Moda, Negócios

Não queremos só trabalhar com Moda. Queremos (e precisamos) sobreviver dela.

Semana passada, antes da polêmica envolvendo o site da Lilian Pacce tomar conta das redes sociais (leia aqui a matéria do Estadão), estava procrastinando no Instagram quando me deparei com um anúncio de estágio para Design de Moda em Curitiba (coisa rara de se ver). Interessada em indicar a vaga a uma estudante que conheço, fui me informar sobre ele. Suas funções, estagiário, serão assistente de corte, assistente de modelagem, acabamentos e finalização de produto em geral, mas você não receberá nada por isso. Um “estágio voluntário”. Termo depois alterado para “estágio curricular”, mas sem alteração alguma na sua conta bancária no fim do mês.

Com funções de costureiro(a) assistente, ou seja, uma das funções mais importantes na produção de um produto de moda (sem costureira não tem produto), o estagiário presta seus serviços gratuitamente a uma marca com fins lucrativos. Lembra aquele papo sobre exploração de mão de obra na China? Como bem posicionou esse post do site Não Combina, ela não está tão longe quanto se imagina. (Teve rima).

Quando falamos em consumo consciente vale ressaltar que, por essas e outras, é preciso ficar de olho em quem faz nossas roupas. Não é só fast fashion que explora. Tem marca local que é “farinha do mesmo saco”. Que gera lixo desnecessário, que não descarta resíduos corretamente, ou que lucra pagando muito pouco (ou nada) pelo trabalho alheio. Não é exagero, não é “mimimi”, é exploração de mão de obra. É!!!

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Lendo os comentários sobre o caso do estágio não remunerado para cobrir a São Paulo Fashion Week para o site da Lilian Pacce, alguns argumentam que “existem momentos profissionais  que dinheiro nenhum paga”, ou que “experiência não tem preço”. Concordo. Tive momentos profissionais que dinheiro nenhum paga. Mas, apenas para chegar ao local do trabalho e realizá-lo com energia (produção de Moda, por exemplo, exige muita!) até o fim da tarde, coloco na conta o transporte e duas refeições. Meu “momento profissional” não era aceito como forma de pagamento no transporte público ou restaurante. E, se não estou muito desatualizada, ainda não é. Essa conta superficial é só o começo: pagamos para estudar (mensalidades + livros + materiais caríssimos) e, consequentemente, adquirir conhecimentos para estagiar em cantinhos divertidos e coloridos.

Com o estágio aprendemos. Mas também deixamos na empresa o conhecimento que pagamos ($) para receber na faculdade onde chegamos através de um meio pago ($) de transporte e que concluímos apresentando trabalhos e provas que exigem a compra (olha o dinheiro de novo aí, gente) de materiais para serem realizados(as). Resta saber quem vai se voluntariar a pagar (não tem como fugir di$$o) essa história toda.

Queremos trabalhar com Moda. E queremos também, ou melhor, precisamos, sobreviver dela. Marcas, e empresários, respeitem os profissionais responsáveis pela sua existência. Consumidores, invistam em moda produzida com ética.

(Imagem: Visualhunt)

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2 thoughts on “Não queremos só trabalhar com Moda. Queremos (e precisamos) sobreviver dela.”

  1. Oi Ivy!! Eu sou estudante do primeiro ano de moda (já cursei um semestre inteiro) e vi esse mesmo anúncio, confesso que fiquei contente pois como você disse, é raro um anúncio desses aqui em Curitiba. Vi que se tratava de um estágio voluntário e achei um absurdo, mas repetindo, como é raro e estou no primeiro ano, decidi enviar uma mensagem pra marca perguntando se eles contratariam alguém sem experiência. E a resposta: apenas alunos que já passaram do segundo ano… fiquei me perguntando em que tipo de mundo esse povo acha que vive! Absurdo!!

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  2. Pois é, Nathalia. Trabalhar voluntariamente para empresas com fins lucrativos não faz o menor sentido, pois independente de ter ou não experiência, o estágio beneficia os dois lados. É muito cômodo para a empresa se colocar em um patamar superior, alegando que o estagiário irá aprender com ela, “esquecendo” que ela está lucrando com o seu trabalho, seja ele intelectual ou operacional. É claro que precisamos de experiência, principalmente no início, mas tenho certeza que pagar uma bolsa auxílio não vai levar empresa nenhuma à falência; e sinceramente não entendo porque alguém abre uma empresa se não pode pagar pelos funcionários necessários. Já fui muito criticada por colegas por recusar trabalhar sem cachê, mas mantenho minha posição. Poderia ter uma grande agência se solicitasse estágio voluntário? Poderia. Mas entre explorar mão de obra e permanecer no home office, continuo com a segunda opção. É difícil argumentar onde faltam princípios, né? Só não desista!!!

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