Comportamento, Etiqueta

Não seja deselegante

Sempre achei que Etiqueta deveria constar na grade escolar obrigatória. E cada vez mais acredito que a falta dessa disciplina é responsável por muitos incômodos cotidianos. Práticas simples, que deveriam ser óbvias, precisam ser ensinadas. E não estou falando sobre ordem de talheres. Etiqueta não é frescura (ordem de talheres também não, mas essa é outra pauta).

E é para todos. Para que os passageiros do transporte público aguardem o desembarque. Para que recolham a bandeja da praça de alimentação do shopping. Para que deixem a esquerda livre na escada rolante. Para que decidam o que pedir antes de entrar na fila (ao invés de “empatar” o caixa). Para que não se atrasem (Ô dificuldade!). Para que não perguntem quanto pagamos no sapato que estamos usando e por aí vai. Etiqueta é para facilitar, tornar o dia a dia e as relações mais agradáveis: com uma dose de etiqueta a gente evita colocar (ou manter) os demais em situações constrangedoras, ao invés de tornar um incidente ou uma gafe motivo de chacota diária no escritório. Coloque-se no lugar do outro! Mais que isso, aguce sua percepção. Nem sempre o outro reage a uma situação da mesma forma que você, mas não é difícil notar quando ele está incomodado com uma situação. E educação também é evitar que os demais sintam-se desconfortáveis sempre que possível.

Etiqueta nada mais é que educação e noção do seu espaço. Saber o seu lugar e respeitar o do outro independente de posição social ou hierarquia na empresa. Tudo isso para abrir um tópico que voltarei a explorar: tem tudo a ver com estilo de vida e é o único “complemento” que combina com qualquer look em qualquer ocasião e hora do dia. Precisamos falar sobre Etiqueta.

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Com a proximidade do fim de ano, vale lembrar de algumas boas práticas na hora de circular pelo shopping ou fazer compras. Utilizando algumas das situações citadas acima, o caixa (da praça de alimentação ou da loja) serve para finalizar sua compra e não para escolher o que vai degustar ou comprar: evite atrapalhar quem deseja pagar e ir embora mudando seu pedido ou pensando/trocando/escolhendo itens adicionais na “boca do caixa”. Não é hora nem lugar. Da mesma forma, sua pressa ou agenda atribulada não é justificativa para exigir preferência ou furar filas. Ninguém é mais importante que os demais, nem o único que possui outros compromissos. Aguarde a sua vez!

Lembre-se que o espaço coletivo é… coletivo!!! E sua vontade de espalhar todos os produtos no balcão ou seus pertences para experimentar sapatos deve ser contida a fim de respeitar o conforto alheio: esse espaço é dividido, e aqui entra a boa e velha regra do “seu espaço acaba quando começa o do outro“. O mesmo vale para corredores ou escadas rolantes. Seu grupo de amigas não tem o direito de criar “rodinhas” que atrapalham a circulação ou falar alto nesses ambientes comprometendo  a mobilidade e a comunicação alheia. Tá? “Mas o ambiente é público”. Exato. Público. E nesses espaços a gente não faz “o que quer”.

Depois das compras, pausa para o café. A praça de alimentação está lotada e já terminou seu lanche? Não custa nada continuar a conversa enquanto caminha pelo shopping para que os outros possam apreciar sua refeição também. Custa menos ainda retirar sua bandeja.

(Imagem: Visual Hunt)

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Beleza, Comportamento, Moda

Pouca maquiagem

Visuais clean são uma das principais apostas de beleza. Embora as passarelas e capas de revista simulem a “cara lavada” muitas vezes com a mesma quantidade de produtos usados usados para criar uma maquiagem colorida, a proposta de naturalidade entra em cena para acompanhar os visuais descomplicados que estão em alta e, acima de tudo, a busca por um lifestyle mais leve.

De carona no (in)consciente coletivo, e priorizando a saúde da minha pele, abri mão de uma série de “indispensáveis” de maquiagem nos últimos anos. Mais que repensar minhas escolhas, essa mudança de hábito tem a ver com uma nova forma de entender a beleza (a minha e a dos outros) e com um novo olhar sobre regras que não fazem sentido: a relação obrigatória entre estar arrumada e estar maquiada, por exemplo.

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Meses atrás a participante de um programa que promove mudanças no visual informou que não fazia uso de base no rosto. Atendendo à proposta de transformação, a moça topou experimentar o produto mas não deixou de afirmar, após a aplicação, que preferia sua pele sem base. Em seguida, em depoimento individual, a maquiadora disse não entender “como alguém pode não gostar de ver sua pele mais bonita“. Pergunto: quem é que definiu esse conceito único de “mais bonito”?

Eu sou do time que, muitas vezes, acha o “antes” mais bonito que o “depois” em tutoriais de maquiagem; e entre meus itens de beleza diários a base líquida foi o primeiro a perder espaço. Sim! Acho minha pele mais bonita sem ela. Substituída por um produto em pó e mineral, bem menos agressivo, a nova base não tem “alta cobertura”. Cobrir o que e para quê, se minha pele limpa nunca trouxe incômodo algum? Não estou fazendo campanha contra a base. Mas essa obrigatoriedade de “pele uniforme”, como se a ausência de “reboco” fosse sinônimo de desleixo, é cafona.

Indo além, o título desse post não refere-se apenas aos produtos de beleza. O questionamento vale para toda a “maquiagem” que nos é exigida acompanhada de argumentos rasos.  Em um exemplo pessoal, como profissional de Moda cansei de ouvir que preciso estar sempre com o look impecável: “vai que” algum potencial cliente me conhece sábado a tarde no mercado e eu não estou “com cara” de profissional do mundo fashion?

Poupem-me! A reputação profissional de ninguém é abalada por um moletom com chinelo na fila do pão. Não usar base não quer dizer não gostar de estar bonita. Preferir “cara lavada” não é falta de cuidado. Alternar dias com maquiagem e dias sem maquiagem é, inclusive, uma das minhas maneiras de cuidar da pele.

Tudo isso para voltar a falar sobre beleza, agora sob novos ângulos. Recentemente enquanto reorganizava as categorias do blog notei a ausência de publicações sobre o tema, antes mais frequente. Estou menos vaidosa? Pelo contrário. A vaidade só aumentou, mas a maneira de entendê-la mudou. Pouca maquiagem, e cada vez mais satisfação com o que reflete o espelho. Espero em breve compartilhar novas práticas, produtos e hábitos de beleza pé no chão.

A imagem que ilustra o post é do editorial Quoi de neuf beauté, da Madame Figaro (setembro de 2017).

(Foto: Pawel Pysz)

Comportamento, Moda

Etiqueta vermelha

Não é de hoje que as lojas iniciam suas liquidações de inverno quando a estação mal começou. Mas confesso que esse ano levei um susto quando comecei a receber anúncios de saldos e lançamento de coleção resort enquanto ainda espero o primeiro “frio de verdade” do ano. Sabe aquela antiga chamada de preços baixos que diz “deu a louca no gerente”? Nunca fez tanto sentido. Minha proposta é deixá-lo “fazer o louco” sozinho por diferentes motivos.

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O primeiro deles é que não precisamos acelerar mais ainda as coisas. Do antigo calendário onde as marcas apresentavam quatro coleções por ano (embora não julgue viável voltar a ele) passamos a inserir coleções intermediárias e linhas entre as intermediárias até chegar ao ponto de tirar de cena a coleção de inverno na chegada da estação: as lojas já estão “botando fora” aquela bota que você nunca usou! Mais que estimular o consumo frenético quando o mundo pede (implora!) consciência e responsabilidade com compra e descarte, as liquidações precoces afetam profundamente pequenas, e até médias, empresas e marcas que não podem competir em preço e ritmo.

Olhando por um viés “egoísta”, será que há vantagem real em comprar aquela peça de R$ 300 por R$ 100, ou você só está pagando o que ela realmente vale (ou mais)? E pensando em moda ética, será mesmo que algumas dessas empresas resolveram praticamente doar seus produtos recém lançados, abatendo 70% de seu valor, em um sopro de bondade? Ou há algo muito errado na precificação cheia? Etiquetas que oferecem 60, 70% de desconto em produtos novos abrem espaço para uma importante reflexão: o quanto de lucro abusivo e práticas duvidosas podem conter aí?

(Imagem: Simon Greig Photo via Visual Hunt)

Comportamento, Moda

“O que é slow fashion mesmo”?

Com origem na Europa, e inspirado no movimento slow food, o movimento slow fashion é uma alternativa ao que chamamos de fast fashion. A criação do termo é atribuída à consultora e professora de design sustentável do Centre for Sustainable Fashion Kate Fletcher, e diz respeito a uma forma de criar e consumir moda de maneira consciente. Assim como passamos a dar mais atenção à origem dos alimentos que consumimos, o impacto ambiental e social causado pela indústria da moda nos últimos anos pede uma leitura cautelosa também do “rótulo” do que vestimos

Apesar de estar intimamente ligado aos fatores ambientais, o movimento slow fashion diz respeito a todo o ciclo e pode ser praticado de diferentes formas por quem produz e/ou consome. Da escolha de materiais produzidos com menor impacto ambiental (ou reaproveitados) passando pelo respeito às leis trabalhistas e valorização da mão de obra até o reconhecimento do design autoral, da moda com personalidade e de itens que sobrevivem aos modismos passageiros (e que não por isso ignoram as tendências), adotar o slow fashion é, acima de tudo, uma questão de comportamento.

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Gola de tricô Ímpar

Produzir em pequena quantidade, acompanhar o processo do início ao fim, desenvolver peças únicas e transmitir mensagens genuínas que envolvem cultura, referências e habilidades de quem faz são algumas ações que diferenciam produtos slow fashion das cópias em massa que encontramos em grandes redes. A escolha cautelosa de materiais de qualidade superior e o cuidado com os detalhes visa entregar produtos feitos para durar,  assim como a criação de peças originais busca gerar real identificação com quem veste (na estética e na mensagem): produtos bons e que “falam sobre você” não perdem espaço com a mudança de estação.

Depois que lancei minha marca, dentro do conceito slow fashion, muitas perguntas sobre o assunto chegaram até mim; e é por isso que resolvi falar de maneira geral sobre esse conceito sem ignorar os “contras” apontados. Uma marca de slow fashion dificilmente proporcionará a variedade de cores e modelos encontradas nas araras das lojas de departamentos. E nem produzirá uma coleção em três, quatro ou sete dias para “todos os gostos”. E esse não é o objetivo. Aqui a identidade vem antes das tendências, podendo estar ou não de mãos dadas com elas. Slow fashion envolve, novamente, comportamento e questionamento: precisamos mesmo de todos esses modelos “para ontem”? Precisamos vestir a roupa da moça da novela?

Independente de onde e como cada um deseja consumir, o recado do movimento slow fashion é diminuir a velocidade para refletir sobre essas escolhas. Para criadores de Moda que estão mais preocupados em criar cartilhas de “certo e errado” para incluir ou excluir marcas da proposta levando em conta características que não impactam em seu propósito, e para consumidores que estão buscando novas formas de relacionar-se com a moda, deixo o recado: não existe apenas uma maneira de fazer e praticar slow fashion. Entender os princípios e usá-los sem moderação (e de verdade) é o que importa.

(Foto: Ivy Lemes)

Comportamento, Moda

Dress code do bem

Pode parecer frescura ou uma regra restritiva, mas não torça o nariz para ele: o dress code só está querendo ajudar! Como um bom amigo, ou melhor que muito amigo que “não avisa”, o dress code nasceu para aconselhar e não para impor.

Existem códigos de vestir explícitos, geralmente em convites, e implícitos. Ao circular por um ambiente com os olhos e a mente atentos para entendê-lo, é possível decifrar seu dress code: um passeio na praia, por exemplo, tanto pelo fato de ser um ambiente para relaxar ou praticar atividades físicas quanto pela questão prática, não é lugar para salto alto e calçados em tecido, em especial os claros, não são os mais recomendados. Ao pensar na função principal de um shopping, como centro de compras e conveniência, também podemos deduzir que o ambiente não exige produções elaboradas. Assim como um jantar de negócios é claramente uma ocasião que precisa unir formalidade com um toque de sofisticação.

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Quando o assunto é ambiente profissional, estar atento ao dress code, mais que deixá-lo confortável no ambiente, impacta em sua carreira. Embora nem todas as empresas forneçam, por escrito ou verbalmente, seu código de vestir, reparar em como seus colegas se vestem facilita o entendimento dele. Empresas de segmentos similares, e uma mesma função, podem ter códigos de vestir diferentes de acordo com a história, estilo e “lugar” onde a empresa está (literal e figurativamente).

O dress code nada mais é que um guia de adequação. E estar adequado é importante não apenas quando existem objetivos profissionais ou sociais envolvidos, mas serve para não sentir-se desconfortável em diferentes ambientes e situações (principalmente em espaços ou ocasiões “novos”): ele diz tanto “arrume-se muito” quanto “pode ir de chinelo mesmo”, e vale tanto para quem não sai do salto escolher o salto ideal quanto para quem prefere tênis optar pelo melhor modelo. Não tira personalidade e não deve ser entendido como ditador de “certo e errado”.

Como usar? Com o dress code em mãos (ou na cabeça), analise qual versão de si mesmo é mais adequada (útil + confortável) para aquele local, hora do dia, ocasião e outras variáveis. Lembrando que não é porque 90% das mulheres estão de vestido que precisa estar também: baseie-se no grau de formalidade e não nas peças /acessórios em si.

(Imagem: Visual Hunt)

Comportamento, Moda

Motivos egoístas para comprar em brechó

Um entre muitos textos que li nos últimos tempos sobre consumo consciente de moda dizia que nenhuma roupa é mais sustentável (e responsável) do que a que já existe. O trecho do texto incentivava o consumo de moda em brechós, com a mensagem de que, mais que produzir peças com pouco impacto, é preciso olhar para os produtos que já temos e ainda estão em condições de uso.

Embora os brechós tenham ganhado espaço em publicações e sites de moda, e endereços descolados e até luxuosos, bem diferentes daquele esteriótipo de loja amontoada de peças velhas, o preconceito contra roupas usadas ainda existe. A extensa lista de motivos para garimpar em vintage shops inclui questões ambientais e éticas, como a economia de água e energia, o reaproveitamento e a construção de um guarda-roupa com peças de qualidade, reduzindo a necessidade de comprar novos itens em um curto espaço de tempo.

Porém, a (triste) realidade é que muita gente não está preocupada com isso. Pensando nisso, trago três motivos egoístas para considerar uma visita ao brechó: comprar roupas de segunda mão podem nos trazer vários benefícios pessoais. (Keep calm, é uma ironia).

• Nomes e marcas famosas por menos

Mais que desfilar uma logo, muitas grifes são cobiçadas pela qualidade de seus produtos. Essa característica faz com que peças premium atravessem gerações sem envelhecer, na estética e no material. Um suéter de cashmere, um vestido de seda pura e uma bolsa com um couro de qualidade, por exemplo, dificilmente parecerão velhos. Os brechós que trabalham com marcas selecionadas são uma excelente oportunidade de adquirir itens de moda com bons materiais por preços amigos. Lembre-se que os bons produtos não envelhecem, e ninguém vai saber se saiu da loja ou do brechó.

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Placa informativa no provador e arara em frente à fachada do brechó Acervo de Coisinhas, em São Paulo

• Exclusividade e itens vintage

Mesmo quando o produto não foi produzido como peça única, é muito difícil encontrar alguém com o mesmo item que garimpou em um brechó. Isso sem falar em brechós especializados em peças vintage, onde é possível encontrar complementos e acessórios que deixarão o visual sofisticado e cheio de personalidade. Poucas coisas são mais chiques que uma peça de época ao lado de uma produção básica, como jeans e camiseta, ou de um vestido longo com poucos detalhes. Além disso, o contraste de estilos está em alta; e um jeans original dos anos 80 pode ser bem mais cool que a releitura da peça.

• Moda do momento sem comprometer o orçamento

Nem só de roupas antigas são feitos os brechós. Muitos endereços são destinados a peças atuais, onde é possível encontrar roupas da moda usadas pouquíssimas vezes (ou novas) pela metade do preço ou menos. Sabe aquela vontade de usar um modismo? Procure no brechó! Deixe para gastar mais em itens duráveis, e selecione entre peças de segunda mão aquilo que logo será repassado. Alguns brechós trabalham com trocas, ou oferecem vale compras pelas peças que não usa mais, o que permite que renove alguns itens do seu closet e cada estação sem precisar gastar muito para isso.

• Mais: Dificuldades, o que eu compro e brechó contemporâneo x vintage

Confesso que já consumi mais em brechós do que agora. A mudança de estilo e a busca por peças preferencialmente lisas dificulta um pouco minhas compras em brechós. Outra dificuldade que sinto é com relação ao tamanho: não é fácil encontrar peças pequenas. Obviamente existem roupas que valem o ajuste, mas é preciso avaliar se a reforma é possível (nem todos os tecidos e modelagens se comportam bem quando ajustados) e financeiramente viável. Por essas questões, costumo ficar mais atenta aos vestidos que podem sem “adaptados” com um cinto e aos acessórios, quando o brechó trabalha com peças vintage (as bolsas pequenas de tecido ou bordadas e os cintos de couro são meus favoritos).

Falando nisso, uma visita ao brechó é melhor aproveitada quando escolhemos o endereço certo de acordo com nosso objetivo. Lojas que trabalham com roupas contemporâneas são bons lugares para encontrar itens de moda, mas exigem um olhar atento com relação ao custo x benefício das peças: não foram poucas as vezes que vi camisetas de malha de fast fashion em brechós por preços abusivos considerando que esses produtos não fazem parte da lista de “peças para durar” (tanto no quesito design quanto no quesito qualidade).

Qualidade não costuma ser um problema quando o assunto são itens vintage. Nessa categoria, duas coisas importantes na hora de escolher as peças são: experimentar e avaliar a adequação ao seu estilo pessoal. Experimentar é fundamental pois o tamanho e a modelagem das peças mudou consideravelmente com o passar do tempo, e avaliar como ela se comportará ao lado do que já temos no armário é importante para não fazer uma compra por impulso sem avaliar a pertinência dela em nosso dia a dia.

Além do brechó Acervo de Coisinhas, que ilustra o post e conta com roupas e acessórios predominantemente contemporâneos, também no bairro de Pinheiros, em São Paulo, conheci o brechó Varal do Beco, especializado em peças vintage e figurinos. Vá com tempo para explorar as araras lotadas de roupas até o teto (mesmo!).

(Fotos: acervo pessoal)

Comportamento, Moda, TV & Cinema

Não estarei sempre “na moda”

A relação das pessoas com suas coisas, a publicidade ostensiva a que somos submetidos e a rotina ansiosa das grandes cidades são alguns dos temas abordados em Minimalism: A Documentary About the Important Things (2015). O documentário propõe, através da história de pessoas que aderiram uma forma minimalista de viver e de reflexões de profissionais de áreas como economia, sociologia e até arquitetura, um novo olhar sobre consumo, expectativas e estilo de vida.

Joshua Fields Millburn, um dos minimalistas, conta sobre as mudanças em sua rotina e mente após o descarte de “todas essas coisas que havia trazido à minha vida sem questionar“; e, em outro trecho do documentário, comenta que o problema não está no ato de consumir, mas no consumismo compulsório e no hábito de “comprar coisas porque é isso que você deveria fazer“. É assim no mundo da moda rápida.

“Querem que você se sinta fora de moda semana após semana, para que assim compre algo na semana seguinte”, avalia a consultora de moda sustentável Shannon Whitehead, que também aborda as expectativas criadas por nós e pelos outros com relação ao que “devemos ser”, o que, de certa forma, alimenta a falsa necessidade de precisar vestir algo novo todo dia, de não repetir roupa ou não poder usar um item “fora de moda”. A exigência é geral, e quando trabalhamos dentro desse universo é maior ainda.

Como profissional da área, já senti, direta e indiretamente, a pressão para estar “sempre na moda”. Os argumentos vão de “o dress code dessa empresa de moda exige” a “estar com peças da moda é fundamental para o seu marketing pessoal”. Será?

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Independente da minha extensa lista de questionamentos sobre “o tal” marketing pessoal, entendo que muitas dessas exigências são impostas a nós por alguns mas nem sempre relevantes ou percebidas por tantos e por quem de fato importa. Quando falo sobre “quem importa”, inclui nós mesmos. Afinal, quem mais importa quando o assunto é a minha roupa sou eu (meu bem estar, minha mensagem).  E aí entra um interessante depoimento da Courtney Carver, fundadora do Project 33.

Em seu Projeto 33, Courtney Carver desafiou-se a usar apenas 33 itens por três meses, incluindo acessórios e calçados. A ideia de usar menos do que tinha disponível em seu armário faz parte do processo de desapego que iniciou em 2010 e que não lhe pareceu fácil quando chegou no closet: “Para mim foi uma grande forma de realmente ver do que precisava, o que eu estava usando e se iria fazer alguma diferença”.

Ela conta que trabalhava com propaganda, e muitos clientes com os quais mantinha contato diário. Nos “escritórios criativos”, não apenas de moda, é comum ouvir que precisamos mostrar nosso talento através de visuais modernos e sempre novos. Courtney Carver, com seus 33 itens, conta que “durante esses três meses ninguém notou” a diferença.

Se você pensar no conceito de moda, ele incorpora a ideia de que você pode jogar as coisas fora não quando elas não servem mais, mas quando não têm mais aquele valor social ou não estão mais na moda“. Compartilho esse depoimento da economista e socióloga Juliet Schor e a experiência de Courtney Carver para trazer à tona o questionamento sobre a “necessidade” de estar na moda (trabalhando ou não com ela) e para comunicar formalmente que não estarei sempre na moda. Ainda que isso decepcione alguém ou me faça perder o job.

(Imagem: Visual Hunt)

Comportamento, Moda

De fora do Brasil

Ah, os importados! Em diferentes situações da vida, eles aparecem para jogar na nossa cara seu valor. “Você não tem interesse em vender essas roupas? Mas elas são de fora do Brasil”! “Nossa, aquela camiseta tá mais cara que a outra que comprei fora do Brasil”. “Claro que a qualidade é ótima, é de fora do Brasil”.

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Que muitas coisas funcionam melhor lá pra cima ou do outro lado do oceano nós sabemos. Mas devo dizer que a terra do Tio Sam e a nossa querida “Euro” também tem um montão de porcarias à venda. Até porque muitos produtos de moda “da Itália”, “da França”, “da Inglaterra” são na verdade de países asiáticos e poderiam estar no mesmo container que desembarcou uma hora dessas aqui em terras tupiniquins.

A blusinha da “Forever 21 dos Estados Unidos” é a mesma blusinha da Forever 21 do Park Shopping Barigui. Sinto informar. E mesmo quando made in USA, nacionalidade não garante qualidade: tem produto ruim feito aqui, tem produto ruim feito lá. É. E não se assuste quando encontrar um artesanato nacional mais caro do que a roupa importada, pois o artesanato nacional muitas vezes vale mais mesmo. Sim. Com certeza. Não tenha dúvida.

Gostaria de conhecer o cidadão que espalhou que artesanato deve ser mais barato que produto produzido em série. Porque isso é um equívoco dos grandes. Basta pensar no tempo que demora para ser produzida uma peça feita à mão, e no custo (mais alto) de produtos confeccionados em menor escala. Tudo isso para dizer que a avaliação de um produto vai muito além do local onde foi confeccionado ou adquirido. E que “lá fora” também tem gato sendo vendido por lebre (seja ele chinês, francês ou norte americano).

Portanto, chega de se enganar (ou tentar enganar os outros) com a etiqueta premium imaginária da marca “de fora de Brasil”. Garanto que “dentro do Brasil” tem muita coisa tão legal quanto, e até melhor que.

(Imagem: reprodução)

Comportamento, Moda

Slow tudo

Sempre que leio, escrevo ou converso sobre a necessidade de mudarmos nossos hábitos de consumo de moda, bate uma tristeza. Sinto que esse é um daqueles casos em que a teoria vai bem, mas a prática nem tanto. O fast fashion cresce apoiado nos preços baixos e na facilidade de pagamento, mesmo quando a gente argumenta que basta comprar menos para comprar melhor. E que não precisa ter tanta roupa.

No texto Fast fashion, o plástico e a bolha (leia aqui), publicado em setembro do ano passado, comentei sobre a quantidade de lixo plástico que uma das empresas em que trabalhei produzia; mas principalmente sobre o impacto da escolha de quem consome. Em mais uma incoerência da vida, os que preferem permanecer na bolha costumam ser os mesmos que reclamam que a moda está chata, sem novidades, e que “a indústria da moda” faz mal ao mundo.

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O estilista Ronaldo Fraga falou recentemente ao site da revista Elle sobre a moda ser “o espelho do tempo”: “Nessa loucura que a gente tá vivendo, tem gente dizendo que a moda tá terrível hoje. Não tá, ela tá a cara do tempo”. Sim! A moda é comportamento. E só o comportamento é capaz de mudar a moda. Não apenas o comportamento de consumo, mas a forma como levamos a vida. Repare como a busca por novidades o tempo todo, e a vontade de ter muito, fazer muito, mostrar muito é presente no trabalho, na vida social, nas relações…

Keep calm! Diminuir a velocidade, em muitos sentidos, mudou minha rotina, qualidade de vida e fez muito bem à minha sanidade mental (importantíssimo). É claro que existem urgências, mas a maioria das pressões não precisam ser aceitas: minhas pesquisas empíricas comprovaram que 98% do que dizem ser “urgente” pode esperar.

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Semana passada assisti um vídeo da Jout Jout onde ela conta que ao começar a fazer as coisas mais devagar percebeu que sobrava mais tempo, e nada poderia traduzir melhor o que quero dizer aqui. Muitos dirão o contrário, mas o princípio da rebeldia (de desacelerar em pleno 2017) é fazer o oposto.

Fazer sem pressa, com cuidado, prestando atenção e valorizando cada detalhe e processo (material e humano) são alguns dos fundamentos do slow fashion que servem para ser slow em tudo. Permitir-se respirar ar puro no meio do dia, desligar o celular para almoçar e aproveitar momentos de ócio é importante. Na vida slow, a gente tem tempo de parar para pensar. E é nesse tempo que o pontapé inicial para consumir consciente, entender qualidade x quantidade, fica muito claro. Não custa tentar!

(Fotos: Hans Neumann / Styling: Melissa Levy)

+ | As imagens que ilustram o post são do editorial A Study on Sleep, da Crash Magazine (maio de 2017). Uma das liberdades que assumir o slow me deu foi contar pra todo mundo que, se possível, prefiro agendar o job para o período da tarde. E que isso não tem nada a ver com preguiça de trabalhar.

O vídeo da Jout Jout, acima citado (e linkado), também fala sobre foco e o conceito controverso dessa palavra. Mais uma vez, me representa.

Comportamento, Livros, Moda

Organize e otimize

Ainda encantada com as mensagens e ensinamentos do livro A Mágica da Arrumação, compartilho por aqui dicas práticas da Marie Kondo para organizar (e consequentemente otimizar) o closet. Em um breve resumo para quem não conhece o livro, e o método KonMari de organizar, Marie Kondo começa sua “mágica” pelo descarte e revela (e incentiva) a relação emocional com o que temos tanto para conservar como para descartar o que já nos fez feliz e pode servir ao outro, mantendo-se vivo ao invés de permanecer encostado no guarda-roupa.

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Para descobrir o que ainda faz sentido para você (o que serve), a dica é colocar todas as suas roupas em cima da cama e olhar para elas “como se estivesse selecionando itens na vitrine da sua loja favorita“. Começar pelos itens que não estão em uso atualmente, ou seja, as peças de outras estações, segundo Marie facilita o processo: “como roupas de outras estações não são necessárias de imediato é mais fácil avaliar se trazem alegria ou não“.

Outra boa dica prática é uma ordem que coloco em prática no meu guarda-roupa: organizar as peças das pesadas para as leves, das claras para as escuras. Pode parecer bobagem, mas a organização visual (e aqui também entra, por minha conta, a padronização dos cabides) contribui para a visibilidade dos itens: nenhuma peça leve ficará “escondida” entre itens pesados, e as roupas claras não se perdem em meio às escuras.

Marie Kondo acredita que criar categorias como camisas de algodão, camisas de seda e blusas de malha, por exemplo, é mais eficiente do que separar as peças por ocasião de uso. Entendendo que muitos itens podem servir tanto a uma quanto a outra ocasião, concordo com o formato proposto que também contribui para não deixar itens esportivos bacanas, e que podem compor visuais casuais, por exemplo, esquecidos na “gaveta de academia”. Além disso, o ideal é ter todas às peças que forem possíveis à vista (ao invés de colocar itens de outra estação fora do campo de visão); afinal, vivemos com variações climáticas e ambientes que, com ar condicionado, pedem um “casaquinho” mesmo em dias de sol.

Acrescentando uma experiência pessoal, avalio que o descarte contribui para a assertividade do visual. Já saí de casa com a roupa errada por insistir em usar uma peça encostada pelo simples fato de não deixá-la encostada, mesmo quando já não representava mais o meu estilo (de vida e de ser). Para quem, como eu, escolhe o look com pressa, manter só o que realmente faz sentido diminui muito as chances de errar no visual.

Não importa onde guarde suas peças, uma regra comum é: de vez em quando, abra as gavetas ou portas dos armários para deixar entrar um pouco de luz e ar. Passe as mãos peças roupas. Faça com que saibam que você se importa com elas e que anseia por usá-las novamente. Essa comunicação mantém as peças vibrantes e faz o relacionamento de vocês durar mais“. (Marie Kondo)

(Imagem:  jamelah via Visual Hunt)