar.

Penso que muitos produtos ruins circulam por aí não por falta de cuidado de quem os faz, mas por falta de feedback de quem os consome. Cansei de ouvir comentários negativos sobre marcas “pelas costas”, vindo de pessoas que não economizavam elogios ao dono da empresa quando na frente dele (mas, obviamente, nunca mais compraram/consumiram). O produto perde a firmeza depois de lavado? A barra descosturou no segundo dia? Fale! O contrário não é justo com nenhum dos lados.

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Me entristeceria saber que estou repetindo um erro já notado por quem consumiu meu produto e ninguém fez o favor de “me dar um toque”. Da mesma forma não entendo a lógica que faz as pessoas ficarem raivosas quando criticadas, e também não sei quem disse a elas que uma crítica as descredibiliza como profissionais. Ninguém é pior por errar. Com o perdão do clichê, errar só nos faz melhores. Além de significar que estamos fazendo algo (e não inertes) e sendo notados, contribui para o aperfeiçoamento do trabalho. O olhar do outro é precioso.

Faço uso desse espaço para deixar claro que o tal “não gostou é só não comprar” não se aplica por aqui. Quero saber o motivo de não ter agradado, pois só assim posso aprimorar meu produto (ou serviço) para, quem sabe, fazê-lo “comprar” da próxima vez. Se ainda assim não funcionar, certamente apresentei uma segunda versão melhor que a primeira.

Como profissional, aceite, avalie e absorva as críticas. Como consumidor, reclame aí! Contribua para um mercado melhor, onde produtos e serviços realmente bons são os que sobrevivem (e não aqueles cheios de elogios comprados) e ajude quem admira a estar entre eles.

(Imagem:Visual Hunt)

Comportamento, Livros, Moda

Peça perdão às suas meias

Você já fez algo que acreditava ser bom e depois percebeu que sua atitude magoou alguém? Isso é mais ou menos o que fazemos com as nossas meias“. A frase da especialista em organização Marie Kondo no livro A Mágica da Arrumação é seguida de um relato. Durante o trabalho de organização na casa de uma cliente, Marie Kondo deparou-se com as tradicionais bolotas feitas para enrolar e guardar meias.

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Apontei para as bolotas de meias e perguntei: “Olhe bem para isso. Elas deveriam estar descansando. Você acha mesmo que elas conseguem descansar assim”? É isso mesmo. As meias e meias-calças guardadas na gaveta estão de férias. Levam uma surra no trabalho do dia a dia, aguentando a pressão e a fricção para proteger seus preciosos pés. O tempo que passam no armário é a única chance que elas tem de descansar. Mas se estiverem enroladas como bolas ou com um nó no meio ficarão em estado permanente de tensão, com o tecido esticado e o elástico distendido. Enroladas assim, rolam e batem umas nas outras toda vez que se abre e fecha a gaveta. Aquelas que têm a infelicidade de serem empurradas para o fundo da gaveta geralmente são esquecidas por tanto tempo que o elástico afrouxa sem possibilidade de recuperação. Quando o dono enfim repara nelas já é tarde demais e são renegadas à lixeira. Pode haver tratamento pior“?

O trecho acima ilustra a linda relação de Marie Kondo com as roupas e objetos. Muito além de técnicas de organização, o método KonMari nos motiva a trabalhar o desapego, essencial para manter a casa em ordem, de forma pessoal, e revela como o vínculo emocional com os objetos não impede o descarte (muito pelo contrário).

Mais que isso, o livro A Mágica de Arrumação é repleto de ensinamentos sobre como nossa casa fala sobre nós e sobre como olhar para esse entorno com carinho é transformador. Certamente esse livro ainda renderá bastante assunto por aqui, mas, por ora deixo dois conselhos: peça perdão às suas meias e passe a ver o que veste como mais que pedaços de tecido. Além de cuidar melhor do que tem, isso com certeza irá redirecionar as novas escolhas.

• Da relação com o que visto…

Nasceram as golas da primeira coleção de slow fashion que leva meu nome. A ideia, entre outras, é instigar a interação com o acessório: vista, tire, mude o modo de usar, coloque sem pensar e descubra uma nova possibilidade. Toque, sinta a textura e use a seu modo, transmitindo sua energia e humor para aquilo que veste.

Com três variações de cores em coleção limitada, conto mais sobre esse novo produto na aba ETIQUETA (clique para acessar). As peças são produzidas artesanalmente sob demanda.

(Imagem: Visual Hunt)

Comportamento, Moda

Roupa objetiva

A utilidade de uma mensagem está condicionada ao seu entendimento. Não só no campo da linguagem. Obras de arte só são apreciadas quando fazem sentido para quem vê. Objetos só são vendidos quando mostram-se vantajosos. Com o que vestimos não poderia ser diferente.

Que “a roupa fala” já sabemos. E que essa voz afeta nossa carreira e é capaz de direcionar relações sociais também. Porém, mais que auto compreender-se  e saber traduzir tal essência na vestimenta, a mensagem precisa ser entendida pelo outro. Para isso, é necessário transmitir, através dessa “carta de apresentação” formada por tecidos e acessórios (e cabelo e maquiagem e postura), um discurso claro.

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Uma comunicação visual persuasiva não é necessariamente minimalista, mas capaz de encaixar elementos de maneira coerente como um texto com início, meio e fim que traz frases diretas e sem duplo sentido, mesmo ao unir termos coloquiais e técnicos. Na  série documental Abstract: The Art of Design, o arquiteto dinamarquês Bjarke Ingels ilustra a importância da “estética fácil” quando explica, sobre seu trabalho, que “por mais cuidadosamente pensados, refletidos, discutidos, projetados e testados” sejam os projetos “quando você os vê, precisam parecer simples“.

Na moda, a nova-iorquina Iris  Apfel é um bom exemplo:  seus visuais repletos de referências e elementos impactantes anunciam, logo de cara, quem é Iris. Somos até capazes de  intuir de onde ela vem, o que e como ela faz, e nessa análise é possível perceber a quantidade de barreiras que podem ser quebradas através de uma produção cujo resultado final é acessível.

Leve a reflexão para a frente do espelho, desafie-se a explicar o seu próprio visual e avalie se a tradução corresponde ao roteiro original. Em meio à rotina atribulada, principalmente no universo corporativo, sai na frente quem é facilmente assimilado.

(Imagem: Visual Hunt)

Comportamento, Moda

Coisas de rico

Ao invés de estudar as populações marginalizadas, o antropólogo Michel Alcoforado dedicou-se a explorar, para sua tese de doutorado em ciências sociais, as classes abastadas do Rio de Janeiro. Em 18 meses de imersão Alcoforado analisou o estilo de vida, o comportamento de consumo e social, e a forma como se diferenciam os “nichos” dentro da alta sociedade. Em matéria para o site UOL, Alcoforado e a antropóloga Valéria Brandini, pesquisadora do consumo de luxo no país, falam sobre o tema em um vídeo rápido e super interessante.

Segundo a tese  intitulada “Coisas de Rico: Tempo, Valores e Posição Social” (2016), muito mais que status, os objetos caros são como um “passaporte de entrada para novos universos“: “Para frequentar lugares exclusivos a gente não precisa ter dinheiro, a gente só precisa ter as coisas de rico e saber lidar com elas“, afirma o antropólogo. A constatação justifica a facilidade de compra de objetos de luxo em nosso país, através de parcelamento (e dos brechós especializados no segmento?), assim como a exibição ostensiva deles.

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Além da capacidade que os objetos possuem de posicionar uma pessoa em determinado grupo, a antropóloga Valéria Brandini também fala sobre a constante necessidade de diferenciação de classes e a forma como o estilo de vida influencia nas escolhas de cada indivíduo, que podem ser diferentes dentro do padrão luxo. Entre elas estão as “não coisas”, como festas exclusivas, refúgios pouco explorados e experiências gastronômicas.

Recentemente comentei sobre alpinismo social e profissional, e sobre como esses códigos são importantes para a construção da imagem (e do marketing) pessoal para posicionar-se no círculo social desejado. Circular pelo “mundo da Moda” me trouxe inúmeros exemplos do valor que é dado às “coisas de rico”: até o cheiro de um perfume de grife é capaz de incluí-lo (ou não) em uma roda de conversa.

Embora avessa ao olhar que distingue pessoas ou profissionais pela marca da bolsa ou pelo bairro onde o escritório está instalado, o poder que os objetos de luxo possuem é inegável. E, independente de precisar ou não adequar-se a algum tipo de padrão, vale repensar a forma como entendemos os grupos sociais (o nosso e os demais), selecionamos e interagimos com nossa rede de relacionamentos, e buscamos o acesso aos “novos universos” através de determinados “passaportes”: “Até que ponto será que nós podemos culpar os objetos quando, na verdade, é a estrutura em que nos vivemos e as relações entre as pessoas que estão em jogo?“, diz a antropóloga Valéria Brandini.

(Imagem: Visual Hunt)

Comportamento, Moda

Pretinho e outros básicos

Mês passado ações em todo o mundo celebraram a Fashion Revolution. O movimento visa incentivar a transformação do sistema da moda, da indústria ao varejo, com a participação de quem faz e/ou consome moda. Além do questionamento “Quem fez suas roupas”?, para estimular a escolha por marcas que atuam com transparência e ética social e ambiental, conscientizar o consumidor sobre a necessidade de comprar menos e melhor é uma das bandeiras dessa revolução.

Avaliar qualidade e versatilidade de uma roupa certamente mudará suas escolhas. O primeiro passo é refletir sobre quantas vezes já usou cada peça do seu guarda-roupa, e quantas composições criou com elas. Essas perguntas também são válidas na hora das compras, e servem para mensurar a relação custo x benefício do que vai levar para casa.

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Peças atemporais intercambiáveis da estilista Sandra Kanayama

 Alinhada com essa ideia, a estilista curitibana Sandra Kanayama lançou recentemente uma coleção de peças combináveis entre si. “Qual é a mulher que nunca teve aquele dia fatídico de abrir o guarda-roupa e achar que não tem nada para vestir? Criamos um sistema com dezenas de variações que vai ajudar nas produções do dia a dia”, diz Sandra. Mais que isso, o design atemporal da grife permite que cada peça transforme-se em diferentes composições com o que já temos no armário e a matéria-prima de alta qualidade e acabamento superior resultam em itens feitos para durar a vida toda.

Consumir moda de maneira consciente tem como objetivo, ao lado das questões macro, trocar gasto por investimento e conscientizar para a não necessidade de trocar 80% do guarda-roupa a cada mudança de estação. Novos modelos e peças da temporada virão, mas pensar nelas como complementos, e não como “tem que ter”, é que faz a diferença.

Para construir um acervo pessoal de moda conciso e eficiente, é importante entender também que, nessa linha de raciocínio, básico não é sinônimo de vestido preto ou camisa branca; mas de aquisições que convertem-se em inúmeras produções ao lado do que cada um gosta de vestir. São, acima de tudo, roupas capazes de atravessar estações quando recombinadas com tendências de moda coerentes com a personalidade de quem veste. Uma calça animal print, por exemplo, pode perfeitamente ser o básico de alguém. Sem pré-definições, o interessante é encontrar suas peças-chave antes de sair por aí com sacolas e mais sacolas de roupa dispensável.

(Imagem: divulgação)

Comportamento, Moda

“A moda está incoerente”

Nas passarelas e nas vitrines, a moda apresenta-se cada vez mais plural. Não apenas oferecendo opções para diferentes estilos. Fundindo-os em composições inesperadas, as produções construídas com variadas referências querem vestir consumidores que não cabem em apenas um lifestyle. A moda está múltipla pois nós estamos também.

Lembro que há alguns anos, ainda na faculdade, estudei que duas macrotendências opostas guiavam o design: de um lado materiais e processos tecnológicos serviam aos que anseiam pelo futuro, enquanto uma segunda vertente abraçava o artesanal e as referências retrô em uma espécie de escapismo. Para desenvolver um produto, cada estudante precisava optar por uma delas, decidir de que “lado” estava. Por que não estar em ambos?

A moda atual traz esses dois polos, há tecido inteligente e mules em jacquard bordado dividindo espaço no closet. Longe de pertencerem a mundos distintos, essas duas vertentes (e muitas outras) fazem parte de um mesmo look: entre a vontade de voltar às origem estáveis do passado, pela incerteza do futuro, e o ímpeto de avançar, pois o que temos já não nos satisfaz, absorvemos e refletimos as duas coisas. E é por isso que o contraste (de volumes, de cores, de texturas) nos representa.

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Adotamos o hi-lo misturando valiosos itens vintage com t-shirt de fast fashion, usando casacos tradicionais com tênis e deixando o conservadorismo de lado para customizar itens clássicos (um bom exemplo é o trabalho da artista Olivia Lambiasi, que agora pode ser adquirido online na Shop2gether em mais uma união entre arte e tecnologia). Desconstruímos modelagens  e invertemos formas de uso, mostramos o que estava escondido com costuras e forros aparentes e tops de renda sobre a camiseta, nos identificamos com o conforto do moletom oversized ao mesmo tempo em que desejamos usar uma calça de couro justíssima.

Não queremos abrir mão de nada. E, além do styling, há a crescente busca por produtos que retratem essa vontade seja através da função ou da estética. De mãos dadas com a macrotendência slowfast, a chamada crono-sensibilidade, que representa a união entre tempo passado e tempo presente, pode ser exemplificada pela recém lançada parceria entre o artista Jeff Koons e a Louis Vuitton, uma “sobreposição do tempo longo e slow das obras-primas imortais usadas por Koons como estampas, com o tempo curto e fast das bolsas fashion (leia mais na matéria do Observatório de Sinais). Da mesma forma o retorno dos logos antigos, aderido por marcas como Levi’s e Ellus em coleções recentes, traz um toque de nostalgia para um modismo revisitado nas últimas temporadas (a logomania) que conquistou consumidores das novas gerações.

Esqueça a necessidade de um formato, da vontade de dar nome ao seu estilo (e de basear-se naquelas ultrapassadas definições de esportivo, clássico ou romântico), das páginas de certo x errado. A autenticidade mora na incoerência. Somos, e estamos cada vez mais, multifacetados. Ser high e low, fast e slow é “a última palavra em fashion“.

(Colagem: Ivy Lemes)